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  • Revista Brasileira de Estudos da Cano ISSN 2238-1198Natal, v.1, n.1, jan-jun 2012. Disponvel em: www.rbec.ect.ufrn.br

    A cano Tapera de Lorenzo Fernandez, ou a ambiguidade das imagens brasileiras

    Mnica Pedrosa98monicapedrosa@terra.com.br

    Resumo: Neste trabalho, realizo um estudo sobre a cano Tapera, de Lorenzo Fernandez, a fim de observar como o compositor traduz o poema em msica e como poema e msica interagem na cano. Como suportes tericos utilizo conceitos de intermidialidade, a semiologia da msica, teorias literrias de traduo e a imagem como operao de leitura. O trabalho me permite concluir que obras artsticas, em particular esta cano, podem apresentar-se como resposta e proposta ao momento histrico em que se inserem.Palavras-chave: Traduo; Interpretao Musical; Semitica; Cano de Cmara; Lorenzo Fernandez; Imagens.

    Abstract: In this paper, I carry out a study about the song Tapera, by Lorenzo Fernandez, aiming at observing how the composer translates the poem into music and how poem and music interact within the song. As a theoretical basis I use concepts from intermediality, musical semiology, translation literary theories and image as a reading operation. This investigation allows me to conclude that artistic works, in particular this song, can be read as a response and as a proposition to the historical moment where it is inserted. Keywords: Translation; Musical Interpretation; Semiotics; Chamber Music; Lorenzo Fernandez; Images.

    1. Introduo

    Este artigo volta-se para as canes de Lorenzo Fernandez, em particular para a

    cano Tapera, escrita em 1929, a partir de poema de Cassiano Ricardo99.

    As canes de Lorenzo Fernandez, por sua elaborao e pela poca em que se

    inserem, constituem um corpus importante para pensarmos as canes de cmara de uma

    forma geral, e, em particular, as canes brasileiras. Essas canes pintam quadros sonoros

    de paisagens brasileiras dos sertes, das praias, das cidades, de antigas fazendas de escravos,

    sugerem dedilhados de viola, serestas, batuques. Sua msica se apropria de muitas vozes

    98 Professora adjunta na Escola de Msica da UFMG. Graduada em Canto por essa instituio, possui Mestrado pela Manhattan School of Music e Doutorado em Literatura Comparada pela UFMG. Atua como solista e concertista, e dedica-se especialmente pesquisa, divulgao e registro da cano de cmara brasileira. Gravou, em 2010, o CD Canes da Terra, Canes do Mar, com o violonista Fernando Arajo.99 Cassiano Ricardo foi poeta neossimbolista e neoparnasiano. Com o modernismo nas artes ligou-se corrente nacionalista denominada Verde-amarelismo, juntamente com Menotti. Com seu livro Vamos caar papagaios, de 1926, entra na temtica do Brasil indgena e do Brasil colonial, sentidos, nos dizeres de Alfredo Bosi (1979, p.366), como estados de alma primitivos e csmicos. Com Deixa estar, jacar (1931) e Martim Cerer (1928) suas preferncias nacionalistas centram-se cada vez mais na temtica paulista, seja indgena, bandeirante ou ligada penetrao cafeeira, explorando um Brasil primitivo e colorido (cf. BOSI, 1979, p.366).

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    brasileiras, pois so vrios os personagens que povoam sua obra, como o tropeiro, o caboclo,

    o seresteiro da cidade, o violeiro do serto, a me dgua, a senhora da casa grande e a

    escrava.

    O perodo histrico constitudo pelo modernismo nacionalista conturbado e

    apresenta contradies. A atitude paternalista com relao populao rural contrasta com a

    atitude de afastamento das manifestaes populares urbanas; a modernizao nas artes

    convive com o retorno s formas arcaicas do folclore e com a retomada das tradies

    clssicas musicais. Por sua vez, as camadas mais altas da sociedade se aproximam das classes

    populares por meio das manifestaes artsticas. Conflito, discrepncia e desordem,

    resultados da convivncia pouco amistosa entre segmentos dspares da sociedade, contrastam

    com a unio em torno de objetivos comuns, verificada no apenas nos meios da arte culta,

    como tambm nos democrticos ambientes do teatro de revistas e, posteriormente, das rdios,

    nos quais as finalidades artsticas, aliadas aos objetivos capitalistas visando ao lucro, seriam

    mais fortes que os preconceitos. Unio, ordenao e sntese tambm no podem deixar de

    existir nos momentos em que os intertextos musicais, formados a partir das encruzilhadas

    diversas, se constituem como amalgamento de tradies perdidas, modificadas,

    transformadas.

