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Ele Viu os Céus Abertos Ele Viu os Céus Abertos Michell Baunard Tradução de Albuquerque Medeiros (1908) Editora Central Gospel Digitalizado por SusanaCap Revisado por Lucia Garcia HTTP://SEMEADORESDAPALAVRA.QUEROUMFORUM.COM

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Ele Viu os Céus Abertos

Ele Viu os Céus Abertos

Michell Baunard

Tradução de Albuquerque Medeiros (1908)

Editora Central Gospel

Digitalizado por SusanaCap

Revisado por Lucia Garcia

http://semeadoresdapalavra.queroumforum.com

Sumário

Orelhas:

Introdução

Convivendo fisicamente com o Filho do Homem

Capítulo 1 - Reencontrando as pegadas do evangelista

Capítulo 2 - Eleito discípulo do Mestre

Capítulo 3 - Educado na escola de Jesus

Capítulo 4 - Testemunha fiel do Senhor

Capítulo 5 - A face humana e divina de Jesus

Capítulo 6 - A instituição da Santa Ceia

Capítulo 7 - Durante a Ceia com o Senhor

Capítulo 8 - Ao pé da Cruz

Capítulo 9 - Testemunhando a ressurreição

Convivendo espiritualmente com o Filho de Deus

Capítulo 10 - O primeiro testemunho de João perante os judeus

Capítulo 11 - João em Samaria e a morte de Tiago

Capítulo 12 - João parte para o campo missionário

Capítulo 13 - Combatendo as heresias

Capítulo 14 - O Evangelho de João

Capítulo 15 - A teologia do Evangelho de João

Capítulo 16 - Sua Primeira Epístola

Capítulo 17 - João na ilha de Patmos

Capítulo 18 - O Apocalipse de João

Capítulo 19 - O retorno de João a Éfeso

Capítulo 20 - A escola de João

Canto Sobre as Águas da Ilha

Orelhas:

Este é o livro mais belo e mais rico que alguém já escreveu sobre o evangelista João — a testemunha mais importante e a mais bem informada da verdade do cristianismo. João foi aquele discípulo que destacou-se entre os doze por sua corajosa ternura e fidelidade a Jesus Cristo, fatores que o tornaram conhecido como "o discípulo que Jesus amava " (Jo 19.26).

Seguindo todos os dias Aquele que "tem as palavras de vida eterna" (Jo 6.68) como seu amigo e confidente, João foi o discípulo que mais próximo esteve da transfiguração do Senhor no Tabor, de seu coração na Ceia, e de sua Cruz no Calvário. Foi o evangelista do Verbo, o profeta de Patmos, o pastor de Éfeso, o missionário de Jônia, o filho do Trovão.

Michell Baunard nos faz caminhar passo a passo ao lado de João durante aqueles gloriosos dias em que ele viveu em companhia de Jesus, e após Jesus retornar para o Céu, ainda acompanhamos João em sua trajetória até a ilha de Patmos, e em seguida seguimos os seus últimos passos sobre a face da terra.

Venham, venham, pois não é um artista, não é um atleta ou um retórico que vou fazer vocês ouvirem.

É um homem cuja voz ressoa como a do trovão no céu. O universo tornou-se cativo dessa voz inspirada pela graça. Além de encher o mundo, ela é repleta de uma harmonia celestial indescritível. Esse filho do trovão, que Jesus amou, que é uma das colunas da Igreja na terra, que bebeu do cálice de Jesus, que viu abrir-se o céu e que descansou sobre o seio de seu Mestre, vem hoje até vocês. Um grande correr de cortinas celestiais, um portentoso rasgar de véus vai começar. O céu inteiro é a cena e os crentes em Jesus Cristo reunidos em sua Igreja sobre a face da terra serão os espectadores. Porém, não devemos esquecer que João é um homem sem ciência e sem letras, um pescador de Betsaida, o filho de Zebedeu. Que nos poderá dizer este homem da Galiléia que só conhece a sua pesca? Não irá nos falar de redes e de peixes?

Não, ele nos falará unicamente de coisas celestiais ignoradas antes dele. Esse homem que bebeu sua sabedoria nos tesouros do Espírito Santo, vai fazer empalidecer todos os pensamentos sublimes de Aristóteles e de Platão.

Este livro traz inúmeras informações inéditas sobre o Quarto Evangelista. Seu autor, escrevendo de maneira clara e inspiradíssima, mostra, entre outras coisas, que em lugar algum a Verdade se revela de maneira superior à maneira como ela está no Evangelho, e em parte alguma ela se mostra mais profunda e mais bela do que no Evangelho de João.

Introdução

João foi a testemunha mais importante e a mais bem informada da verdade do cristianismo. Ele foi aquele discípulo que destacou-se entre os doze por sua corajosa ternura e fidelidade a Jesus Cristo, fatores que o tornaram conhecido como "o discípulo que Jesus amava" (Jo 19.26). Quando, ao longo das páginas deste livro, o virmos seguindo Aquele que "tem as palavras da vida eterna" (Jo 6.68) como seu amigo e confidente, o mais próximo de sua glória no Tabor, de seu coração na Ceia, e de sua cruz no Calvário, compreenderemos o direito que o evangelista teve de denominar-se por excelência a "testemunha da Verdade".

Ele foi também um dos discípulos de João Batista. Foi o apóstolo querido de Jesus, o íntimo de sua paixão e de sua glória, o evangelista do Verbo, o profeta de Patmos, o pastor de Éfeso, o missionário da Jônia. João não era uma figura fraca. Não devemos esquecer que apesar de ele ter-se intitulado de o discípulo predileto, Jesus o chamava de filho do Trovão.

João pediu um lugar de honra à direita de seu Rei; mas convém não esquecer que ele se comprometeu em beber o cálice de amargura, e que cumpriu a palavra.

Para ele a perfeição não consistia em contemplar a santidade e a glória do Senhor, mas sobretudo em trabalhar e sofrer. A gloriosa montanha da Transfiguração, onde João foi uma das testemunhas do Salvador, destacou-se tão-somente como um degrau da crucificação. Se ele descansou no seio do seu Mestre, não adormeceu.

Levantai-vos e caminhemos (João 26.46) disse Jesus aos que estavam com ele no Getsêmani. Era para caminhar rumo ao Calvário, para marchar ao combate que o Senhor o chamou. E mais tarde nenhum apóstolo sustentou nem comandou tão brilhante combate como o apóstolo João. Ele refutou a gnose, detestou o nicolaísmo, anatematizou Cerinto e seus erros, padeceu pela justiça, odiou a iniqüidade e amaldiçoou Roma, inebriada de volúpia e de sangue sobre a cabeça das nações.

Mostrou suspensa a taça dos flagelos divinos, repreendeu as igrejas da Ásia por sua inconstância e fraqueza, e até em seus pastores denunciou as máculas. Escrevendo à mocidade cristã que formara, João antes de tudo a felicita por ser forte (1 João 2.13). Fala de lutas, de triunfos e de vitórias. Atravessou o fogo, suportou o exílio, desejou a morte, porque para demonstrar o quanto amava era pouco sofrer, se não conseguisse morrer.

Será possível representar em um livro essa alma tão elevada, essa existência tão grandiosa? A mesma ponderação sobre a impossibilidade de se traçar um perfil completo de um personagem de estatura biográfica tão rica e variada como o apóstolo João foi também feita pelo pastor Agostinho de Hipona, quando no ano 396 ele retirou da vida do homem que viu os céus abertos lições preciosas para o seu rebanho. Assim pregava Agostinho:

Eu, que lhes falo agora, será que poderei esquecer quem sou e o assunto de que trato? Trato de coisas divinas, e sou apenas um homem. Trato das coisas do Espírito, e não passo de um mortal Longe de mim, meus queridos irmãos, a vã presunção de sondar esses mistérios. As lições que lhes apresento tomo-as primeiramente para mim. Talvez seja temerário querer perscrutar desta maneira os mistérios de Deus. Porém, se não podemos penetrar até à Fonte, bebamos juntos, pelo menos, das águas que correm pelo riacho. Se não temos acesso direto aos mistérios de Deus, procuremos ouvir quem teve acesso.

E por sua vez, também explorando as riquezas espirituais e humanas da imensa figura apostólica do apóstolo João, o inspiradíssimo pregador João Crisóstomo propunha, também no século IV, ao rebanho dirigido por ele na cidade Neo-testamentária de Antioquia:

Venham, venham, pois não é um artista, não é um atleta ou um retórico que vou fazer vocês ouvirem. É um homem cuja voz ressoa como a do trovão no céu. O universo tornou-se cativo dessa voz inspirada pela graça. Além de encher o mundo, ela é repleta de uma harmonia celestial indescritível.

Esse filho do trovão, que Jesus amou, que é uma das colunas da Igreja na terra, que bebeu do cálice de Jesus, que viu abrir-se o céu e que descansou sobre o seio de seu Mestre, vem hoje até vocês. Um grande correr de cortinas celestiais, um portentoso rasgar de véus vai começar. O céu inteiro é a cena e os crentes em Jesus Cristo reunidos em sua Igreja sobre a face da terra serão os espectadores.

Porém, não devemos esquecer que João é um homem sem ciência e sem letras, um pescador de Betsaida, o filho de Zebedeu. Que nos poderá dizer este homem da Galiléia que só conhece a sua pesca? Não irá nos falar de redes e de peixes? Não, ele nos falará unicamente de coisas celestes ignoradas antes dele. Esse homem que bebeu sua sabedoria nos tesouros do Espírito Santo, vai fazer empalidecer todos os pensamentos sublimes de Aristóteles e de Platão.

O que o leitor passará a ler é, além de um livro biográfico, um livro de doutrina, útil a todos os que tiverem interesse em instruir-se na verdade. Em lugar algum a Verdade se revela de maneira superior à maneira como ela está no Evangelho, e em parte alguma ela se mostra mais profunda e mais bela do que no Evangelho e na vida de João.

1ª parte

Convivendo fisicamente com o Filho do Homem

Capítulo 1 - Reencontrando as pegadas do evangelista

Betsaida, a cidade onde João nasceu A alguns quilômetros de distância de Nazaré, sobre um monte às margens do lago de Tiberíades, até o início do século 20 era possível ver os restos de grandes ruínas paralelas à costa. Vários blocos de pedra bruta indicavam que ali existira uma grande cidade. Dois blocos se destacavam entre aquelas ruínas.

Um deles representava os restos de um edifício de pequenas dimensões, situado perto da praia, apresentando colunas e pilastras mais antigas que os muros. O outro era um monumento de grande extensão, do qual só restavam duas muralhas prestes a cair, porém ainda ornamentadas de belos fragmentos, de capitéis coríntios, mutilados e estendidos confusamente na relva que os ocultava.

O local daquelas magníficas ruínas apresenta-se hoje desolado e morto. Durante muito tempo o lago de Tiberíades banhou tristemente o que restou daquelas construções amontoadas ou esparsas na margem. Porém ali existiu Betsaida, cidade onde nasceram os apóstolos João e seu irmão Tiago. O próprio nome Betsaida não foi conservado até os nossos dias. Vários séculos depois da morte de João, os turcos que se apossaram da Palestina deram ao lugar o nome de Tell-Houm.

