epicuro. o tetrafármaco

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FELICIDADE Ronaldo de OLIVEIRA Humanitas Vivens LTDA Uma Instituição a serviço da Vida! FELICIDADE FELICIDADE O Sentido Último da Vida Humana em O Sentido Último da Vida Humana em Epicuro (341-270 a.C.) Epicuro (341-270 a.C.)

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FELICIDADE

Ronaldo de OLIVEIRA

Humanitas Vivens LTDAUma Instituição a serviço da Vida!

FELICIDADEFELICIDADE

O Sentido Último da Vida Humana em O Sentido Último da Vida Humana em

Epicuro (341-270 a.C.)Epicuro (341-270 a.C.)

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FELICIDADEFELICIDADEO Sentido Último da Vida Humana em O Sentido Último da Vida Humana em

Epicuro (341-270 a.C.)Epicuro (341-270 a.C.)

Humanitas Vivens Ltda

Uma Instituição a serviço da Vida!

Sarandi (PR) 2009

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Copyright 2009 by Humanitas Vivens LtdaEDITOR:

Prof. Dr. José Francisco de Assis DIASCONSELHO EDITORIAL:

Prof. Ms. José Aparecido PEREIRAProf. Ms. Fábio Inácio PEREIRA

Prof. Ms. Leomar Antônio MONTAGNAREVISÃO GERAL:

André Luis Sena dos SANTOSAnna Ligia CORDEIRO BOTTOS

Paulo Cezar FERREIRACAPA, DIAGRAMAÇÃO E DESIGN:

Agnaldo Jorge MARTINSDados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)

Oliveira, Ronaldo deO48f Felicidade: o sentido último da vida em

Epicuro (341-270a.C.) [recurso eletrônico] / Ronaldo de Oliveira. -- Sarandi, Pr:Humanitas Vivens,2009.

ISBN: 978-85-61837-05-1 Modo de acesso:

<www.humanitasvivens.com.br>. 1. Felicidade. 2. Epicuro (341-270a.C.)-

Crítica e intepretação. 3. Sentido da vida.. CDD 21. ed. 100

Bibliotecária: Ivani Baptista CRB-9/331O conteúdo da obra, bem como os argumentos expostos, é de

responsabilidade exclusiva de seus autores, não representando o ponto de vista da Editora, seus representantes e editores.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por

qualquer forma e/ou quaisquer meios ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita do Autor e da

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www.humanitasvivens.com.br – [email protected]

Fone: (44) 3042-2233

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AGRADECIMENTOS

Ao meu orientador que se dedicou auxiliando-me nas diversas etapas deste trabalho.

A Dom Geraldo Verdier, bispo da Diocese de Guajará-Mirim – Rondônia, pelo apoio material e espiritual contribuindo para que eu concluísse o curso de Filosofia.

À Maria Martins Corrêa e família pelo carinho e estima que me motivaram neste percurso filosófico.

À Nádia Maria de Souza, minha noiva, pelo apoio e alento que me ajudaram a continuar o percurso sem desistir.

À Judith Rodrigues Dias, psicóloga, que muito colaborou na minha vida, ajudando-me a superar limites e barreiras.

Ao professor e amigo José Francisco de Assis Dias (Chico Dias) que não mediu esforços em colaborar com minha formação acadêmica e humana.

Ao Padre Antônio Carlos que me acolheu em sua casa possibilitando-me concluir o curso, pois sem essa colaboração eu sucumbiria pelas estradas da vida.

A todas as pessoas, professores, colegas de sala, funcionários da PUCPR, que colaboraram com minhas pesquisas e estudo.

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“De todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da

amizade”.

(EPICURO, 1973, p. 28)

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RESUMO

O presente trabalho versará sobre o tema o sentido último da vida humana na perspectiva de Epicuro. Pretende-se dispor a filosofia do autor seguindo o método histórico crítico seguindo a divisão clássica de classificação da filosofia: canônica, física e ética. Analisando o contexto político, histórico, social e religioso perceber-se-á que a emergência de Epicuro e do epicurismo é uma resposta aos anseios dos indivíduos que desejavam a felicidade, mas que não sabiam como alcançá-la. Atinge-se a felicidade pelo caminho da ética. Esta discursa sobre o agir humano. Agindo-se bem, vive-se bem. Analisando a ética de Epicuro sugere-se o remédio para a cura da alma: o tetrafármaco. Discorre-se nesse trabalho sobre a figura do sábio, visto que esse é o modelo de homem bem-aventurado. É na companhia de amigos que se desenrola a verdadeira felicidade. A amizade inicia-se pela utilidade, mas depois se torna fonte de prazer em si mesma. Acentua-se o aspecto ético como condição de possibilidade para ser feliz.

Palavras-Chave: Epicuro. Ética. Felicidade.

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ...............................................................

2 CONTEXTO HISTÓRICO E POLÍTICO DA GRÉCIA ANTIGA AO HELENISMO ..............................................

2.1 A Polis Grega e o Cidadão ..............................................................2.2 O Helenismo e a Emergência do Indivíduo .....................................2.3 O Advento do Epicurismo e do Estoicismo .....................................2.4 Dados Biográficos de Epicuro e seu Contexto ................................2.5 Epicuro e o Jardim ...........................................................................

3 A FILOSOFIA DE EPICURO ........................................................

3.1 Canônica ..........................................................................................3.2 A Física ou Ciência da Natureza .....................................................3.3 Finalidade da Física Para Epicuro ...................................................3.4 A Ética .............................................................................................3.5 O Sábio e a Felicidade .....................................................................3.6 A Amizade ......................................................................................

4 CAMINHO DA FELICIDADE: O TETRA-FÁRMACO .....................................................................

4.1 Não Temer os Deuses Nem a Morte ..............................................4.2 O Prazer é o Bem Supremo e a Dor é Suportável ...........................

