a tradi†ƒo po‰tica da can†ƒo popular de chico

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  • CLAUDEIR APARECIDO DE SOUZA

    MSICA E POESIA NAS CANES DE MALANDRAGEM DE CHICO BUARQUE DE HOLLANDA

    MARING 2007

  • UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARING CENTRO DE CINCIAS HUMANAS

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM LETRAS (MESTRADO)

    CLAUDEIR APARECIDO DE SOUZA

    MSICA E POESIA NAS CANES DE MALANDRAGEM DE CHICO

    BUARQUE DE HOLLANDA: A tradio potica e a msica popular.

    Trabalho submetido Universidade Estadual de Maring, para Defesa Pblica, como requisito parcial para obteno do grau de Mestre em Letras, rea de concentrao: Estudos Literrios. Orientador: Prof. Dr. Adalberto de Oliveira Souza

    MARING 2007

  • COMISSO JULGADORA

    Prof. Dr. Adalberto de Oliveira Souza (Orientador)

    Profa. Dra. Marisa Corra Silva (membro PLE)

    Prof. Dr Frederico Augusto Garcia Fernandes (membro convidado)

    Suplente Acio Flvio de Carvalho

    (membro PLE)

  • RESUMO A partir do pressuposto que a cano um gnero hbrido, composto de poesia e msica, estabelece-se uma tradio para suas pores potica e musical. As bases da tradio da modernidade fundadas em Baudelaire fazem eco na elaborao da letra potica. Por sua vez, a cano popular de nossos dias, sustenta-se no resgate da cultura popular, desenvolvido no cruzamento das mltiplas linguagens que vicejaram na esteira da modernidade. A obra cancionista de Chico Buarque de Holanda apresenta-se como paradigma desse contexto. O resgate da tradio do samba, presente nas canes de temtica da malandragem, potencializado pela tradio das letras poticas, singulariza a cano buarqueana na qual a performance e a estrutura meldica apresentam-se como fatores de consolidao do gnero cancionista. Palavras-chave: Poesia Msica Chico Buarque Malandragem.

  • RSUM partir de la prsupposition que la chanson est un genre hybride, compose de posie et de musique, on tablit une tradition pour ces portions potiques et musicales. Les bases de la tradition de la modernit fonds chez Baudelaire font cho dans llaboration de la parole potique. De son ct, la chanson populaire de nos jours, se soutient dans la reprise de la culture populaire, dveloppe dans la croissance des langages multiples qui se sont panouis sur la trace de la modernit. Loeuvre chansonnire de Chico Buarque de Holanda se prsente comme un paradigme de ce contexte. La reprise de la tradition de la samba, prsente dans les chansons de thmatique malandrine, renforce par la tradition des paroles potiques, met en vidence la chanson de Chico Buarque dans laquelle la performance et la structure mlodique se rvlent comme des facteurs de consolidation du genre chansonnier. Mots-cles: Posi Musique Chico Buarque - Malandrinage

  • Agradecimentos: A Deus, pela confiana depositada em mim desde o princpio dos tempos! A meu orientador, Prof. Dr. Adalberto de Oliveira Souza, pela confiana na realizao deste trabalho. A Cleiry de Oliveira Carvalho, pela inestimvel colaborao ao longo do (per)curso.

  • Dedicatria: Aos meus filhos Joo Augusto, Luiz Guilherme e Thaysa; a minha esposa Manoela e minhas irms Maria e Irene, pela presena silente que construiu no meu corao musical um lugar de resistncia.

  • O meio de aprender a msica do verso escut-la. Ezra Pound

  • Sumrio

    CONSIDERAES INICIAIS ......................................................................................... 10

    1. CAPTULO I: A TRADIO POTICA DA CANO POPULAR DE CHICO BUARQUE .......................................................................................................................... 16

    1.1 Chico Buarque Dentro Da Modernidade: Baudelaire, Benjamin E A Fundao Da Tradio Da Modernidade Literria. ................................................................................ 17 1.2 A Cano Popular De Nossos Dias Na Esteira Da Tradio Da Modernidade Literria. ........................................................................................................................... 27 1.3 Consideraes Sobre Poesia E Cano Popular ................................................... 38 1.4 Uma Perspectiva Da Potica De Chico Buarque: O Poeta Flneur Encontra Os Filhos De Caim ............................................................................................................... 44 1.5 Chico Buarque Na Esteira Da Cultura Popular: A Descoberta Do Homem Que Trabalha .......................................................................................................................... 48 1.6 Consideraes Sobre O Contexto Da Temtica Da Malandragem: A Voz Que Nasce Do Silncio ............................................................................................................ 52 1.7 A pera Do Malandro Na Esteira Da Elaborao Artstica De Resistncia .......... 59 1.8 Sociologia Da Malandragem: A Identidade Nacional E A Resistncia ..................... 69 1.9 A Malandragem Como Tradio: O Malandro, O Pcaro E A Saga Dos Anti-Heris 75 1.10 Dialtica Da Malandragem: O Malandro Entre A Ordem E A Desordem............... 79