Beit significa casa, e Saindoun significa pesca. Betsaida tinha, portanto, seu nome derivado da principal atividade de seus habitantes — a pesca. Suspensa sobre o golfo mais setentrional do mar da Galiléia, Betsaida se destacava entre dois dos maiores símbolos do infinito: as montanhas e as águas. As montanhas formam, dos despenhadeiros de Gilboé às primeiras colinas do Líbano, um vasto panorama que se abre aqui e ali para melhor mostrar o céu. O lago, que não tem mais de 20 quilômetros de circunferência, fica ao pé dessas colinas. Suas águas célebres banhavam Tiberíades, Corazim, Cafarnaum — nomes históricos e benditos, que comovem o nosso coração.

Nessa praia estavam espalhadas dez cidades, constituindo o que os antigos chamavam de Decápolis. Como último elemento desse cenário grandioso, e formando a moldura do quadro, podia-se ver, ao oriente, o deserto que se estende pela Ituréia, Abilene e Traconites. Ao sul está o Jordão, que sai do lago para descer pelo vale do Hinom. Ao ocidente ficam a planície de Esdrelom e o monte Tabor, sobre o qual todas as tardes o sol descansa e desaparece.

Uma magnificência de natureza mais elevada estava reservada àquela região que Deus ia consagrar com sua presença, e que foi o berço do seu grande evangelista. O historiador judeu Flávio Josefo conta que Felipe, tetrarca da Galiléia, embelezou Betsaida de tal forma que ela perdeu suas características judaicas. É por isso que enquanto Marcos a denomina de aldeia (Mc 8.23), Lucas a chama de cidade (Lc 9.10).

O embelezamento realizado pelo tetrarca Felipe teve um caráter profano. O tetrarca quis adaptá-la aos costumes das nações pagãs, e para que Betsaida nada conservasse de sua origem, Felipe trocou o seu nome para Júlias, em homenagem à Júlia, neta do imperador Augusto. Assim transformada, e situada no caminho da Síria para o Egito, Betsaida foi pouco a pouco sendo invadida pela influência romana. Muitos milionários construíram nela suas mansões e vilas de veraneio. A cidade passou a ser um ponto de encontro para negócios e lazer.

Porém, à sombra da população rica, flutuante e soberba que chegava e saía de Betsaida, havia uma população simples, austera, laboriosa, que protestava energicamente contra as novas idéias e os novos costumes que circulavam na cidade. Essa população era composta, sobretudo, de pescadores do lago, e os seus dias transcorriam distanciados dos homens soberbos e mais próximos de Deus.

Zebedeu, seu pai

Foi entre essas pessoas de trabalho árduo e de fé inflexível que Jesus escolheu dois irmãos para incluí-los entre seus apóstolos. Zebedeu era o chefe da família. Alguns antigos comentaristas levantaram a hipótese de Zebedeu ter sido parente de José, o pai adotivo de Jesus. Porém isso ficou só na hipótese, pois nenhum dos quatro evangelhos fornece qualquer elemento que o confirme.

Zebedeu era pescador. Convém não esquecer que, para os judeus, ser pescador era tido como uma honra quase religiosa. O costume nacional e os ensinamentos dos rabinos faziam do trabalho manual um dever cuja obrigação incluía até os mais elevados sábios e chefes judaicos. Os rabinos exigiam que todos os letrados soubessem um ofício manual. O rabino Gamaliel, em seu livro Hoad, ordenava isso. O ilustre rabino Jochana foi alfaiate; o rabino Judas Levi foi pescador. No antigo oriente, o trabalho manual era um costume e uma lei.

Zebedeu possuía uma barca no lago de Tiberíades da qual ele era o patrão. Às vezes associava-se com outra família de pescadores, cujo chefe se chamava Jonas, pai de Simão Pedro e de André. Consta que desde essa época reinava grande união entre essas duas famílias que o apostolado ia tornar dali por diante inseparáveis. Tiago e seu irmão João eram companheiros de pesca de Pedro (Lc 5.10). Outras vezes Zebedeu era ajudado na pesca por pessoas a quem ele pagava.

Por esta circunstância e outras análogas é que observadores consideravam essa família de pescadores como gozando de um certo bem-estar. Porém, na realidade a maior fonte de riqueza daquela família era o trabalho. Deus não procura fortuna naqueles que Ele resolve convidar para o seu apostolado. Ele também não excluiu os ricos nem os grandes. Porém, geralmente as suas escolhas estão do outro lado. Se houver em qualquer parte, mesmo que seja no oculto de um casebre, em uma rua de uma aldeia perdida, atrás de uma montanha ou no fundo de um bosque alguém que tenha desejo sincero de servi-lo, é lá que ele fará a convocação para sua Seara; é lá que ele derramará sobre a cabeça desse servo a unção que o capacitará para Sua obra.

Dois filhos de Zebedeu exerciam com ele o ofício de pescador, passando a noite no lago, trabalhando pesado, enfrentando às vezes perigosas tempestades, e descendo de dia com ele à praia a fim de negociar o peixe e consertar as redes. O mais velho dos irmãos chamava-se Tiago. Nos evangelhos ele é designado por Tiago "o maior" para ser distinguido do outro Tiago, filho de Alfeu, denominado "o menor". O filho mais moço de Zebedeu chamava-se João. É a sua história que vamos contar aqui.

Na língua hebraica João significa beleza, graça divina, amor. Vários outros personagens da história de Israel já haviam usado esse nome, mas o filho de Zebedeu é quem estava destinado a torná-lo imortal. Além da instrução religiosa que os judeus recebiam na sinagoga, onde o rabino explicava ao povo a lei de Deus, não consta que João tivesse sido iniciado no estudo das ciências humanas liberais. Falando dele em Atos dos Apóstolos, Lucas chama tanto a ele como a Pedro de "homens sem letras e indoutos" (Atos 4.13).

O idioma dos galileus era o aramaico, que passara a ser falado em toda a Palestina desde o tempo do retorno do cativeiro. Porém, o grego também se tornara tão comum na "Galiléia das nações" que João pôde em poucos anos entendê-lo e até falá-lo. Não era por certo o grego das altas escolas, cheio de arte e de tons delicados, tal qual o falavam em Atenas e Alexandria. Era o grego comum, conforme o chamavam, o grego koinê. Um grego "com ares de bárbaro", mais simples, mais popular, mesclado de locuções locais, sobrecarregado de fórmulas hebraicas e do esplendor helênico. Porém um dia os elementos brutos dessa língua, sob a ação do fogo sagrado do Pentecostes, traçarão o perfil da figura divina de Jesus Cristo, e se tornarão a língua do Evangelho de João.

Salomé, sua mãe

A mãe de João era aquela generosa Salomé que mais tarde veremos acompanhando os passos de Jesus durante seu ministério (Marcos 15.40; 16.1). Nada prova, porém, como pretendem alguns autores, que Salomé, mãe de João, fosse parente ou mesmo irmã de Maria, mãe de Jesus. Mas o Evangelho nos faz entender que suas almas ao menos eram da mesma família. Houve um episódio em sua vida que nos forneceu traços visíveis de seu caráter e do seu coração. Foi quando ela se aproximou de Jesus para interceder pelos seus filhos, solicitando para eles um lugar de honra junto ao Rei de Israel (Mateus 20.20-21).

Veremos Salomé mais tarde no monte Calvário. Porém, naquela hora suprema ela não passou de uma mãe cristã. Ela reconheceu que o verdadeiro trono do Rei das dores era uma cruz, e ao ver seu filho João ao pé daquele trono sangrento, no primeiro lugar que tinha pedido para ele, ela certamente se posicionou ao lado do filho e ficou ali até o fim, conservando a fidelidade mais generosa, aquela que sobrevive à morte e que, desfeita em lágrimas, fica junto ao túmulo.

Tendo tido, portanto, uma origem modesta, uma aldeia por pátria, um pescador por pai, uma mulher generosa por mãe, e por única riqueza uma barca, assim foi o evangelista João. Porém, será dessa simplicidade que Deus fará brotar o grande evangelista e o visionário de Patmos.

O João que batizava

Por aquela mesma época outro homem chamado João, o precursor de Jesus, filho de Zacarias e de Isabel, começou a pregar o batismo do arrependimento às margens do rio Jordão. Ele não ostentava a pompa arrogante dos que habitavam a casa dos reis. Sua vida era rigorosa, a alimentação muito simples, a vestimenta grosseira, e ele próprio era ainda mais austero que sua pregação.

Desde o seu nascimento João Batista tivera uma consagração divina. Muito cedo a mão de Deus o arrastou ao deserto desolador e grandioso, que se estende acima do mar Morto. Ali, diante da severa cadeia de montanhas de Moabe, contemplando as grandezas terríveis daquele país abatido, ele se preparou, sob o olhar de Deus, ao ministério dos profetas. O próprio Filho de Deus declarou que, entre os nascidos de mulher, nenhum era maior que João.

Por isto, desde que se fez ouvir "a voz que clamava no deserto", grande número de israelitas se achegaram a João para escutar sua pregação e confessar-lhe os pecados. Porém, além dessa multidão atenta e faminta, João Batista tinha a seu lado seus discípulos, conforme o nome dado pelo Evangelho aos seus ouvintes mais fiéis e mais assíduos. Estes se haviam apegado ao profeta e até o ajudavam no seu ministério sagrado, batizando a multidão. João Batista edificava-os na vida de santidade, ensinando-lhes a orar, iniciando-os nos mais profundos mistérios da fé, preparando-os assim para as próximas revelações do Reino dos céus.

João, filho de Zebedeu, foi um desses discípulos. Não foi preciso ao jovem galileu deixar seu pai nem sua barca. O ano em que João Batista começou a pregar no Jordão era um ano sabático ou de "repouso universal", e por isso João teve tempo suficiente para ir com André ouvir as lições do mestre. Quando mais tarde ele se tornar apóstolo e evangelista, nós o veremos começar a narrativa da vida de Jesus pelo magnífico capítulo do "Testemunho de João." Essas cenas preliminares das margens do Jordão, especialmente circunstanciadas e minuciosamente expostas em seu livro, não poderiam ser relatadas com mais autoridade e mais fidelidade senão por aquele que as havia presenciado.

As primeiras lições que o filho de Zebedeu aprendeu na escola de João Batista foi sobre Jesus Cristo, o Filho de Deus. Enquanto outros historiadores comentaram os aspectos exteriores da pregação do Precursor, o apóstolo penetrou mais além no ensinamento do mestre, retendo e assimilando especialmente as respostas que João Batista dava a seus discípulos sobre aquele que devia ser o Redentor de Israel.