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................... REFERÊNCIAS ...................................................................................

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1 INTRODUÇÃO

O tema a ser desenvolvido neste trabalho Felicidade: O sentido último da vida humana na perspectiva do filósofo Epicuro (341-270 a.C.). A razão desse trabalho se dá por perceber que em todas as épocas e em todos os tempos os homens se preocuparam, uns mais outros menos, com o sentido da vida humana. O sentido é a satisfação de alguma carência que não sendo satisfeita faz o humano sofrer.

Para se aportar na discussão central do presente trabalho primeiro se fará o resgate histórico que antecedeu a Epicuro e que a ele foi contemporâneo. Mais precisamente se deverá reportar ao contexto histórico, político, religioso e também intelectual dele. Esse caminho que será percorrido tem como meta evidenciar o como e o por quê Epicuro se inscreveu na história da filosofia como uma figura importante no assunto em discussão.

Algumas perguntas subjazem a este trabalho. A vida humana tem sentido? Em que condições a vida humana possui sentido? Vale a pena viver? Ao longo do trabalho outras perguntas são implicitamente dirigidas ao autor.

O trabalho será dividido em três capítulos.

No primeiro capítulo se tratará da organização da pólis e o papel do cidadão na Grécia Antiga; sobre a

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importância e o surgimento do Helenismo que influiu no pensamento dos pensadores dessa época e, portanto, na filosofia desenvolvida por Epicuro. Abordar-se-á sobre o fenômeno conhecido como a emergência do indivíduo e o indivíduo como a sede da nova ética. Perceberá que o filósofo é alguém comprometido com seu tempo, isso pode ser visto com clareza na pessoa de Epicuro. Ainda no primeiro capítulo discorrerá sobre a biografia de Epicuro e seu legado para a humanidade.

O segundo capítulo do presente trabalho se dedicará à análise da filosofia de Epicuro. Este, como se verá, também é conhecido como o Mestre do Jardim. O autor em discussão desenvolveu sua filosofia na forma de um sistema que se pode dividir em três grandes partes. A primeira parte é chamada de canônica. Na canônica trabalha sobre a possibilidade do conhecimento e suas regras. A segunda parte é a física ou ciência da natureza. Na física se estudará como as coisas, inclusive a alma, são formadas. Também falará sobre a importância de conhecer as causas da natureza. A terceira parte do sistema de Epicuro trata sobre a ética. Na ética ver-se-á que ela é a condição necessária para se atingir a sabedoria e, por conseguinte, a felicidade.

No terceiro capítulo da presente pesquisa se abordará sobre as conclusões éticas do sistema de Epicuro discorrendo sobre o tetrafármaco, ou seja, os quatro remédios propostos por Epicuro.

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2 CONTEXTO HISTÓRICO E POLÍTICO DA GRÉCIA ANTIGA AO HELENISMO

Neste capítulo iremos abordar o contexto histórico da Grécia Antiga até o Helenismo. Nessa abordagem dedicaremos atenção aos aspectos da relação da pólis e cidadão; trataremos do fenômeno chamado Helenismo e suas implicações para o pensamento filosófico da época; e analisaremos a vida e o itinerário intelectual de um filósofo do Helenismo que é Epicuro (341-270 a.C.) e concluiremos falando da herança deixada para a história da filosofia por nosso filósofo Epicuro.

2.1 A Pólis Grega e o Cidadão

Para melhor compreender o pensamento de um povo, de uma cultura, se faz importante compreender os aspectos sociais, políticos e religiosos que o marcaram ou que o marcam. Analisaremos, nesse momento, a relação intrínseca que havia entre o cidadão e a pólis.

Os gregos eram convencidos de que a pólis era modelo ideal de organização social. A pólis tornou-se assim

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a forma mais bem estruturada e perfeita de aglomeração de pessoas, de associação de cidadãos. Pois ela “constitui a forma mais evoluída de um fenômeno urbano característico da bacia do Mediterrâneo desde a Antiguidade...” (MORAES, 1998, p. 53). Para os gregos ela era conseqüência de um processo de associação natural e justo tornando-se, assim, o grau máximo de perfeição. Não era concebível, para a mentalidade grega, uma organização mais bem estruturada e organizada do que a pólis. Por isso mesmo os gregos “consideravam a pólis, mais ainda do que a obra-prima, a condição por excelência de sua civilização” (MORAES, 1998, p. 55). Porque ela tem a característica de comportar em si as formas de comunidades primitivas que são as aldeias e as famílias. Nela as necessidades do cidadão eram atendidas e satisfeitas, quando que no passado, não conseguiam satisfazer mais que as necessidades primárias da família, ou mesmo da aldeia (BOWRA, 1967, p. 103).

A pólis é o fenômeno social e político mais sublime na concepção grega. Alguns filósofos de grande envergadura teórica defenderam-na com entusiasmo e espírito aguçado. Exemplos são Platão, Aristóteles, etc. Este, na obra Política, diz que “a cidade tem como objetivo satisfazer todas as necessidades dos homens. Os homens formam as cidades para assegurar uma subsistência básica” (ARISTÓTELES, 2007, p. 79)1. A cidade tem como objetivo último e primordial promover a vida boa para os seus habitantes. A cidade à qual Aristóteles se referiu na citação acima é a pólis. É ela que deve satisfazer aos

1 A tradução que foi utilizada não traz a numeração dos parágrafos somente dos livros e capítulos. Portanto a citação acima utilizada se encontra no livro II, capítulo II.

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cidadãos e conceder-lhes tudo aquilo de que necessitam para que vivam realizados e tranqüilos.