    2. CAPTULO II: O SAMBA NA TRADIO MUSICAL DAS CANES DE MALANDRAGEM COMO REPRESENTAO DA CULTURA POPULAR .......... 82

    2.1 O Samba E A Cultura Popular.................................................................................... 83 2.2 Performance - A Presena Da Voz............................................................................. 93 2.3 Por Uma Esttica Da Cano Popular De Malandragem ........................................... 97

    3. CAPTULO III: ANLISE ......................................................................................... 104 3.1 Variao Rmica E Meldica Em Homenagem Ao Malandro: O Lugar Da Ordem E Da Malandragem ............................................................................................................ 105 3.2 A Linguagem Musical Na Reconstituio Da Memria Do Samba E Da Malandragem Na Cano Doze Anos ............................................................................ 112 3.3 Tematizao E Passionalizao Na Cano Vai Trabalhar Vagabundo................... 120 3.4 A Performance Musical Na Elaborao Do Discurso Pardico Em Se Eu Fosse O Teu Patro....................................................................................................................... 132 3.5 O Gesto Composicional De Resistncia Na Elaborao Da Cano A Volta Do Malandro......................................................................................................................... 140

    4. CONSIDERAES FINAIS....................................................................................... 149

    5. REFERNCIAS .......................................................................................................... 153

  • 10

    CONSIDERAES INICIAIS

    Para alguns crticos a segunda grande guerra deflagrou incontestavelmente o tempo da ps-

    modernidade, de modo que as distines estabelecidas com a modernidade podem ser

    consideradas indcios capazes de configurar uma ruptura. Entretanto, se os ideais modernos

    de progresso permanecem como sustentculos da histria, ou seja, se no aconteceu uma

    crise das bases materiais histricas que fundaram a modernidade, ainda no estamos

    desgarrados dela, tampouco somos capazes de prescindir do seu estatuto, quando muito,

    podemos posicionarmo-nos num dos seus momentos de maior tenso ou contradio, como

    aponta Antoine Compagnon em Os cinco paradoxos da modernidade (1999).

    O fato que, como afirma Alfredo Bosi em sua Histria Concisa da Literatura Brasileira

    (1987), as profundas mudanas sociais e econmicas do incio do sculo XIX se deram de

    tal forma, que todo o sculo XX pode ser tomado, grosso modo, como momento de

    desenvolvimento daquelas mudanas, sendo que a segunda metade do sculo, pode ser vista

    como o momento de estrangulamento daquelas relaes.

    Dentre os fatores que caracterizam o perodo da modernidade a partir da segunda grande

    guerra podemos destacar a frustrao da sociedade moderna com o processo de

    desumanizao causado pelo acirramento das relaes de produo industrial. No estgio

    moderno da sociedade de consumo as artes buscam novas formas para expressar o

    descontentamento do homem com o mundo, ao mesmo tempo em que o tomam como

    linguagem.

    no acirramento desse contexto que se d a eliminao das fronteiras entre arte erudita e

    arte popular, como resposta esttica resultante do cruzamento das diversas linguagens em

    circulao. No interior dessas estticas, a poesia encontra na msica popular um veculo

    propcio aos tempos de ordem da sociedade industrial e a msica popular, ao encontrar nas

  • 11

    letras poticas um apuro esttico que a singularizou, entra no debate das questes nacionais

    dos anos 60 e 70.

    Assim como o texto literrio e a msica se estabeleceram atravs dos tempos

    autonomamente com seus estatutos prprios dentro do complexo conjunto do conhecimento

    artstico, a cano popular, gnero hbrido de letra potica e msica, torna-se, no Brasil de

    nossos dias, objeto autnomo de estudo, o que se revela nas reflexes de crticos como Jos

    Ramos Tinhoro, Jos Miguel Wisnik e Luiz Tatit, entre outros. Os trabalhos desses

    estudiosos atestam a complexidade da cano popular, assim como a necessidade de

    conceber uma abordagem numa perspectiva multidisciplinar que busque dar conta da

    amplitude do seu domnio: letra, msica, interpretao.

    Este trabalho sugere uma trajetria potica na qual seja possvel perceber as marcas de uma

    pequena trajetria intelectual que vigorou nos anos 60 e 70 e que fez das letras de canes

    populares poesia inscrita no bojo de uma tradio potica caminhando n