João Batista dizia que não era mais que o Precursor, alguém semelhante aos batedores que no Oriente tinham o costume de caminhar adiante dos soberanos a fim de afastarem qualquer obstáculo que por acaso surgisse no caminho real. Declarava também ser tão-somente o paraninfo que se coloca em segundo plano ao lado do esposo para honrá-lo e servi-lo na festa nupcial. Narrando esses fatos, João torna bem saliente o quanto o coração de João Batista estava desde então preparado para a adoração daquele que havia de vir.

Vós mesmos me sois testemunhas de que disse: eu não sou o Cristo, mas sou enviado adiante dele. Aquele que tem a esposa é o esposo; mas o amigo do esposo, que lhe assiste e o ouve, alegra-se muito com a voz do esposo. Assim, pois, já essa minha alegria está cumprida. É necessário que ele cresça e que eu diminua. Aquele que vem de cima é sobre todos, aquele que vem da terra é da terra e fala da terra. Aquele que vem do céu é sobre todos. E aquilo que ele viu e ouviu, isto testifica; e ninguém aceita o seu testemunho. Aquele que aceitou o seu testemunho, esse confirmou que Deus é verdadeiro. Porque aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus, pois não lhe dá Deus o Espírito por medida. O Pai ama o Filho e todas as coisas entregou nas suas mãos. Aquele que crê no Filho tem a vida eterna, mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece. (João 3.28-36)

Eram estas as revelações que o futuro evangelista do Verbo recebia a respeito do Messias de Israel, antes mesmo que visse a beleza de sua face. Aqueles que, maravilhados pela divina luz que irradia de seu Evangelho, têm procurado saber em que escola filosófica do Oriente, do Egito ou da sábia Grécia aprendera ele essa alta doutrina, devem simplesmente lembrar-se que ele era discípulo do Precursor. João, o Evangelista, herdou-a de João, o Profeta. E João, o Profeta, aprendera-a na escola daquela que, trazendo-o ainda no seu ventre, dissera à Maria:

E de onde me provém isso a mim, que venha visitar-me a mãe do meu Senhor? (Lucas 1.43)

A escola de João não é, portanto, a escola de Atenas ou de Alexandria, de Platão ou de Filon. É a escola de João Batista, de Isabel, de Maria, a escola do anjo da Anunciação, a escola do próprio Céu.

Capítulo 2 - Eleito discípulo do Mestre

Já fazia um ano que João Batista estava pregando, anunciando a magnificência mais que humana daquele "que estava entre os homens, mas que os homens ainda não conheciam". Porém, João Batista o reconhecera à margem do rio Jordão, e dava disso testemunho dizendo:

Eu vi o Espírito descer do céu como uma pomba e repousar sobre ele... E eu vi e tenho testificado que este é o Filho de Deus (João 1.32,34)

O dia em que João viu Jesus

O filho de Zebedeu ainda não o tinha visto, mas tudo o que ouvia dizer desse Mestre extraordinário aumentava cada vez mais o desejo de conhecê-lo, e despertava no seu coração os primeiros indícios daquele amor que ia tornar-se inseparável do seu nome.

A escola de João Batista era para seu discípulo uma escola de doutrina superior e celestial, e ao mesmo tempo o aprendizado de uma vida santamente contrita. Seguindo o exemplo do mestre, dedicou-se ao nazireado, exercício de santidade em que os judeus se consagravam mais particularmente a Deus, fazendo voto de abster-se de bebida fermentada, não tocando em cadáver e deixando crescer intacta a cabeleira (Números 6.1-8).

Acredita-se que João também tenha recebido o batismo do Precursor. Porém, aquele batismo tinha sido só uma preparação para o batismo daquele que batizaria com o Espírito Santo e com fogo. E João Batista bem compreendera isso. Ele preparara o caminho do Senhor, e tornara retas as suas veredas: o Senhor podia vir.

Jesus Cristo, Filho de Deus, apareceu às margens do Jordão no 15º. ano do reinado de Tibério, o 30º. da era cristã, e, segundo cálculos de sábios cronologistas, no começo da primavera.

Havia ali um lugar que os judeus chamavam de Betábara, e que o Evangelho chama de Betânia ou "casa dos navios". Fora naquele lugar que outrora os judeus, guiados por Josué, tinham atravessado o Jordão. Era costume os barcos que navegavam pelo Jordão fazerem uma parada naquele lugar. Como aquela praia era muito freqüentada por causa do movimento dos barcos, João, filho de Zacarias, batizava ali.

Naquele dia João Batista tinha junto de si só dois de seus discípulos. O evangelista João diz que um deles era André, irmão de Simão Pedro. Mas não revela quem era o segundo. Porém, conhecendo-se o seu costume de nomear a todos e não se incluir por uma questão de modéstia, conclui-se que o segundo discípulo era o próprio evangelista João.

João conservou na memória todos os pormenores sobre o aparecimento de Jesus às margens do Jordão. Foi, diz ele, na décima hora depois do nascer do sol. Isso correspondia mais ou menos às quatro ou cinco horas da tarde. Essa era a hora em que os sacerdotes do Templo de Jerusalém ofereciam o sacrifício da tarde, imolando um cordeiro (Números 28.4). Vendo aparecer diante dele o divino Salvador Jesus naquela hora solene do sacrifício da tarde, João Batista aproveitou a ocasião para apontar para ele e dizer aos dois discípulos:

Eis aqui o Cordeiro de Deus (João 1.36).

Foi esse o nome pelo qual João, filho de Zebedeu, aprendeu pela primeira vez a conhecer Jesus. Ele jamais o esquecerá. A designação "Cordeiro de Deus" aparecerá mais tarde nos escritos do evangelista e nos escritos do profeta de Patmos. E veremos nisso uma lembrança daquele grande dia, e como que uma herança de João Batista, seu primeiro mestre.

Não era possível dar ao Filho de Deus que se fizera homem um nome que definisse sua pessoa e sua missão na terra com mais vivo esplendor.

Jesus Cristo é o Cordeiro e o Santo de Deus. Nele não há mácula alguma. Nele só há inocência. Esse Ser absolutamente puro, que desde o pecado original não era neste mundo senão um sentimento e uma lembrança, desceu do seio de Deus para andar entre nós.

Conhecendo o Cordeiro de Deus

O Cordeiro, que é a santidade, é também a doçura. Ei-lo! Ele veio não com o espírito atemorizante com que já outrora abalara o topo do Sinai. Não está mais prevalecendo a lei do temor, e sim a lei da graça. Ele não está mais ali na condição de Leão de Judá, mas sim de o manso Cordeiro de Deus. Veio inaugurar o reinado do Amor, e como o maior amor é o dom da própria vida, eis que esse nome de Cordeiro, símbolo da santidade, emblema da doçura, irá significar agora a vítima do sacrifício. Há muitos séculos que o mundo culpado implorava à virtude um sangue imaculado que o resgatasse e satisfizesse a Deus. Desta vez o sacrifício será digno do Senhor, pois a vítima será o próprio Filho de Deus.

Também de agora em diante não haverá outro sacrifício sobre os altares da terra senão este. Quando Deus estiver irritado, quando os corações estiverem à míngua e clamarem pela vida, será esta mesma vítima que há de abrandar a Deus.

E quando em Patmos o céu se abrir sobre a cabeça de João, o evangelista, ele poderá entrever o Cordeiro, a vítima que foi oferecida desde o começo, que ele viu pela primeira vez nas margens do rio Jordão, que ele viu imolada no Calvário, e que o anjo lhe mostrará na visão de Patmos, coroada e gloriosa. Os dois discípulos, ouvindo pela primeira vez João Batista apresentar Jesus, compreenderam que se tratava do Messias, e decidiram seguir esse novo Rei. E imediatamente passaram a andar com ele ao longo do rio. Tendo consciência de serem tão simples e tão rústicos, temiam aproximar-se dele e conservavam-se à distância por timidez e respeito. Mas Jesus, voltando-se e vendo que eles o seguiam, perguntou-lhes: Que buscais? (João 1.38)

A bondade, a beleza, a majestade da face adorável de Cristo que lhes aparecia pela primeira vez, logo os conquistou. Jesus perguntou-lhes o que eles procuravam. Mas haverá no mundo alguma coisa que se possa ainda tentar achar depois que se viu o rosto de Jesus? Eles nada mais queriam, e num ímpeto responderam: Rabi, onde moras? (v. 38).

Este nome de "mestre" era já uma promessa de que lhe pertenceriam.

Vinde e vede (v.39), Jesus respondeu. Foram e viram onde habitava aquele que criou todas as coisas, mas que viverá neste mundo tão isento delas, que no decorrer do seu ministério declarará que não tem sequer uma pedra onde apoiar a cabeça. E ficaram em companhia dele o restante daquele dia. Porém, o que viram, o que acharam naquele que encontraram? Certamente a beleza divina se manifestou a eles em todo o seu esplendor.

Seria alguma beleza capaz de arrebatar o olhar? Não. Era a beleza incorruptível da justiça, da santidade, da virtude; beleza que o olhar interior pode sempre perceber, e que impressiona tanto quanto mais puro for esse olhar. Ora, João era puro.

Segundo suposição muito bem respaldada dos grandes estudiosos, João tinha naquela época uns 25 anos, idade em que o homem se dedica a buscar um relacionamento profundo com Deus e a conhecê-lo melhor.

A noite chegara. Os discípulos e o Mestre tinham ficado juntos o dia inteiro. De acordo com o método de contagem do tempo utilizado pelos judeus, a expressão "o dia inteiro" também abrangia a noite. A conversa, começada no fim do dia, continuou noite adentro. Passaram toda ela em íntima palestra, e João e seu amigo puderam desvendar algo dos ministérios do Reino dos céus.

Grandioso dia, grandiosa noite para aqueles que os passam com Jesus Cristo em sua casa! "Senhor, onde habitas? Por favor, diga-me onde é a tua morada para que eu possa também fixar nela a minha. Só desejo unir-me a ti, ó Senhor". "Ó, venha e veja!" Quão doces são estas palavras, e como é bom saber onde Jesus habita!

Da parte de nosso Senhor Jesus Cristo, aquelas horas conversando com João e André representaram um ato de eleição.

Nós o amamos porque ele nos amou primeiro (1 João 4.19) João dirá um dia. Foram os primeiros passos admiráveis na direção do Senhor, que resultaram em atenções misteriosas e que só serão conhecidas por homens resolvidos a procurar Deus e a entregar-se a ele.

Irineu, que foi da mesma escola e quase do mesmo tempo em que João viveu, conta que nos últimos anos de sua vida, João ainda se recordava de tudo:

— Todos os anciãos que cercavam João na Ásia afirmavam que João contava freqüentemente como Jesus, na idade de trinta anos, se revelara primeiramente a ele e a André, e lhes ensinara coisas maravilhosas. Alguns ouviram isso não só através do próprio João, mas também pelos outros discípulos, que deram disso pleno testemunho.

Entre esta eleição misteriosa de João e sua vocação ao apostolado de Jesus Cristo ocorreram alguns acontecimentos notáveis. Entre os evangelistas, só João os relatou, porque só ele os testemunhou. Fazem parte da sua particular história com o seu divino Mestre.