Para os gregos, de modo geral, a idéia de que a pólis é o modelo ideal, era tão forte e arraigada na cultura que nem sequer viam para além dela uma unidade mais vasta, um império, por exemplo. Essa concepção os fazia convictamente ser comprometidos com a vida e sustentação da pólis. Portanto esta permaneceu sempre o suporte de atração de toda a sua dedicação e de todos os seus pensamentos (BOWRA, 1967, p. 103).

Na pólis grega havia o cidadão e também aqueles que não eram considerados cidadãos. Somente era cidadão da pólis aquele indivíduo que gozava do direito de cidadania, ou seja, para ser cidadão era preciso participar da gestão política e legislativa da comunidade. Por conseguinte, nem os colonos, nem os membros de uma cidade conquistada, nem os operários, por faltar tempo livre, nem as mulheres e crianças não poderiam ser cidadãos.

Como nos parece evidente o cidadão era alguém de status elevado sendo superior aos demais indivíduos que não gozavam desse privilégio concedido pela natureza. Portanto ele gozava dos prazeres que a pólis proporcionava como a filosofia, a arte, a ciência, etc.

A pólis é formada por indivíduos, contudo ela é superior a eles, pois a organização coletiva (cidade-estado) tinha a primazia sobre o indivíduo. Isto porque os gregos concebiam o “indivíduo em função da Cidade e não a Cidade em função do indivíduo” (REALE, 2003, p. 221). A esse modo grego de pensar Aristóteles expressa definindo o

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homem como “animal político”, isto é, “não simplesmente como animal que vive em sociedade, mas como animal que vive em sociedade politicamente organizada” (REALE, 2003, 221). A pólis é superior ao homem que a habita porque quando ele nasce, já nasce nela. Ela é condição de possibilidade para que o indivíduo nasça, cresça e se desenvolva.

Em suma, havia, na Grécia antiga, uma íntima relação entre o cidadão e a pólis. Aquele era comprometido com a organização e sustentação desta. Sendo a pólis que acolhia o indivíduo este devia necessariamente estar submetido às leis que a governavam.

2.2 O Helenismo e a Emergência do Indivíduo

Com Alexandre Magno (334-323 a.C.) inaugura-se uma nova época na história da Grécia e do Ocidente, é o Helenismo2. Alexandre conquistou a Grécia tornando-a parte do Império Macedônico. Esse evento provocou o rompimento com a ordem política e social vigente e suscitou a emergência de uma outra ordem que foi erigida historicamente. Por conseguinte “a conseqüência mais importante produzida pela revolução de Alexandre foi o 2 Marilena Chauí conceitua o Helenismo como o “último período da filosofia Antiga, quando a pólis grega desapareceu como centro político, deixando de ser a referência principal dos filósofos(...). Os filósofos dizem, a partir de então, que o mundo é sua cidade e que são cidadãos do mundo” (2003, p. 45).

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desmoronamento da importância sociopolítica da pólis” (REALE, 2003, p. 249).

Com o desmoronamento da importância sociopolítica da pólis junto dela decaíram os valores morais e éticos que estavam intimamente ligados a ela. A filosofia especulativa, que antes era o centro da atenção na Grécia, agora com as conquistas de Alexandre, não dá ao indivíduo satisfação, isto é, não responde aos seus anseios e às suas necessidades. Na pólis o estudo, a especulação, tinha como meta preparar o cidadão para o exercício da vida pública. Sob o domínio de Alexandre o cidadão grego ficou impossibilitado de participar no governo da coisa pública, em conseqüência o conhecimento teórico como fora estruturado, em vista da pólis, não dava condição ao indivíduo de realização pessoal nem coletiva. O período helenístico é caracterizado pela ruptura com os referenciais da pólis e pela busca de um outro modo de vida, de um novo referencial.

Após 323 a.C. com a morte de Alexandre Magno, como não deixou herdeiro, seu imenso império foi dividido entre os seus chefes. O império, que era um único reino, tornou-se quatro: Egito, Síria, Macedônia e Pérgamo. Depois da divisão do poder a Grécia ficou nas mãos dos novos monarcas e, por conseqüência, as pólis foram perdendo pouco a pouco sua liberdade e sua autonomia e deixaram de fazer história como no passado (REALE, 2003, p. 250).

Diante dessa nova situação política e histórica o pensamento grego se refugiou no ideal do “cosmopolitismo”, isto é, “considerando o mundo inteiro uma cidade, a ponto de incluir nessa cosmopólis não só os

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homens mas também os deuses” (REALE, 2003, p. 250). Frente ao cosmopolitismo perde-se a correspondência entre homem e cidadão e aquele que outrora foi cidadão agora é obrigado a buscar sua nova identidade.

Na idade helenística surge, por conseqüência do declínio e fim da pólis, o advento do indivíduo. Este conceito, do ponto de vista da concepção de homem, toma o centro da reflexão filosófica da época. A categoria de indivíduo na idade helenística assume características próprias, pois foi forjado em um contexto intelectual marcado pela busca de conduzir o homem à felicidade, e “seria um erro tentar compreendê-lo à luz do individualismo moderno” (VAZ, p. 43, 1991). A eudaimonia, que quer dizer felicidade, não é encontrada fora do homem, mas no seu interior, ou seja, o indivíduo é sede da eudaimonia. O esforço teórico das escolas helenísticas tem como fundamento não a preparação do homem para o exercício da vida política, como outrora fora, mas se ocupa basicamente do aprimoramento interior do homem. Por conseguinte, o problema ético é desenvolvido a partir da categoria de indivíduo (ENCICLOPÉDIA ABRIL, apud EPICURO, 2006, p. 87).