    Nesse panorama, interessante verificarmos como as canes de Lorenzo Fernandez

    dialogam com o perodo histrico, ao responder e ao mesmo tempo propor questionamentos.

    Alfredo Bosi (2004, p.12), ao mencionar as relaes do poema com os tempos da sociedade,

    nos diz que importa trazer luz da conscincia as respostas muitas vezes tensas que a obra

    potica d s ideologias dominantes, venham estas do mercado, do poder do Estado ou das

    vrias instituies senhoras da palavra. Uma das questes que pretendo abordar neste artigo

    refere-se a como a elaborao artstica do compositor esteve ligada s ideologias dominantes

    das correntes nacionalistas que imaginavam uma realidade brasileira integrada e homognea.

    Antes de voltar a minha ateno para a cano Tapera, julgo necessrio desenvolver

    alguns tpicos que nos daro sustentao terica para o aprofundamento neste trabalho. O

    primeiro diz respeito prpria cano de cmara, como se constitui esse objeto e como pode

    ser percebido. O segundo aborda, ainda que em linhas gerais, a ideia de traduo, retirada das

    teorias literrias e usada para pensarmos a interpretao das canes.

    Neste artigo, proponho ir alm da anlise descritiva e estabelecer conexes no apenas

    entre as linguagens musical e literria que compem a cano, como entre a obra e o seu

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    tempo, ciente de que meu olhar para a produo realizada no passado apoia-se em minha

    contemporaneidade, minhas vivncias, meus conhecimentos, minhas percepes.

    Desta forma, utilizo a semiologia da msica como suporte para estabelecer conexes

    entre a obra e elementos externos a ela, o que podemos denominar referncias extrnsecas100.

    A partir da semiologia, utilizo tambm a proposta, que desenvolvi em minha tese de

    doutorado e artigos (2009, 2010), de que uma cano, por meio de seus elementos musicais e

    poticos, cria imagens de modalidades sensoriais diversas. Segundo o neurocientista Antnio

    Damsio (2002, p.123), o conhecimento factual chega mente sob a forma de imagens.

    Portanto, neste trabalho, emprego os princpios de uma metodologia transdisciplinar para o

    estudo da cano de cmara, que consiste no estudo integrado de msica e literatura, tendo a

    imagem como conceito transversal que perpassa as duas disciplinas. Verifico como possvel

    perceber nas canes a visualidade, a plasticidade, o movimento, a espacialidade, a

    temporalidade, e, por fim, os diferentes sentimentos responsveis pela criao de imagens

    ligadas aos nossos vrios sentidos.

    Em resumo, pretendo, neste artigo, observar como Lorenzo Fernandez realiza a

    traduo do poema, como poema e msica interagem na cano e como a cano reflete

    questes socioculturais e afetivas do Brasil nacionalista.

    2. Cano, obra multimdia

    Para pensar a cano, trabalho com conceitos de intermidialidade, que podem, a

    princpio, acarretar certa confuso. Segundo Irina Rajewsky (2005, p.43), o termo

    intermidialidade surgiu nos anos 90 e sua popularidade deu origem a um grande nmero de

    terminologias utilizadas em textos sobre o assunto, como, por exemplo, multimidialidade,

    plurimidialidade, cross-midialidade, inframidialidade, convergncia miditica ou

    hibridizao. Para Claus Clver, em seu texto Inter textus / Inter artes /Inter media (2006, p.

    11-41), intermidialidade diz respeito no s quilo que designamos como artes (Msica,

    Literatura, Dana, Pintura e demais Artes Plsticas, Arquitetura, bem como formas mistas,

    como pera, Teatro e Cinema), mas tambm s mdias e seus textos, j costumeiramente

    assim designadas na maioria das lnguas e culturas ocidentais, como as mdias impressas,

    como a Imprensa, e tambm o Cinema, a Televiso, o Rdio, o Vdeo, bem como as vrias

    mdias eletrnicas e digitais surgidas mais recentemente. Embora interessante e

    100 Referncias intrnsecas so aquelas que relacionam elementos musicais entre si, e referncias extrnsecas so responsveis pela criao de uma infinidade de interpretantes que relacionam a msica a aspectos da vida humana e da realidade que nos cerca. A esse respeito, remeto o leitor a NATTIEZ (1990, 2002).

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    extremamente atual, esta no uma discusso que pretendo desenvolver na brevidade deste

    artigo. Considerarei como mdia qualquer sistema de signos, e, consequentemente, a cano,

    como a unio de dois sistemas semiticos distintos ou de duas mdias, a literria e a musical.

    A cano de cmara ou cano erudita normalmente escrita a partir de um texto

    literrio, gera