"Achamos o Messias!”

Estes acontecimentos ocorreram na Galiléia. A notícia do encontro dos dois discípulos de João Batista com o Salvador não tardou a espalhar-se entre os pescadores do lago de Genesaré. André, o companheiro de João naquelas inesquecíveis horas passadas em companhia de Jesus, não pôde calar a sua felicidade, e assim que retornou e encontrou Simão Pedro, seu irmão, disse-lhe: Achamos o Messias (João 1.41) e em seguida levou seu irmão para conhecer o Mestre. E Jesus impressionou profundamente Pedro ao dizer-lhe:

Tu és Simão, filho de Jonas; tu serás chamado Cefas — que quer dizer Pedro. (João 1.42)

No dia seguinte é a vez de Felipe, também de Betsaida. O Senhor se aproxima dele e o convence a segui-lo. Por sua vez Felipe encontra Natanael, seu amigo, e informa-o que acabou de descobrir aquele que Moisés e os profetas anunciaram. Natanael duvida:

Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? (João 1.46).

Mas Jesus vira esse bom israelita quando ele ainda estava debaixo da figueira. Lembra-lhe a hora, as circunstâncias e talvez alguns segredos. Subjuga-o ainda mais pelo amor do que pela luz, e o discípulo vencido adora o Mestre, o Filho de Deus, o Rei prometido a Israel (João 1.49).

Tal é a narrativa de João, tais são as reticências do princípio da vida que ele passou junto de Jesus, na sua aldeia, no meio de seus irmãos e companheiros, convertidos como ele. Mil particularidades pessoais, alusões locais, a simplicidade da descrição e um tom de verdade realmente inimitáveis dão a essa narrativa o mesmo interesse e encanto de sinceridade que a presença da testemunha dá às memórias íntimas.

Enquanto os outros historiadores se contentam em relatar a vocação definitiva desses pescadores do lago, o apóstolo João, como testemunha ocular, nos conduz preliminarmente à conversão deles. É ele o historiador dessas conversões por ter sido a primeira conquista. Foi dele, foi de André, foi de Betânia e em seguida de Betsaida que partiu a vibração das ondas de poder que em breve irão agitar todos os recantos do mundo.

A água transformada em vinho

A primeira reunião desses discípulos e a primeira manifestação da glória do Senhor Jesus são da mesma época, e é a mesma testemunha que nos conta isso. Natanael, que acabara de reconhecer em Jesus o Messias, morava na aldeia de Cana, a moderna Kafar-Kenna, distante quase cinco quilômetros de Nazaré, e a pequena distância de Betsaida.

Celebrava-se um casamento em uma família daquele lugar. Talvez os noivos fossem parentes de Natanael ou do próprio Jesus. O fato é que Jesus, os primeiros discípulos e Maria foram convidados. Jesus e os que o acompanhavam eram apenas seis pessoas, todas da mesma região, de condição igualmente humilde, unidos por aquela intimidade que encerrava as sementes da universalidade da futura Igreja cristã.

Um jantar familiar durante um casamento inaugura o novo Reino, assim como uma ceia de despedida deverá coroá-lo. Jesus começou por mudar a água em vinho, assim como um dia o veremos usar o vinho como símbolo do seu sangue. Aquele milagre já prefigura a transformação da água da antiga lei no vinho evangélico que vai inebriar as almas em núpcias divinas. E essas almas começarão a maravilhar-se por ele.

Jesus principiou assim os seus sinais em Cana da Galiléia e manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele, João 2.11.

Ali terminava a vida oculta de Jesus. Quando pela primeira vez João encontrou Jesus Cristo nas margens do Jordão, ele o tinha admirado e amado como Mestre. Mas agora, nesta segunda manifestação de sua glória, nas bodas de Caná, João crê nele, e já o adora como Deus. Está subjugado, conquistado para sempre.

A escolha dos Doze

Tinha chegado a hora de Jesus organizar o grupo de seus discípulos. Se Jesus tivesse consultado os mais simples princípios da prudência humana, teria procurado para o acompanhar no seu ministério terrestre pessoas que se equiparavam aos três reis que se haviam ajoelhado diante dele, ou aos doutores a quem ele havia maravilhado no Templo. Ou bastava falar a seu Pai para que uma legião de anjos baixasse à terra. Se ele tivesse agido assim, não teria ido buscar seus colaboradores em barcos de pesca.

Porém, se ele não tivesse escolhido como seus discípulos aqueles simples pescadores, sua obra teria sido puramente humana, e não teria se revestido de uma ternura infinita e de uma força divina. Eis porque o Senhor só abriu o seu coração, com raríssimas exceções, aos ingênuos, aos pobres e aos pequeninos. Ele lembrou-se sempre daqueles que o tinham inicialmente amado. Por isso foi que ele, abandonando os palácios e as escolas, desceu à praia do mar da Galiléia.

Jesus, andando ao longo da praia, viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, os quais lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores. E disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens. (Mateus 4.18)

Em seguida foi a vez de convocar oficialmente João e seu irmão Tiago:

E, adiantando-se dali, viu Jesus outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, num barco com Zebedeu, seu pai, consertando as redes; e chamou-os. Eles, deixando imediatamente o barco e seu pai, seguiram-no. (Mateus 4.21-22)

João abandonou suas redes. Aliás, para seguir a Jesus foi necessário deixar tudo, romper com tudo, tudo sacrificar a Deus.

Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. (Mateus 10.39)

Eleito discípulo do Mestre

De quantas almas essa renúncia de João ia tornar-se a história, e que reinado de consagração a ele Jesus Cristo inauguraria neste mundo!

Capítulo 3 - Educado na escola de Jesus

Jesus, tendo escolhido João e Tiago, tornou-os definitivamente seus companheiros. Porém, Salomé não quis separar-se de seus filhos. É por isso que a vemos seguindo os passos de Jesus juntamente com outras mulheres da Galiléia. Elas se ocupavam com a subsistência do Mestre e recebiam suas lições.

O apostolado para o qual o filho de Salomé tinha sido convidado deveria ser o instrumento de salvação do mundo. Mas era preciso que antes esses rudes pescadores sofressem uma transformação completa. A eles, sim, caberia o trabalho de propagar o evangelho por toda a terra. Pois o objetivo de Jesus não era realizar diretamente, por si mesmo, a obra sobrenatural da conversão da humanidade.

Durante toda a sua vida, o divino Pastor só teve no seu rebanho algumas raras ovelhas do redil de Israel. Em três anos de pregação, de grandes exemplos e de milagres, o Mestre só conseguiu reunir ao seu redor doze apóstolos e setenta e dois discípulos. Isto prova muito bem que ele não foi e não quis ser, durante sua estada neste mundo, um grande ganhador de almas. Como ele mesmo declarou algumas vezes, seu trabalho não era propriamente colher e sim semear. Ele semeou, e em seguida deixou ao tempo o cuidado de fazer brotar as sementes. O trabalho de colher e dar continuidade à semeadura caberia aos apóstolos. Somente depois de sua Ascensão, precisamente no dia de Pentecostes, é que começaria a pregação geral, universal.

Ele constituiu os apóstolos primeiramente com uma grande autoridade e poder doutrinário, por ele assistido até a consumação dos séculos.

Quem vos recebe a mim me recebe; e quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou. (Mateus 10.40)

Assim que reuniu aquele pequeno exército e o armou com sua autoridade, Jesus quis fazer com eles um pequeno treinamento, mandando-os dois a dois às ovelhas de Israel. Aquela missão de algumas semanas proporcionou-lhe ocasião de resumir suas instruções sobre o ministério confiado àqueles singulares evangelizadores do mundo. Deveria ser principalmente um ministério de pobreza e renúncia. Eles foram aconselhados a não possuir nem ouro, nem prata, nem duas túnicas, nem alforges, nem bordão. Deveriam dar de graça o que de graça haviam recebido.

Tinha de ser fundamentalmente um ministério de amor. Eles estavam sendo enviados para curar os doentes, libertar os cativos de espíritos imundos, ressuscitar mortos e levar a paz de Deus a toda a casa onde entrassem. Enfim, deveria ser um ministério de sacrifício, de imolação, e Jesus insistia neste ponto igualmente doloroso e fecundo do seu apostolado:

Acautelai-vos, porém, dos homens, porque eles vos entregarão aos sinédrios e vos açoitarão nas suas sinagogas; e sereis até conduzidos à presença dos governadores e dos reis, por causa de mim, para lhes servir de testemunho, a eles e aos gentios. (Mateus 10.17-18)

Na escola do Mestre dos mestres

Sob a liderança do incomparável Mestre dos mestres Jesus, havia sempre uma escola pública para as multidões à beira dos lagos, na vertente das colinas da Galiléia, no deserto imenso, ou nas galerias do templo de Jerusalém. Jesus ensinava até as sombras da tarde se transformarem em noite, e até a multidão, edificada, curada e abençoada, voltar para as aldeias. Então o Mestre ficava só, rodeado de seus apóstolos. Era quando eles lhe perguntavam:

— Mestre, o que significa para nós esta parábola?

Jesus então abria os lábios e lhes ensinava. Não havia mais mistérios, não havia mais dúvidas. Era a verdade pura, a verdade plena fluindo de sua fonte. Então os discípulos concluíam:

Eis que, agora, falas abertamente e não dizes parábola alguma. Agora, conhecemos que sabes tudo e não precisas de que alguém te interrogue. Por isso, cremos que saíste de Deus. (João 16.29,30)

Tal era a escola íntima do Mestre da verdade.

Escola extraordinária, plenamente alicerçada no amor. Essa escola não tinha só por alicerce o espetáculo de milhares de pessoas milagrosamente saciadas com alguns pães e alguns peixinhos, ou a grandiosa cura de enfermos ao longo das estradas que causava a admiração nas multidões, ou a ressurreição de um adolescente, cujo cortejo fúnebre Jesus faz parar. Mas destacava-se especialmente pela atenção toda especial que Jesus dava ao pedido de um pai que lhe pedira para ir até sua casa curar sua filha enferma; ou pelos sentimentos de um pai que não tinha certeza se Jesus se interessaria em libertar seu filho possesso; ou o caso de uma pobre mulher, que por causa da febre não pôde se apresentar diante do médico celeste. Jesus fez então recuar o povo. Porém, entre os apóstolos, nem todos são admitidos ao privilégio de contemplar esses milagres.

No seio dessa intimidade, há um lugar especial para o apóstolo João. Nos evangelhos há duas figuras que predominam e se destacam das outras por sua originalidade: Pedro e João. Ambos eram amigos do Mestre. Mas, conforme observou um autor antigo, nessa amizade existia uma pequena diferença: "O imperador Alexandre dizia que entre dois de seus amigos havia uma marcante diferença: um amava a Alexandre, o outro amava ao Rei. Poderíamos dizer o mesmo dos dois discípulos: Pedro era amigo do Messias, enquanto João era amigo de Jesus".