Nesse período o problema da eudaimonia passa a ser a questão central da reflexão sobre o homem. Sobretudo porque ela é o estado no qual as carências e desejos do indivíduo identificados como tais são plenamente satisfeitos com base na razão (VAZ, p. 44, 1991). A ética, ciência que discursa sobre o agir humano, pela primeira vez na história da filosofia moral se estrutura de modo autônomo tendo como referência o homem na sua singularidade isso graças à descoberta do indivíduo (REALE, 2003, p. 250).

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2.3 O Advento do Epicurismo e do Estoicismo

O período helenístico, como pudemos observar, é marcado fortemente pela mudança e alterações da ordem vigente. As alterações bruscas ocorridas na esfera política afetaram também a religião pública porque esta passou a ser usada como instrumento de dominação do povo grego pelos dominadores que assumiram o grande império deixado por Alexandre. As transformações sociais que foram operadas nesse período afetaram também a filosofia. Os grandes filósofos antigos (Aristóteles, Platão) já haviam morrido e ainda não se tinha instaurado nenhum sistema filosófico que respondesse às exigências do novo tempo que se tinha chegado. Contudo é nesse contexto de instabilidade e de ruptura social que surgem duas grandes escolas no helenismo: a estóica e a Epicurista.

Os sistemas filosóficos no âmbito da ética desenvolvidos por Sócrates, Platão e Aristóteles têm como pressuposto a existência de uma sociedade democrática limitada e local que é a pólis. A cidade-estado perdendo suas forças possibilita-se assim que as filosofias estóica e epicurista surgissem na tentativa de dar luzes éticas ao tempo histórico que se apresentava, pois não havia mais correspondência entre o indivíduo e a comunidade como outrora se observava na pólis. Segundo Brun (1959, p. 17), “o epicurismo – e o estoicismo que lhe é contemporâneo –

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aparecem em Atenas num momento especialmente perturbado da história política e intelectual da cidade que resplandeceu no mundo mediterrâneo”. Essas duas correntes filosóficas, o epicurismo e o estoicismo, desenvolveram suas filosofias tendo como fundamento o indivíduo na sua singularidade.

2.4 Dados Biográficos de Epicuro e seu Contexto

Epicuro nasceu em 341 a.C. em Samos e não em Atenas, como alguns autores afirmam. O pai de Epicuro era Neoclés, tinha ofício de mestre de letras e gramática; a mãe dele era Queréstrata. Esta tinha como ofício adivinhar o futuro daqueles que lhe solicitavam. Epicuro acompanhava sua mãe nos rituais e recitava as fórmulas propiciatórias quando ela ia às casas dos pobres conjurar o mau-olhado e espantar daquela casa as doenças. Desde cedo, então Epicuro teve a oportunidade de perceber e de conhecer as superstições populares e os males que a credulidade dos homens podiam causar.

Desde jovem, 13 anos de idade, Epicuro iniciou seus estudos de filosofia e tinha forte estima por ela. A sua afeição pela filosofia, isto é, sua curiosidade de espírito, foi notado quando citado diante dele o verso de Hesíodo “No princípio todas as coisas vieram do caos”. Epicuro indagou o professor sobre a origem do caos. Este lhe disse que deveria formular o problema aos filósofos e daí por diante

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Epicuro direcionou seus estudos nessa perspectiva. Por conseguinte, percebeu logo a importância da filosofia e se interessou por ela.

Na carta a Meneceu, Epicuro expressa-se sobre a importância que se tem de dar à filosofia, pois é ela que possibilita aquilo que o homem almeja, isto é, a felicidade.

Nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem canse de fazê-lo quando se é velho, pois ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma. E quem diz que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz (EPICURO, 2007, p. 97).

Platão morreu no ano de 347 a.C. e Epicuro nasceria seis anos mais tarde. No entanto, Epicuro em seu percurso intelectual, nos anos de 427-347 a.C., teve contato com o pensamento de Platão, por intermédio do platônico Pânfilo, em Samos. Porém julgou não ser necessário se aprofundar na teoria platônica por não lhe ser interessante. Depois disso Epicuro foi enviado por seu pai a Téos para ter como professor Nausífanes, que fora discípulo do atomista Demócrito. Por causa desse contato, por conseguinte, a visão de mundo aceita por Epicuro foi o atomismo. E ainda, segundo Ullmann (1996, p. 13), Epicuro estudou a doutrina de Pirro (360-270 a.C.), isto é, o ceticismo pirrônico. Porém, o que o interessou dessa doutrina foi a ataraxia (impertubalidade ou tranqüilidade da alma), causando-lhe profunda impressão e introduziu-a na sua concepção de vida hedonista.

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Aos 18 anos Epicuro, na condição de cidadão ateniense, viajou para a metrópole para cumprir o serviço militar. Em 322 a.C. Perdicas, general poderoso que assumira a regência do Império legado por Alexandre Magno, tomou Samos e expulsou dali todos os colonos atenienses. O pai de Epicuro e família refugiaram-se em Cólofon, uma importante cidade da costa asiática (MORAES, 1998, p. 21). E foi nessa cidade que se deu o reencontro de Epicuro, que contava nessa época com 19 anos de idade, com seu pai. Foi ali que se completou o desenvolvimento espiritual de Epicuro. Por ser pobre, não participou de nenhuma escola de renome filosófico (ULLMANN, 1996, p. 33). Segundo Moraes, “terá sem dúvida forjado, na década em que permaneceu em Cólofon (até 310 a.C.), seu caráter e sua filosofia, esta inseparável daquele” (1998, p. 21).

Aos 30 anos de idade, Epicuro deixa Cólofon após ter construído o essencial de seu pensamento, desenvolvendo, sobre os fundamentos do atomismo de Leucipo e Demócrito, seu original hedonismo, orientado não para os prazeres vulgares e imediatos, mas para aqueles que são duradouros e que acompanham a firmeza do caráter e a lucidez da inteligência (MORAES, 1998, p. 21).