João não era somente o amigo íntimo de Jesus. Era "o discípulo a quem Jesus amava", conforme ele próprio se designava no Evangelho. O Senhor o honrou com suas confidencias. No momento de seus maiores milagres, João foi admitido ao seu lado para ali ser o exemplo de amor. Em suas mais elevadas lições ou em suas mais edificantes conversas, foi João que esteve presente para aprender a doutrina da verdade e colher as provas de sua divindade.

Assim João se formou na escola de Jesus. Se a educação de uma criança realizada por um homem é coisa excelente, poucas coisas existem mais dignas de louvor do que contemplar Deus em pessoa dedicando-se a polir o seu apóstolo, talhando-o no mármore da verdade, revestindo-o com o sopro do seu Espírito, aquecendo-o em seu próprio seio, elevando-o gradualmente até aquela semelhança divina.

Foi na Galiléia que João e os discípulos receberam as primeiras lições sobre o Evangelho; e foi para os seus amigos que Jesus reservou, junto com os primeiros frutos de sua graça, as primeiras lições sobre o amor divino.

A manifestação do poder de Deus

Logo nas primeiras páginas dos evangelhos de Marcos e Lucas, lemos que o Senhor foi com os discípulos para Cafarnaum. Naquela cidade, Pedro, que era casado, tinha casa e família. Sua sogra estava doente. Na companhia de Jesus estavam Tiago, João, Pedro e André. Foi sob o olhar atento de todos eles que Jesus, aproximando-se do leito onde jazia aquela mulher enferma e febril, estendeu-lhe a mão e ordenou-lhe que se levantasse. No mesmo instante a doente ficou curada, e levantando-se preparou-lhes uma refeição. O Senhor havia colocado o seu poder a serviço da amizade, e era com esses laços que sua bondade atava ao seu carro triunfal aquele pequeno grupo de pescadores.

Porém, isto foi apenas um prelúdio das maravilhas que estavam por acontecer. Naquele primeiro ano de pregação de Jesus, quando ele e seus discípulos estavam junto ao lago aproximou-se dele um homem. Chamava-se Jairo, e era chefe da sinagoga de Cafarnaum. Jairo lançou- se aos pés do médico celestial, pois sua filha de 12 anos estava morrendo.

Jesus imediatamente atendeu àquele pedido de socorro. Porém, só três discípulos privilegiados deviam assistir ao milagre que se preparava. O Mestre chamou João, Pedro e Tiago, e com eles seguiu para a casa da menina agonizante. No caminho souberam que a menina acabava de expirar. Já em torno da casa ouvia-se a música fúnebre, que, segundo o costume da época, devia rodear de encantos a alma que havia partido. Algumas pessoas disseram ao Messias que ele deveria dar meia-volta, pois sua presença não era mais necessária ali. Os pais da menina estavam em desespero. Porém, as horas de desespero são as horas de Deus.

Jesus, Pedro, Tiago e João entraram naquela casa, seguindo o pai e a mãe da criança. Então, todo o poder do Céu e toda a ternura da terra se inclinaram sobre aquela menina, e João ouviu o Senhor pronunciar palavras de vida e de imortalidade, palavras que mais tarde ele deveria ouvir diante do túmulo de Lázaro:

A menina não está morta, mas dorme. E riram-se dele... E, tomando a mão da menina, disse-lhe: Talitá cumi, que, traduzido, é: Menina, a ti te digo: levanta-te. E logo a menina se levantou e andava, pois já tinha doze anos; e assombraram-se com grande espanto. (Marcos 5.39-42)

O propósito de Jesus era dar grandes lições aos seus apóstolos. A primeira dessas lições foi a de sua divindade. Ele permitiu que só aqueles três discípulos escolhidos presenciassem aquele milagre porque seriam justamente esses discípulos que mais tarde dariam os mais expressivos testemunhos da divindade do Mestre da vida: João, nas páginas do seu Evangelho; Pedro, com o testemunho de sua recuperação após ter negado o Salvador, e Tiago por ter sido o primeiro dos apóstolos a ser martirizado por amor a Cristo.

A segunda grande lição que Jesus deu a seus discípulos foi a de que era necessário começar pelo fazer, antes de dedicar-se ao dizer. João e os que estavam com ele aprenderam que o Evangelho devia ser antes de tudo uma consolação, um socorro, a grande expressão da graça de Deus, preparando desta forma o terreno para em seguida ser uma pregação. O Deus de bondade, querendo formar apóstolos conforme o seu coração, não os levou às academias, nem aos pórticos dos sábios, nem às tribunas dos eloqüentes, mas conduziu-os à escola da ternura, do amor respeitoso e da necessidade da manifestação do poder do Alto: ao leito de uma criança que acabara de falecer.

O entusiasmo de João por Jesus

É fácil imaginar a intensidade do entusiasmo que se apoderou de João por aquele Mestre, e esse sentimento transparece nas palavras que os Evangelhos citam de João.

Naquela época, porém, esse entusiasmo não estava inteiramente livre da mistura de sentimentos egoístas. Como todas as pessoas que amam de verdade, João queria que só o Ser amado fosse grande, só ele fosse honrado.

De maneira que toda e qualquer homenagem ou glória atribuída a outro que não fosse o Mestre parecia-lhe um ultraje, uma usurpação. Além disso, os apóstolos, felizes pela proteção com que o Senhor os cercava, e confiantes em suas promessas, deixavam suas almas serem invadidas por pensamentos de orgulho e de rivalidade, dos quais João também não estava isento.

Mateus conta que um dia começou entre eles uma discussão sobre qual deles seria o maior:

Naquela mesma hora chegaram os discípulos ao pé de Jesus, dizendo: Quem é o maior no Reino dos céus? E Jesus, chamando uma criança, a pôs no meio deles e disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus. Portanto, aquele que se tornar humilde como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus. (Mateus 18.1-4)

Em outra ocasião João viu alguns discípulos que, sem ser da mesma família apostólica, estavam expulsando demônios das pessoas em nome de Jesus. Na opinião de João isso era um roubo sacrílego ao direito dos apóstolos e à honra de Deus. João o proibiu e contou o caso para Jesus:

Mestre, vimos um que em teu nome expulsava os demônios, e lho proibimos, porque não te segue conosco. E Jesus lhes disse: Não o proibais, pois quem não é contra nós é por nós. (Lucas 9.49,50)

João sabia amar, mas não conhecia ainda o dom muito mais difícil de esquecer-se a si mesmo e desaparecer diante dos que querem fazer o bem com sinceridade, mesmo quando nos fazem concorrência e agem de modo diverso do nosso.

Certa vez Jesus resolveu ir à cidade de Jerusalém. O caminho mais curto para a Cidade Santa atravessava a terra de Samaria. Ali se encontram ainda vestígios da antiga estrada que ligava estas duas províncias da Palestina. Os samaritanos, compostos em parte de pessoas vindas de colônias estrangeiras, eram inimigos dos judeus.

O Senhor mandou dois de seus discípulos pedir-lhes licença para passar. Um era João; o outro era seu irmão Tiago. Os dois entraram na cidade, mas os samaritanos negaram-lhes a licença, impedindo-os de passar por seu território. João e Tiago, enraivecidos, perguntaram a Jesus:

Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez? Voltando-se, porém, repreendeu-os e disse: Vós não sabeis de que espírito sois, Porque o Filho do Homem não veio para destruir as almas, mas para salvá-las. (Lucas 9.54-56)

"De que espírito sois?”

Qual era esse espírito que João desconhecia, e mais tarde devia possuir melhor do que os outros e que se tornaria o espírito apostólico? Havia o espírito antigo, o espírito judeu, absoluto, repressivo, que castigava rigorosamente os culpados, executando por si mesmo a vingança divina. O espírito cristão, ao contrário, era um espírito de doçura. O amor perfeito não conhece vingança. Não há arrebatamentos de cólera onde existe o amor em toda a sua plenitude. Não se deve repelir a enfermidade humana, mas sim estender-lhe a mão. O desejo de vingança não entra nas almas transformadas e magnânimas.

Jesus mostrou a João que era preciso amar, que era preciso esquecer-se de si próprio. Os discípulos, antes de conhecerem Jesus, haviam formado uma idéia muito grosseira do Reino de Deus, achando que ele seria o grande império de um príncipe terrestre, cujas fronteiras se estenderiam de um mar a outro. Era o que chamavam de reconstituição do Reino de Israel. Inutilmente Jesus lhes repetia que seu reinado não era deste mundo, que ele devia sofrer os males profetizados ao Varão de dores, e que seus apóstolos e seguidores só deveriam esperar a hora em que carregariam a cruz em sua companhia.

Porém, ninguém o ouvia. O espírito de João era nisto tão lento como o dos outros. Parece até que sendo o maior amigo deste grande rei e estando mais perto do seu coração, ele achava que deveria também estar mais perto de seu trono, nesse império grandioso que todas as esperanças da nação saudavam com entusiasmo e boas-vindas.

Esse era também o pensamento de Salomé, sua mãe. Animada pelo zelo com o qual ela mesma havia sempre servido esse Mestre tão bom, e seguindo os seus passos, ela aproveitou uma ocasião em que o Senhor descia para Jerusalém, a antiga cidade dos reis, para aproximar-se dele e reivindicar-lhe algo que estava dentro do seu coração. Ela achava que estava se aproximando o dia em que o Senhor ia afinal tomar posse do seu trono. O momento era urgente; ela não podia perder aquela ocasião. Aproximando-se de Jesus em companhia de seus filhos João e Tiago, aquela mulher o adorou e fez-lhe um pedido. Jesus a recebeu da seguinte forma:

E ele disse-lhe: que queres? Ela respondeu: Dize que estes meus dois filhos se assentem um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu Rei- no. Jesus, porém, respondendo, disse: Não sabeis o que pedis; podeis vós beber o cálice que eu hei de beber e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado? Dizem-lhe eles: Podemos. E diz-lhes ele: Na verdade bebereis o meu cálice, mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence dá-lo, mas é para aqueles para quem meu Pai tem preparado. (Mateus 20.21-23)

Era costume no conselho supremo da nação judaica colocar abaixo da cadeira principal ocupada pelo príncipe do Sinédrio, dois lugares de honra, denominados o lugar do Pai e o lugar do Sábio.

Ouvindo Salomé solicitar a honra daquela preferência, Jesus tratou imediatamente de desenganar aquela mãe iludida que se equivocara sobre a natureza de seu futuro reinado. Ao ouvir dos filhos de Zebedeu a palavra "podemos", Jesus imediatamente aceitou aquela confissão de boa vontade, e seu olhar divino penetrou o futuro até o dia em que Tiago e João seriam levados ao martírio por seu nome. Portanto, ele não hesitou em prometer-lhe glória muito superior às grandezas terrestres por eles cobiçadas.

Amar a Deus e servir aos homens era bom; esquecer-se de si próprio era ainda melhor. Porém, a grande expressão de amor era sacrificar-se livremente e sofrer. Pois o amor precisa ter sua prova dolorosa, e o dom supremo que ao discípulo o Mestre apresenta é um cálice de dor. Deste cálice Jesus foi o primeiro a beber; foi o primeiro a encostar nele os seus lábios. Jesus não tardou em dar ao seu discípulo uma amostra do que reservava àqueles que o amam a ponto de morrerem por amor a Ele.

Vendo a glória de Deus

João foi um dos três discípulos a testemunhar a transfiguração do Senhor. Jesus quis dar um testemunho particular e brilhante de sua divindade àquele que ia ser o mais elevado no conhecimento de Deus, a fim de que, havendo contemplado a glória eterna e divina, ele pudesse fazer ressoar aquela grande expressão: "No princípio era o verbo!". Além do mais, era necessário que ele tivesse por testemunhas de sua glória aqueles que deviam mais tarde ser testemunhas de seus sofrimentos no jardim das Oliveiras.

Tomou consigo a Pedro, Tiago e seu irmão João, os mesmos que tinham assistido à ressurreição da filha de Jairo, e, deixando no vale os outros discípulos, conduziu aqueles três discípulos até o cume de uma montanha. Segundo a tradição dos tempos apostólicos, essa é a montanha cônica que na planície de Esdrelom ergue o seu cume revestido de sombra e de verdura, e que o sol, todas as tardes banha-a de um suave brilho. Por isso os judeus a chamam de Monte Tabor, que significa "leite de luz". O Senhor transfigurou-se diante daqueles três discípulos. Aquela esplendorosa visão só deveria repetir-se no fim dos dias de João na ilha de Patmos. A face de Jesus resplandeceu como o sol, suas vestes brilharam como uma luz viva e branca como a neve — imagem de sua futura ressurreição e da nossa.

Moisés e Elias, a lei e os profetas, a antiga aliança e o mundo do passado apareceram diante dele, enquanto mais abaixo os apóstolos representavam o sacerdócio e a Igreja do futuro. Moisés e Elias conversaram com Jesus sobre os sofrimentos pelos quais ele ia passar na cidade de Jerusalém. Falaram como se fosse um assunto de alegria e de seu mais ardente desejo. Os apóstolos estavam arrebatados. Naquele instante ouviu-se uma voz que dizia:

Este é o meu filho amado; a ele ouvi. (Lucas 9.35)

Todo aquele episódio superou as forças daqueles três homens limitados e mortais. João e seus companheiros aterrorizados, ficaram por algum tempo estendidos, prostrados no chão. Jesus os levantou, a visão se desfez, e os discípulos receberam ordem de não revelar a ninguém o que acabavam de ver até o dia em que o Filho do Homem tivesse ressurgido dentre os mortos.

Mais tarde falaram sobre isto como uma das maiores experiências da vida evangélica. Pedro escreveu em sua segunda epístola:

Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas, mas nós mesmos vimos a sua majestade, porquanto ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da magnífica glória lhe foi dirigida a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me tenho comprazido. E ouvimos esta voz dirigida do céu, estando nós com ele no monte santo. (2 Pedro 1.16-18)

Quanto a João, é sem dúvida a esta manifestação e a esta voz que ele se refere quando, logo no começo do seu Evangelho, depois de ter proclamado a divindade do Verbo encarnado, acrescenta:

E o verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e verdade. (João 1.14)

O raio celeste que brilhou no monte Tabor iluminou a mente de João e abrasou o seu coração. E assim foi que gradativamente o Mestre realizou a educação de seu apóstolo mais querido: a educação da fé e do amor. Nas lições e cenas que acabamos de descrever, Jesus havia-lhe demonstrado as provas de sua divindade com a realização de seus milagres. Deu-lhe os exemplos do espírito de amor cristão e apostólico, da bondade e da doçura, da dedicação para com os outros e da renúncia de si próprio. Porém, essas verdades ficarão apagadas em sua mente até que o Espírito Santo venha vivificá-las:

Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito. (João 14.26)

Aqueles ensinamentos eram apenas sementes depositadas no seu coração. Um dia o fogo do Pentecostes as acenderá com sua chama, e veremos então que colheita João fará daquelas sementes.

Capítulo 4 - Testemunha fiel do Senhor

Sendo o discípulo amado do Mestre, João sempre falou como testemunha íntima. Ele recorda este título a cada instante. E foi graças a esse privilégio que ele pôde ver melhor, mais perto e mais a fundo os mistérios e a beleza da alma do Mestre amado. Essa condição também é comprovada ao lermos o Quarto Evangelho.

Mil particularidades de lugar, de tempo e de estilo revelam a presença pessoal do narrador no local onde os fatos ocorreram. As reflexões ardentes e profundas denunciam a presença do coração do amigo particular do Mestre. O seu livro também faz com que nós vejamos, ouçamos e toquemos o Verbo de Deus verdadeiramente vivo em sua narrativa. Em toda a parte o discípulo aparece sob a capa do evangelista, e nós o seguimos, por assim dizer, graças à irradiação de sua alma e o rastro de seus passos.

Colocando em ordem a Casa do Pai

A primeira vez que se nota a presença de João na vida pública de Jesus é em Jerusalém, para onde o Senhor descera a fim de participar da Páscoa, seguido pelos discípulos. Chegando à cidade, Jesus subiu ao Templo para dele tomar posse em nome de Deus, seu Pai.

Ao chegar diante do Templo, Jesus encontrou a entrada obstruída por mercadores de toda espécie. Havia ali vendedores de bois, de carneiros e de pombos, que proviam as vítimas e os outros itens utilizados pelos judeus vindos para sacrificar. João também viu ali os cambistas, pois o imposto de duas dracmas, previamente cobrado para as despesas do culto, devia ser pago em moeda judaica. As moedas pagãs, modeladas com a efígie de ídolos e imperadores pagãos, eram proibidas no Templo santo.

Diante daquele quadro, o Filho de Deus, armando-se de um chicote, expulsou os vendedores sacrílegos e virou as mesas dos cambistas com uma autoridade que declarou ter recebido do próprio Pai:

E disse aos que vendiam pombos: Tirai daqui estes e não façais da casa de meu Pai casa de vendas. (João 2.16)

João admirou o zelo e a indignação sagrada do novo Finéias:

E os discípulos lembraram-se do que está escrito: O zelo da tua casa me devorará. (João 2.17)

Quando os judeus, indignados diante da audácia de Jesus, perguntam-lhe com que direito ele agia e falava daquela maneira, Jesus apelou imediatamente para a autoridade dos seus milagres. Ele se referiu logo ao maior de todos eles:

Derribai este Templo, e em três dias o levantarei. (João 2.19)

Os judeus não compreenderam essas últimas palavras, e só viram nelas motivo para incriminar Jesus. Porém, mais tarde João, diante das evidências da ressurreição do Senhor, entendeu-as e nos deu a explicação:

Mas ele falava do templo do seu corpo. Quando, pois, ressuscitou dos mortos, os seus discípulos lembraram-se de que lhes dissera isso; e creram na Escritura e na palavra que Jesus tinha dito. (João 2.21-22)

A partir daquela data os milagres passaram a jorrar das mãos de Jesus, e João observou que, diante daqueles sinais e prodígios, os judeus se dividiram em dois grupos: uns criam nele, outros desconfiavam de sua influência nascente, principalmente os chefes de Israel, que viam em Jesus uma ameaça contra o poder deles.

O encontro com Nicodemos

Em todo o caso, entre aqueles líderes uma exceção foi assinalada e descrita por João. Atraído pela autoridade e pelos sinais que Jesus operava, aproximou-se dele um doutor da lei que o apóstolo seguirá em cada uma das fases de sua lenta conversão e de sua perseverança. Chamava-se Nicodemos. Ele era, no tempo de Jesus, um grande sábio muito famoso. Conforme o uso do tempo, João deu-lhe o nome de príncipe, título que os sábios da nação atribuíam a si mesmos. "Há três coroas", diziam esses sábios orgulhosos: "a coroa da lei, a coroa do sumo sacerdote e a coroa do soberano; mas a do rabino está acima da coroa do rei". Estamos, pois, em pleno centro dos hábitos, dos costumes e da história judaicos. Homem reto, porém tímido, Nicodemos veio ao encontro de Jesus durante a noite para não comprometer sua dignidade de doutor em uma entrevista pública com um galileu.

Este foi ter de noite com Jesus e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele. (João 3.2)

A resposta de Jesus é, no Evangelho de João, o modelo de todos os discursos que ele proferirá daí em diante em Jerusalém, na presença das pessoas de cultura às quais eles são dirigidos. Todas as questões levantadas nas escolas e sinagogas, a purificação pelo mistério da água, o novo nascimento espiritual, os dons e as virtudes dos "homens de espírito", conforme se denominavam esses sábios, todos esses assuntos são resolvidos pelo Mestre dos mestres, que, sem demora, dali se eleva à revelação dos maiores mistérios de que ele mesmo é o centro. O maior de todos eles é o mistério da encarnação, o mistério do Deus que se fez homem e desceu do céu para falar com os homens:

Na verdade, na verdade te digo que nós dizemos o que sabemos e testificamos o que vimos, e não aceitais o nosso testemunho. Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais? Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do Homem, que está no céu. (João 3.11-13)

O mistério do amor divino e da vida eterna foi manifestado por Jesus na bela frase que tantas vezes encontraremos em João:

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o sei Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3.16)

Esta linguagem, profunda e simples, não pertence ao homem: é a do próprio Deus. As palavras trocadas durante essa célebre conversa entre o doutor da lei e o Deus do Evangelho marcam a transição entre os dois Testamentos. A partir dela a Igreja passa a suplantar a Sinagoga. Uma nova religião, mais elevada, mais completa, mais espiritual, estava sendo fundada, e o doutor judeu acabava de ouvir a primeira e a maior palavra daquela religião do futuro, palavra que encherá o Evangelho de João: O amor; o amor de Deus pelo homem e o amor do homem por Deus.

Toda aquela conversa, por mais admirável que seja, não era senão o curto resumo de uma grande pregação. Mas este resumo condensa em um foco luminoso toda a doutrina de Cristo. Ao longo dos séculos, muitas pessoas têm perguntado como João pôde ficar sabendo do conteúdo dessa conversa, levando-se em conta que ela foi secreta, confidencial. Que relacionamentos particulares fizeram com que João penetrasse nesses segredos? É um assunto que retornaremos mais tarde, e assim teremos uma nova prova da fidelidade do testemunho de João.

O encontro com a samaritana

Passadas as festas, os chefes dos judeus começaram a irritar-se ao ver a fama e o crescimento de Jesus na opinião do povo. Jesus decidiu então voltar para a Galiléia, e João e os outros discípulos o seguiram. Escolheram a estrada de Samaria. Foi naquela estrada que o Filho de Deus teve a sublime conversa com a samaritana, e deste episódio João, o fiel companheiro de Jesus, anotou o local, o instante e os incidentes com uma precisão que marca a impressão de seus passos sobre os passos de Jesus.