Epicuro viveu em uma época marcada por grandes mudanças, grandes transformações, de ordem religiosa, social e política como já demonstramos acima no tópico 2.2. Assim “para entender as razões por que surgiu o epicurismo, torna-se necessário ter presentes as circunstâncias político-sociais e ético-religiosos do tempo do mestre do Jardim” (ULLMANN, 1996, p. 33). Segundo Mewaldt (apud EPICURO, 2006, p. 15), “Epicuro, homem do século

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IV a.C., viu-se cercado dessa vida político-religiosa e das suas emanações, da herança artística e literária do seu povo, tanto na sua mocidade quanto mais tarde”. Portanto, Epicuro teve de se entender com esse panorama político-religioso.

A moralidade no século IV estava em declínio em todo o mundo grego. Epicuro não olhava, com bons olhos, com apreço, para a chamada pólis, cuja Atenas era. Na pólis estava alastrada a vida leviana e a injustiça social. Os vícios eram incontidos. A riqueza estava concentrada nas mãos de poucos. Os aristocratas detinham-na. O poder político estava concentrado nas mãos de algumas famílias. A angústia e o sofrimento espiritual também aumentavam causando grandes tormentos de ordem psicológica no povo (MEWALDT, apud EPICURO, 2006, p. 19-20).

Epicuro, frente ao cenário de sua época, opta pela vida simples, justa, virtuosa. Ele se opõe ao seu tempo, no sentido de perceber e sentir que a ética clássica não mais auxiliava os seus contemporâneos, porque os homens não eram felizes, e lança sua filosofia na expectativa de restaurar a felicidade do indivíduo. Pois, enquanto na pólis o homem era visto a partir da coletividade, no período helenístico o indivíduo é visto a partir da sua interioridade.

O mundo ético-religioso no tempo de Epicuro estava contaminado de superstições. Pois a prática religiosa que deveria dar ao crente, ou ao seguidor, paz de espírito ela o enchia de temores, isto é, de medo das divindades. A conseqüência é “que, para muitíssimas pessoas, a religião se tornara uma horrível servidão, pesando, tremendamente sobre as almas, presas de um formalismo estéril” (ULLMANN, 1996, p. 36).

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Epicuro foi um homem que não estava fora do caos da sociedade, dos problemas que afetavam diretamente a seus contemporâneos, e justamente por ele presenciar os horrores pelos quais passavam foi que ele desenvolveu e sistematizou sua filosofia. Pois o problema da eudaimonia (da felicidade) passou a ser a questão central da reflexão de Epicuro. Portanto, desejoso de dar paz às consciências, propagou a sua filosofia como um serviço à humanidade (MEWALDT, apud EPICURO, 2006, p. 20).

Enquanto muitos buscavam o luxo e a ambição, Epicuro prezava a vida simples e sem ambições, pois este modo de vida permite a imperturbabilidade da alma, já que aquela tumultua a alma.

Em suma, o epicurismo surgiu como sistema filosófico para reconduzir os homens à eudaimonia (ULLMANN, 1996, p. 40). Quando, à volta de Epicuro, as pessoas ou são exploradas ou exploradoras, ele se inquieta e procura ajudar as consciências a encontrarem a paz e a felicidade. Pois “todo o empenho do fundador do Jardim endereçava-se, precisamente, para a felicidade dos homens” (ULLMANN, 1996, p. 23).

2.5 Epicuro e o Jardim

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As dificuldades enfrentadas por Epicuro para tornar conhecidas suas idéias não foram pequenas. Com trinta anos ou pouco mais, em 310 a.C., abriu sua primeira escola de Filosofia em Mitilene, na ilha de Lesbos que se situa na costa asiática, ao norte de Samos. Nesta cidade já se tinha uma escola de Aristóteles há trinta anos. Não obstante Epicuro obter licença do magistrado do lugar para ensinar logo foi cassada por instigação da escola adversária (ULLMANN, 1996, p. 15). NO entanto não foi de tudo vão a estada dele em Mitilene, pois ali tornou seu discípulo aquele que mais tarde viria a ser o sucessor de Epicuro na direção da Escola, que é Hermarco.

Depois de Mitilene Epicuro vai para Lâmpsaco onde obteve grande aceitação. Nesta cidade os platônicos já tinham uma escola, porém estava em descrédito por motivos de falcatruas financeiras de um político (ULLMANN, 1996, p. 15).

Em Lâmpsaco Epicuro teve apoio financeiro de lampsaquenses de grandes posses. Estes proporcionaram ao filósofo segurança por três motivos: “pois angariara um pugilo de discípulos fiéis; estava convencido do alcance de sua doutrina; não tinha preocupações com necessidades materiais” (ULLMANN, 1996, p. 15).

Foi somente no ano 306 a.C. que Epicuro transferiu a Escola para Atenas, pois era o lugar ideal para difundir suas idéias. Em Atenas ele comprou um Jardim com posses adquiridas em Lâmpsaco. Daí a razão de os seguidores de Epicuro serem denominados “filósofos do Jardim” ou “os do Jardim”. Segundo Giovanni Reale (2003, p. 259) “o

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próprio lugar escolhido por Epicuro para sua Escola é a expressão da novidade revolucionária do seu pensamento: não uma palestra, símbolo da Grécia clássica, mas um prédio com jardim (no entendimento hodierno, uma horta), nos subúrbios de Atenas”. O Jardim é lugar afastado do tumulto da cidade, onde se pode cultivar o silêncio e a companhia dos amigos, pois a amizade tem bastante relevância na filosofia de Epicuro.