Depois de uma jornada difícil, o Senhor chegou a uma cidade de Samaria chamada Siquém ou Sicar - lugar de gratas recordações para os judeus. Abraão, descendo da Mesopotâmia, ali levantara um altar. Jacó ali comprara terras para seu filho José e cavara um poço que João denomina como seus contemporâneos, "fonte de Jacó".

Eu te tenho dado a ti um pedaço de terra mais que a teus irmãos, o qual tomei com a minha espada e com o meu arco da mão dos amorreus. (Gênesis 48.22)

Foi à beira desse poço, até hoje conservado, e do qual se pode medir a profundidade, que Jesus se sentou.

O Senhor estava fatigado da caminhada, diz João (João 4.6). De Jerusalém até a cidade de Sicar são três dias de viagem por estradas ásperas e sob os abrasadores raios do sol da Síria. Jesus estava com fome e com sede. Após enviar seus discípulos, inclusive João, para procurar alimento na cidade, Jesus ficou descansando naquele lugar, quando chegou uma mulher trazendo um cântaro na cabeça, à maneira oriental. Viera buscar água na fonte de Jacó. Era isso quase à hora sexta (João 4.6), observa João, hora correspondente ao meio-dia, hora em que o sol está na plenitude de sua força. Jesus, vendo aquela mulher que vinha tirar água, pediu que lhe desse de beber.

João não ouviu pessoalmente o diálogo, mas certamente se inteirou mais tarde dos detalhes. Teve a oportunidade de saber dos próprios samaritanos, por ter ido logo depois do Pentecostes levar-lhes a notícia sobre o batismo no Espírito Santo e os primeiros frutos do seu apostolado. Além disso, a samaritana, após ter sido encontrada por Jesus, passou a contar sobre esse encontro a todos, com o entusiasmo de uma mulher que encontrara a graça e a verdade. Da indiferença zombeteira para com aquele judeu desconhecido que, ousando ir contra os preconceitos de sua nação, conversou com uma estrangeira, de repente aquela mulher passou à admiração, sobretudo quando o ouviu falar de uma água viva e espiritual, a única capaz de matar a sede que atormenta as almas.

Uma dessas almas, manchadas, porém sequiosas de reabilitação, era ela mesma. Ouvindo humildemente aquele homem inspirado revelar os erros de sua vida, ela reconheceu em Jesus um profeta, e submeteu-lhe a grande questão que separava os judeus dos samaritanos: Onde se deveria adorar? Seria em Jerusalém? Seria numa das montanhas do Ebal ou no monte Gerizim? Do lugar onde se achavam avistava-se, erguido sobre o cume daquele monte, o templo separatista dos samaritanos, do qual ainda existem ruínas.

O Verbo de Deus dignou-se instruí-la. Aquela pobre mulher aviltada, desprezada, recebeu de Jesus a sublime revelação do caráter especial da Boa Nova:

Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o pai em espírito e em verdade, porque o Pai procura a tais que assim o adorem. (João 4.23)

Enfim, um instante depois o Messias revelou-se a ela: "Eu o sou, eu que falo contigo" (João 4.26). Deixando ali o cântaro, correu a anunciá-lo na cidade. A cidade era próxima. Do poço de Jacó avistavam-se os telhados chatos de Sicar, que brilhavam através da folhagem pálida e espigada das oliveiras. Em parte nenhuma se mostra melhor a fidelidade da testemunha ocular como nesse lugar, nessa conversa e nessas circunstâncias.

Quando os discípulos retornaram trazendo o alimento que tinham ido comprar, João diz que todos eles se espantaram ao ver o Mestre conversando com uma mulher samaritana. A surpresa deles não foi menor ao vê-lo recusar o alimento que tinham trazido. Em palavras rápidas trocadas confidencialmente entre si e ouvidas por João, perguntavam-se: Trouxe-lhe, porventura, alguém de comer? Mas o pensamento de Jesus naquele momento estava voltado unicamente para a realização da vontade de seu Pai e a salvação das almas.

A grande obra que alimentaria e saciaria o coração de Jesus era a da conversão do mundo. Ao redor dos discípulos e do Senhor as espigas balançavam nos campos férteis. Mostrando então aos apóstolos aquelas futuras e ricas colheitas, Jesus Cristo disse-lhes alegoricamente:

Não dizeis vós que ainda há quatro meses até que venha a ceifa? Eis que eu vos digo: levantai os vossos olhos e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa. E o que ceifa recebe galardão e ajunta fruto para a vida eterna, para que, assim o que semeia como o que ceifa, ambos se regozijem. Porque nisso é verdadeiro o ditado: Um é o que semeia, e outro, o que ceifa. (João 4.35-37)

Sementes favoráveis acabavam de ser depositadas naquela terra de Samaria, cujos habitantes, impressiona- dos com as palavras da pecadora, vieram pedir a Jesus que permanecesse com eles. Jesus lhes atendeu, ficou naquela cidade durante dois dias e muitos creram nele. Muitas daquelas pessoas de Samaria serão futuramente batizadas pelo diácono Felipe; João em seguida virá para confirmá-las. Será um dos ceifeiros destinados a ajuntar a colheita espiritual naquele campo semeado e regado com os suores do Mestre.

Depois de sair de Sicar, Jesus continuou viajando rumo à Galiléia, dirigindo-se a Caná e Cafarnaum.

 

O paralítico em Betesda

A festa que atraiu pela segunda vez Jesus à Jerusalém era, segundo uns, a solenidade pascal, e na opinião de outros, a festa de Purim. A chegada do Senhor foi marcada por um de seus milagres. Havia naquela cidade uma piscina famosa da qual ainda existe vestígios, e que João nos descreve ligeiramente. Chamava-se em hebraico Betesda, isto é, "casa de misericórdia". Estava situada perto de uma das portas da cidade, denominada Porta das Ovelhas, pois era costume dos pastores levarem os rebanhos para ali beberem. Tinha cinco alpendres, conforme observação de João. Pelas escombros que ainda existem dela, pode-se reconhecer os vestígios de uma galeria circular para onde se descia através de uns degraus de mármore. Deitado em uma cama estava ali um homem que há 38 anos era paralítico. Ele estava ali esperando que o anjo viesse revolver a água a fim de que ela adquirisse a virtude curativa. Mas não havia ninguém que ajudasse aquele homem a entrar na piscina quando o anjo agitava as águas, observa o narrador com a exatidão ordinária de seu testemunho.

Jesus passou por ali, viu aquele homem estendido, e sabendo que havia muito tempo que ele estava doente, perguntou-lhe: "Queres ficar são?" E em seguida, disse-lhe:

Levanta-te, toma a tua cama e anda. Logo, aquele homem ficou são, e tomou a sua cama, e partiu. (João 5.9)

O amor fizera a sua obra, mas o ódio ia começar a sua. O dia em que essa cura ocorrera era um sábado, lembra João. A obrigação em se observar o repouso do sábado tinha se tornado naquela época uma superstição terrível e cega. O castigo infligido indistintamente contra o idolatra, contra o assassino e contra quem violasse o sábado era o exílio. "Deus perdoa qualquer pecado a todo aquele que guarda o Sábado, menos o pecado de não guardá-lo", diz um texto do Talmud.

As autoridades judaicas ficaram então enraivecidas contra aquele que acabava de se colocar acima do sábado, restituindo a saúde a uma mortal criatura de Deus. A hipocrisia dos fariseus culpava tanto o doente quanto aquele que o curara milagrosamente. Diante de suas pérfidas censuras, Jesus respondeu com uma só palavra:

Meu Pai trabalha até agora e eu trabalho também. (João 5.17)

Isto é, há um sábado que Deus não conhece, é o sábado do bem. O quê? Chamar a Deus de seu Pai é fazer-se igual a Deus. Isto era uma grande blasfêmia. Travou-se um longo debate sobre aquela afirmação tão audaciosa, incrível, absolutamente provocadora. Jesus fez ainda naquele momento uma longa exposição sobre sua divindade. Porém, como a fúria dos fariseus tornou-se cada vez mais ameaçadora contra ele, foi necessário ele e os discípulos deixarem Jerusalém por algum tempo e voltarem à Galiléia.

Após retornar à Galiléia, a narrativa de João nos coloca de novo diante do lago de Tiberíades, de Cafarnaum, dos barcos e pescadores, da fé singela da multidão e do entusiasmo do povo em seguir Jesus Cristo até no deserto. É nessa ocasião que João nos conta a multiplicação milagrosa dos pães e peixes, a noite em que Jesus andou sobre o mar, suas pregações sublimes na sinagoga, a emoção dos ouvintes, a futura instituição da Santa Ceia.

Jesus na Festa dos Tabernáculos

No entanto, aproximava-se a festa dos Tabernáculos. Celebrava-se em outubro e era a mais alegre das solenidades judaicas. Como recordação do tempo em que os hebreus viveram no deserto, o povo construía nas ruas e praças da cidade tendas de folhagem onde permanecia durante sete dias. Faziam-se sacrifícios, e os judeus, desfilando, com palmas verdes nas mãos, subiam ao Templo para render graças a Deus.

Os irmãos de Jesus insistiram com ele para que fosse àquela festa, a fim de tornar-se conhecido. Mas o Senhor deixou que primeiro partisse todo o cortejo dos seus parentes, e mais tarde encaminhou-se em segredo para a cidade, onde já era o assunto de todas as conversas.

João relata a cena de surpresa e admiração de que Jesus foi alvo na cidade Santa, quando de repente, no momento em que todos achavam que ele estivesse na Galiléia o Senhor apareceu no Templo. Imediatamente as pessoas o rodeiam, ouvem-no e admiram-se da eloqüência inexplicável de suas palavras.

Como sabe estas letras, não as tendo aprendido? (João 7.15)

A impressão de assombro que a pregação de Jesus causava sobre o auditório daquela época é a mesma que sentimos quando lemos o evangelista. Convém observar que as pregações que Jesus fazia na Judéia não eram mais as simples e fáceis parábolas que tinham feito o povo vibrar e se maravilhar nas colinas da Galiléia. Aqueles a quem o Mestre se dirigia agora eram os doutores que repetiam sobre si mesmos que "o rabino deve absorver-se inteiramente na ciência sagrada, a qual possui a chave do céu, e o torna igual a Deus".

A esses escribas tinha sido exigido primeiramente galgar os três degraus da iniciação antes de obterem o direito de sentar-se na cadeira dos profetas. Esses eram os judeus helenos vindos das brilhantes cidades de Atenas, Roma, Éfeso e Alexandria. A linguagem dirigida àqueles espíritos polidos e curiosos dos assuntos de difícil compreensão não podia ser a mesma utilizada para instruir os rústicos e ingênuos habitantes das margens do lago de Genesaré. Portanto, se as pregações de Jesus, colhidas por João, diferem pela forma das registradas pelos outros evangelistas, é porque João nos transmitiu particularmente o ensino de Jesus em Jerusalém, a principal cidade dos príncipes dos sacerdotes e dos chefes de Israel.