Na escola, o mestre não excluía ninguém do acesso às suas comunidades; todos eram bem-vindos: homens, mulheres, velhos, moços, crianças e até escravos. Entre os seguidores do Jardim se destacaram Hermarco, que substituiu o mestre na direção da comunidade de Atenas após a morte deste ocorrida em 270 a.C; Metrodoro de Lâmpsaco; Filodemo de Nápoles, e Lucrécio (99-55/54 a.C.).

Epicuro morreu, em 270 a.C., com 72 anos de idade. Diôgenes Laêrtios é um historiador antigo que, graças a ele, foi conservado parte das obras de Epicuro e de sua doutrina. Diôgenes descreve sobre a morte do mestre do Jardim:

Epicuro morreu em conseqüência de cálculos renais, depois de passar quatorze dias enfermo, como diz Hermarco nas Epístolas. Hermarco registra um detalhe, segundo o qual Epicuro, entrando numa tina de bronze cheia de água quente, pediu vinho puro e o bebeu avidamente, e depois de recomendar aos amigos que se lembrassem de sua doutrina, expirou (1977, p. 286).

Epicuro, segundo testemunho de Diôgenes, escreveu mais de trezentas obras. Foi um extraordinário escritor superando os seus antecessores pelo número de obras. Na

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íntegra resistiram ao tempo e aos ataques feitos ao epicurismo ao longo dos séculos três Cartas do mestre e quarenta Máximas ou Sentenças, e ainda os Aforismos. A primeira carta é dirigida a Heródoto tratando de assuntos da física; a segunda dirigida a Pítocles trata dos fenômenos celestes; e a terceira endereçada a Meneceu que trata das concepções sobre a vida humana, ou seja, da ética epicurista. As Máximas ou Sentenças Principais constituem formulações breves com acento na ética.

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3 A FILOSOFIA DE EPICURO

Neste capítulo nos dedicaremos ao estudo e análise do pensamento de Epicuro. Como dissemos no capítulo anterior Epicuro foi um autor de muitas obras, mais de trezentas. Porém, muitos de seus escritos se perderam ao longo do tempo.

Na organização da filosofia do mestre do Jardim podemos distinguir três partes diferentes que se complementam no todo. São elas: a canônica, a física e a ética. Elas se complementam no todo, isto é, uma dá base e sustentação para as outras. Sem a física não seria possível sustentar a doutrina ética; sem a canônica, que trata das regras e critérios do pensamento indubitavelmente correto, não seria possível entender a física ou ciência da natureza; e sem a ética, que é a ciência do agir corretamente do homem, não seria possível ao homem ser feliz. Porém aquelas, isto é, a canônica e a física, são estruturadas em função desta última.

3.1 Canônica

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Na canônica Epicuro elabora as regras e critérios da evidência, isto é, do conhecimento indubitavelmente certo. Pois a canônica constitui a disciplina que tem por objetivo determinar as regras e os critérios do conhecimento.

Para Epicuro a fonte suprema de todo o conhecimento é a sensação. Pois aquilo que percebo é real e verdadeiro enquanto tal. E, portanto, as sensações não nos enganam nunca. Assim, “não há argumento, não há dialética que me faça não ter sentido o que senti, não ter visto o que vi” (MORAES, 1998, p. 29), pois a existência efetiva das percepções imediatas é a garantia da veracidade da sensação. Por essa razão as sensações são sempre infalíveis.

Como se dá a sensação para Epicuro? A sensação se dá por meio do contato, do choque entre nossos órgãos dos sentidos com os átomos tênues que escapam dos objetos que são semelhantes em tudo aos próprios objetos. Pois estes átomos tênues são pequenas “imagens” ou “simulacros” dos objetos que afectam nossos sentidos nos dando a conhecer por meio da sensação aquilo que nos atinge.

A sensação nos dá a possibilidade de colher o ser de modo infalível. Isto porque ela é sempre verdadeira e nada pode contradizê-la nem mesmo “a razão, porque a razão depende totalmente das sensações” para poder elaborar os raciocínios (EPICURO, apud DIÔGENES, 1977, p. 291). A sensação é uma afecção e, por conseguinte, passiva; ela é sempre “produzida por alguma coisa da qual é o efeito correspondente e adequado” (REALE, 2007, p. 261).

Para Epicuro a sensação é objetiva e a-racional. Giovanni Reale (2003, p. 261) diz que a sensação "é

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objetiva e verdadeira porque é produzida e garantida pela própria estrutura atômica da realidade”. E é a-racional porque nada, nem por si mesma nem movida por causas externas, pode ser acrescentado ou tirado dela seja o que for.

O segundo critério de verdade desenvolvido por Epicuro é o das antecipações. As antecipações são o mesmo que “prolepses” ou “pré-noções”. Jean-Francois (1993, p. 22) define prolepse como “um vestígio de uma percepção atual sob noções tão gerais quanto seja necessário”. A prolepse é uma representação mental ligada diretamente à sensação da qual esta é causa e aquela é efeito. A prolepse está no âmbito da memória. As experiências do passado ficam guardadas na memória deixando, por sua vez, “impressões”. Essas impressões permitem conhecer as qualidades das coisas mesmo sem tê-las atualmente diante do sujeito cognoscente. Por se ter tido muitas experiências com determinado objeto este por meio das sensações produz uma idéia universal na mente do sujeito. A prolepse, ainda, “é a memorização de um objeto externo que apareceu freqüentemente”. Quando se diz “homem” sua figura, sua forma e qualidades se apresentam imediatamente ao nosso pensamento por via de antecipações. Estas antecipações são sensações sofridas no passado que agora são chamadas a se manifestar ao pensamento por meio da noção geral de “homem”. Cada nome está imediatamente ligado às sensações. Investigar algo só se é possível desde de que se tenha já algum conhecimento anterior sobre esse algo. Para exemplificar: “aquilo que está à distância é um cavalo ou um boi”, para dizer se é um boi ou um cavalo deve-se ter, por antecipações, conhecido em alguma ocasião anterior a figura ou a forma de um cavalo ou de um boi. Portanto, somente a partir de um conhecimento prévio se pode

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nomear as coisas. Por conseguinte as prolepses são imediatamente evidentes e verdadeiras.