Os escribas perguntavam entre si: "Onde ele aprendeu isto?" Era um milagre de natureza intelectual, não menos extraordinário que os de natureza física e para o qual pediam explicações.

Jesus dá sempre a explicação de que ele é Deus. Sua sabedoria não é uma ciência humana, laboriosa; não depende de estudo, ela flui da fonte divina; não vem do homem, mas d'Aquele que o enviou e por isso que Jesus diz que "minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus ou se falo de mim mesmo".

Aquela palavra autorizada, confirmada pelas obras, abalava os espíritos, e João nos coloca bem no meio da hesitação desse auditório tão dividido. O povo tomara de boa vontade o partido do profeta, mas queria ver brilho e ilustração naquele a quem se entregava, e Jesus não era mais do que um operário de Nazaré: Bem se sabe de onde ele vem! Vinte vezes o povo levantará a mesma objeção contra Jesus. Sabeis de onde venho? respondia o Mestre com calma majestosa. Sabeis de onde sou? E a tais homens ele falava sobre o seio do Pai de onde descera e para onde voltaria depois de algum tempo:

Vós me buscareis e não me achareis; e aonde eu estou vós não podeis vir. (João 7.34)

E, no último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé e clamou, dizendo:

Se alguém tem sede, que venha a mim e beba. (João 7.37)

Neste dia o sumo sacerdote costumava descer da montanha trazendo uma urna de ouro que enchia na fonte de Siloé. Em seguida voltava rodeado pelo povo, ao som de cânticos e trombetas, e, entrando no Templo, derramava aquela água sobre o altar, para comemorar a fonte milagrosa que Moisés fizera jorrar do rochedo. Jesus, aproveitando a ocasião da cerimônia, ofereceu uma água melhor às almas sequiosas:

Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre. (João 7.38)

O Filho de Deus revelava-se como a Fonte da Vida. Aqueles grandes paralelos constituíam uma nova espécie de recurso ilustrativo do que ele queria ensinar, algo semelhante às parábolas, tirados de outros lugares e feitos para pessoas simples. Que sublime aplicação dava assim o Senhor aos símbolos antigos, e que torrentes de vida e ensinamentos desciam às almas!

Naquela festa costumavam também deixar acessos sobre as alturas de Sião dois imensos candelabros que projetavam a luz sobre Jerusalém inteira. Era a lembrança da nuvem luminosa que outrora guiara os filhos de Israel nas noites do deserto. Realizando em si mesmo essa figura expressiva, Jesus Cristo continua sua pregação dizendo:

Eu sou a luz do mundo: quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida. (João 8.12)

Sobre esta afirmação travou-se imediatamente uma disputa, de um lado violenta, de outro lado calma e sublime. Jesus Cristo novamente afirmou sua filiação divina, sua santidade que desafiava qualquer acusação, sua geração eterna, anterior não só ao nascimento de Abraão, mas a tudo: Sou o princípio, sou antes de tudo, eu, que vos falo. Essas palavras de Jesus deverão sugerir mais tarde a João o prólogo de seu Evangelho: "No princípio era o Verbo..." Diante de afirmação tão clara, tão repetida de sua divindade só restava aos ouvintes de Jesus duas respostas a dar: ou atirar-se aos seus pés como aos pés de um Deus, ou apedrejá-lo como um blasfemador.

Então, pegaram em pedras para lhe atirarem; mas Jesus ocultou-se, e saiu do templo, passando pelo meio deles, e assim se retirou. (João 8.59)

A mulher adúltera

O que irritava aqueles homens violentos e orgulhosos não era a grandeza sobre-humana, a bondade e a calma de Jesus, e sim a sabedoria superior com a qual ele acabava de confundir toda aquela astúcia e maldade. No dia seguinte Jesus chegou cedo ao templo. Com o propósito de ensinar ao povo ele se dirigiu ao lugar contíguo à sala do conselho, e que se chamava "lugar do tesouro" (João 8.20), pois naquele lugar se achavam os cofres de bronze destinados às ofertas.

Ali os fariseus levaram aos pés de Jesus uma mulher surpreendida em adultério, e hipocritamente pediram que ele pronunciasse a sentença daquela mulher que a lei condenava à morte. A ocasião era propícia para eles alardearem sua própria justiça e confundir aquele profeta e aquele justo acusando-o de crueldade homicida se condenasse a pecadora a ser apedrejada, ou de violação flagrante da lei se a absolvesse.

João acompanhou toda aquela cena atentamente. Viu o Mestre inclinar-se silencioso e escrever com o dedo no chão. O que ele escreveu? João não o diz. Ele viu quando Jesus, ao ser intimado a se pronunciar, levantou por um instante a cabeça e como única resposta disse esta frase:

Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire a pedra contra ela. (João 8.7)

Jesus continuou a escrever. Como as palavras traçadas pelo juiz que penetra a consciência humana, aquelas palavras incomodaram sem dúvida aqueles hipócritas. João notou que eles saíram um a um a começar pelos mais velhos até os últimos; ficaram só Jesus e a mulher, que estava no meio. (João 8.9)

Era a miséria diante da misericórdia. E a misericórdia perdoou a miséria.

E, endireitando-se Jesus e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te e não peques mais. (João 8.10,11)

A humilhação fora exaltada; porém, para caminhar nas veredas da justiça e da virtude. O Homem Deus Jesus revelou-se tanto pela sua bondade como pelo seu poder, tanto por sua misericórdia como pelas suas maravilhas. "Só Deus é bom", disse ele um dia. Sim, e o que nos prova que tu és Deus, o Senhor Jesus, é que jamais alguém foi tão como fizestes.

Alguns livros usados por aqueles hipócritas orientavam o rabino a andar lentamente, um tanto encurvado, com a cabeça baixa, com vestes escuras, coberto por um véu preto, e evitando falar com uma mulher.

A cura do cego de nascença

A cura de um cego de nascença desencadeou novas tempestades contra Jesus. O quadro que João traçou do drama refletiu perfeitamente tudo. Começou por uma discussão levantada entre os discípulos sobre a origem da cegueira.

E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este ou os seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi assim para que se manifestassem nele as obras de Deus. Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo. (João 9.2-5)

E para provar a veracidade do que dissera Jesus curou o cego com um pouco de saliva misturada com terra. Jesus untou com esta mistura os olhos do cego e mandou que ele se lavasse no tanque de Siloé. Por estes singelos pormenores reconhece-se a exatidão de João: isso não se inventa.

Segundo uma antiga profecia, Siloé era o símbolo da graça divina:

Porquanto este povo desprezou as águas de Siloé que correm brandamente e com Rezim e com o filho de Remalias se alegrou. (Isaías 8.6)

Agora se achava aberta aos filhos de Israel e, depois do Calvário, ao mundo, uma fonte de salvação e saúde muito mais elevada e poderosa, cheia de graça e de verdade, e muitos têm vindo a ela para recuperar a visão física e espiritual!

Logo após a realização daquele milagre, Jesus foi contestado outra vez. Primeiramente, os vizinhos do cego que, vendo curado o homem que sempre encontravam sentado à porta do Templo pedindo esmola, custaram a crer no milagre. É ele, diziam uns; Não, é alguém que se parece com ele, diziam outros. Mas ele respondia: Sou eu mesmo!

Em seguida os próprios membros do Sinédrio começaram a investigar. O cego compareceu, e contou o fato com simplicidade. O conselho, confuso, agitou-se em direções diversas: Este homem não pode ser de Deus, uma vez que não guarda o sábado, disseram alguns.

Mas outros responderam: Como pode um pecador fazer tais milagres? Era uma questão difícil. Perturbadas, as autoridades pediram a opinião do homem que fora curado: Que achas de quem te abriu os olhos? Ele respondeu sem hesitar: Que é um profeta.

Sem dúvida, mais de um doutor ali presente viu-se forçado a pensar como ele. Estavam, portanto, divididos. Foi quando alguém levantou a questão: quem nos garante que o mendigo era mesmo cego? Portanto, era necessário certificar-se. Imediatamente foram intimados os pais da testemunha e confrontados com ele:

— É este o vosso filho?

— É.

— Ele nasceu cego?

— Sim.

— Como então ele está vendo agora?

— Isto não o sabemos, responderam aquelas pessoas simples e aterrorizadas, temendo ser consideradas inimigas da lei.

Seus pais responderam e disseram-lhes: Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego, mas como agora vê não sabemos; ou quem lhe tenha aberto os olhos não sabemos; tem idade; perguntai-lho a ele mesmo, e ele falará por si mesmo. (João 9.20-21)

Chamaram outra vez o mendigo. Era preciso a todo o custo destruir as colunas da fé em Jesus que já se erguiam na opinião do povo arrancando uma confusão negativa da testemunha importuna de seu poder divino.

— Dai glória a Deus — , gritam aqueles hipócritas. E é com esse nome sagrado que eles tentam levar o mendigo a mentir acrescentando uma blasfêmia: Sabemos que este homem é um pecador! Mas nada existe mais eficiente para desmascarar espíritos mal intencionados do que um coração simples e sincero.

O mendigo lhes respondeu: Se é um pecador não sei; o que sei é que eu estava cego e agora vejo! Só restava agora uma alternativa: ver se, ao testemunhar, ele cairia em contradição. Recomeça então o interrogatório: Que te fez ele? Como foi que te abriu os olhos? A esta pergunta, o mendigo impaciente lança-lhes uma sentença de uma ironia vingadora: Já vo-lo disse, por que quereis tornar a ouvi-lo ? Será que quereis também vos tornar seus discípulos? Discípulos daquele Galileu! Eles se irritaram e falaram que o mendigo, se quisesse, que se tornasse discípulo de Jesus; eles não desceriam a isto, pois eram discípulos de Moisés. Eles sequer sabiam de onde era aquele Jesus. O mendigo responde com admiração:

Nisto, pois, está a maravilha: que vós não saibais de onde ele é e me abrisse os olhos. (João 9.30)

O mendigo, já cansado de ouvir os fariseus e doutores chamarem de pecador ao profeta que lhe curara, usou este argumento invencível:

Ora, nós sabemos que Deus não ouve os pecadores; mas, se alguém é temente a Deus e faz a sua vontade, a esse ouve. Desde o princípio do mundo, nunca se ouviu que alguém abrisse os olhos a um cego de nascença. Se este não fosse de Deus, nada poderia fazer. (João 9.31-33)

Os doutores, enfurecidos, responderam:

Tu és nascido todo em pecados e nos ensinas a nós? E expulsaram-no (João 9.34).

Pronunciaram contra ele a exclusão da sinagoga. Mas Jesus consolou-o a seu modo, como sabe consolar os que por ele sofrem, dando à sua alma uma luz divina mais elevada do que a que tinha restituído aos seus olhos. O mendigo só conhecia seu benfeitor como um profeta, mas agora o Senhor revelou-se a ele como Deus.

Eu também creio, e também te adoro, ó Senhor Jesus! Eu também era cego, não de nascença, mas de orgulho,