A opinião, também chamada pelos epicuristas de suposição, depende também das sensações. Se for uma opinião nova precisa-se de uma visão anterior imediatamente evidente, isto é, de uma prolepse. Uma opinião é verdadeira se os sentidos com evidência a confirma ou não a contradiz; é falsa se os sentidos não a confirma ou a contradiz.

O terceiro critério de verdade estabelecido por Epicuro é o do sentimento (afecção). Este por sua vez se divide em dois: o sentimento de prazer e o sentimento de dor. O sentimento de prazer “é conforme a natureza humana”, já o sentimento de dor “é contrária” à natureza humana. As escolhas são, todavia, efetuadas em base ao critério do sentimento de prazer. Se causar prazer é bom; ao contrário se causar dor, é ruim. Portanto, aquilo que causa prazer é escolhido, aquilo que causa dor é rejeitado, rechaçado.

Porém, nem tudo aquilo que causa prazer deve ser escolhido. Somente os prazeres nobres devem ser objetos de escolha do sujeito. Se algo produz um prazer e em seguida esse prazer traz consigo dor ou provoca desconforto, este prazer deve ser rejeitado, pois não é nobre e, portanto não merece ser objeto de escolha.

Na ética de Epicuro abordaremos mais sobre quais prazeres devem ser escolhidos e quais devem ser rejeitados. É sobre esse critério, isto é, o do sentimento, que Epicuro desenvolve sua ética.

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A sensação, como dito acima, é o critério último da verdade. E como tal ela não nos engana nunca. E como acontece o erro? O erro acontece por julgamento ingênuo acerca da realidade, ou seja, por opiniões que não têm a confirmação da sensação. Ou melhor, o erro não se dá por causa da sensação, pois ela é sempre verdadeira, mas ocorre o equívoco por causa da má interpretação feita dessa sensação. A sensação sempre nos dá a evidência de algo imediatamente. Inversamente a interpretação é feita por meio do raciocínio, e este por sua característica que lhe é inerente é mediato, isto é, é uma operação de mediação, que usa meios, que passa de idéia para idéia até delas se extrair uma conclusão. É por meio do raciocínio que surgem as opiniões e estas, por sua vez, carecem de aprovação ou reprovação das sensações. Se a opinião, como dissemos acima, tiver a comprovação na sensação esta é, por conseguinte, verdadeira; caso obtiver reprovação pela experiência, isto é, pela sensação, é falsa e deve, portanto, ser rejeitada.

3.2 A Física ou Ciência da Natureza

Conforme Epicuro, para saber como o cosmos é formado e conhecer as verdades fundamentais da natureza temos de ultrapassar não somente a sensação, mas também as noções gerais ou universais. Isso implica que temos de partir das coisas sensíveis para atingir aquelas que são invisíveis. As sensações nos dão a conhecer aquilo que é

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visível e sensível, porém o cosmo e as verdades fundamentais são invisíveis. Para atingir essas verdades fundamentais precisa-se fazer uso dos “olhos” da inteligência, isto é, do raciocínio que nos permite concluir do perceptível aos sentidos para o não-perceptível à sensação.

Epicuro elabora o estudo da física ou da ciência da natureza com um propósito bem preciso: dar fundamento à ética. A física é uma das grandes partes da estrutura do pensamento de Epicuro.

Epicuro ficara quando jovem intrigado com um verso de Hesíodo: “No princípio todas as coisas vieram do caos”. Ele, porém perguntou: de onde veio o caos? Na perspectiva de entender e responder a esse problema foi que ele elaborou o seu sistema sobre a física. Não obstante, seus estudos foram direcionados sobre a perspectiva de saber como o cosmo é formado e como ser feliz nele.

Para Epicuro “nada nasce do não-ser”. Mas o todo existe assim e assim sempre será assim. Nada poderá ser-lhe acrescido ou tirado. Afinal, o que se entende por todo? O todo é justamente o composto dos átomos e do vazio. “O todo é constituído de corpos e vazio” (EPICURO, 1977, p. 292). A evidência dos corpos é atestada pelos próprios sentidos em toda parte. E é nos sentidos, pois estes captam o conhecido, que a razão se apóia para inferir o desconhecido.

Os sentidos captam os corpos. E o espaço pode-se ter dele sensação? O espaço não é passível de captação pelos sentidos, pois este é por natureza intangível. O espaço é produto de inferência e de necessidade lógica. Tendo

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observado os corpos se percebe que eles se movem. E um corpo só se pode mover em um espaço ou vazio, portanto, o espaço ou o vazio (que é o mesmo) é real. O espaço é real porque sem ele onde ficariam os corpos e onde se moveriam estes mesmos corpos, visto que nós atestamos pelos sentidos que há movimento nos/dos corpos? O espaço é, portanto, o lugar dos encontros, dos choques, casuais e necessários de átomos que formam, desse modo, os compostos (DUVERNOY, 1993, p. 20). É nesse espaço que se é possível os compostos existirem. Sem o espaço onde poderiam existir os objetos e existindo como poderiam se mover?

Os corpos e o espaço existem. Basta-nos saber do que são formados os corpos. Existem corpos compostos e corpos simples. Os corpos compostos são percebíveis pelos sentidos, já os corpos simples são percebidos somente pela razão. Os corpos compostos são formados pelos corpos simples.

O que são os corpos simples? “Esses elementos são os átomos, indivisíveis e imutáveis” (EPICURO, 1977, p. 292). A dissolução dos corpos compostos não se reduz ao nada, mas os átomos se desintegram daquele grupo e tornam-se novamente invisíveis aos sentidos. Os átomos são os princípios das coisas, são indivisíveis e de natureza corpórea. Portanto, segundo Epicuro, tudo o que existe é formado pelos átomos. Os átomos mesmo sendo invisíveis aos sentidos são, todavia, corpos.

Em síntese, a realidade em sua totalidade sempre foi assim e sempre assim será. Nada poderá ser diminuído à totalidade e do mesmo modo nada poderá ser acrescido a

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ela. A totalidade é formada por dois princípios essenciais: o vazio e os corpos. A existência dos corpos é provada pelos próprios sentidos; a existência do vazio é inferida por meio dos movimentos dos corpos. Para que se haja movimento é necessário que haja espaço. Porque, se não houvesse espaço, os corpos não se moveriam de um lado para o outro. Como percebemos essa mobilidade dos corpos concluímos que o espaço existe necessariamente.

Segundo Epicuro, a totalidade é infinita3 e argumenta dizendo que aquilo que é finito tem uma extremidade quando confrontado com outra coisa. Porém, o todo não é confrontado com outra coisa, portanto não possui extremidade. Não tendo extremidade não tem limites e, por conseguinte, o todo é infinito e ilimitado.

Outro raciocínio utilizado por Epicuro para provar racionalmente a infinitude da totalidade é o seguinte:

O todo é infinito também pelo número enorme de corpos e pela grandeza do vazio, porquanto se o vazio fosse infinito e os corpos fossem finitos, os corpos não permaneceriam em lugar algum e se moveriam continuamente, dispersos pelo vazio infinito, nem teriam um suporte, nem um impacto para a volta ascendente; se por outro lado o vazio fosse finito, os corpos, que são infinitos, não teriam onde estar (EPICURO, apud DIÓGENES, 1977, p. 292).

Para que a totalidade do real seja infinita cada um dos seus constitutivos também devem ser infinitos. Assim

3 Lembrando que a totalidade é constituída de corpos e vazio.

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infinita é a quantidade de corpos e infinito também é a extensão do vazio.

Os átomos são corpos indivisíveis, imutáveis, e como tal, eterno. Podem os átomos ser todos iguais? Epicuro afirma que, mesmo tendo as qualidades da indivisibilidade, da imutabilidade e da eternidade, os átomos ainda têm uma variedade infinita de figuras, de formas. Porém essas formas dos átomos não são absolutamente infinitas, só são ilimitadas diante da capacidade de nossa mente. São inconcebíveis à nossa mente.

Os corpos e o vazio são eternos. Os átomos são o substrato, o fundamento, dos corpos compostos. E por sua vez os átomos são eternos. E desde a eternidade eles estão em movimento, por isso não há um início para esse movimento porque os átomos e o vazio existem desde sempre.

O movimento dos átomos é entendido por Epicuro, “como um movimento em queda para baixo no espaço infinito devido ao peso dos átomos, com um movimento tão veloz quanto o pensamento e igual para todos os átomos”, (REALE, 2003, p. 265) independente do peso.

Afinal, como são formados os corpos compostos? Para explicar a formação dos corpos compostos a partir do movimento dos átomos Epicuro introduz em seu sistema a teoria da declinação (clinámen) ou do desvio. Se os átomos não se encontrarem com outros como poderia formar os compostos? Para formar os compostos é preciso haver um aglomerado de átomos. De acordo com a teoria “da declinação dos átomos (clinámen) os átomos podem

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desviar-se a qualquer momento do tempo e em qualquer ponto do espaço num intervalo mínimo da linha reta e, assim, encontrar outros átomos” (REALE, 2003, p. 265) formando, por sua vez, os corpos compostos. Portanto, o clinámen é o efeito que os átomos sofrem desviando-se por mínimo que seja da linha reta que anteriormente vinham caindo. Nesse desvio os átomos se chocam uns com os outros formando, como dito anteriormente, os corpos compostos, isto é, o cosmo.

Epicuro afirma que

Os átomos estão em movimento contínuo por toda a eternidade. (...) Alguns deles são projetados a grande distância uns dos outros, enquanto outros, ao contrário, recebem o impacto onde estão, quando se encontram com um aglomerado de átomos ou permanecem aglomerados e, portanto, compactos, ou então contidos e protegidos pelos átomos aglomerados entre si, e, portanto, fluidos (EPICURO, apud DIÓGENES, 1977, p. 293).

Os átomos se movimentam no espaço, pois é o espaço que possibilita o movimento. O espaço não cria nenhuma resistência aos átomos para que estes se movimentem justamente porque ele é intangível. Os choques se dão no encontro dos próprios átomos repelindo uns para longe, outros desviando, outros se unindo. O fato é que tanto a formação dos corpos compostos quanto a dissolução dos mesmos se dá nos choques que ocorrem entre os átomos.

Epicuro afirma existir um número infinito de intermundos tanto semelhantes ao nosso como diferentes

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dele. Isso porque os átomos, sendo infinitos, se movimentam muito longe no espaço, isto é, a uma distância cada vez maior. E como os átomos não foram todos consumidos na formação de um mundo, ou seja, no nosso, nada obsta que formam outros mundos semelhantes ao nosso ou diverso deste, pois os átomos têm infinitas formas (EPICURO, 1977, p. 293).

3.3 Finalidade da Física Para Epicuro

Em outras palavras: por que Epicuro desenvolve sua teoria sobre a natureza, isto é, sobre a física? Ele desenvolve sua teoria física para dar suporte, base, fundamento à ética. Ele diz na carta a Heródoto: “devemos ainda sustentar que a função da ciência da natureza é a determinação precisa da causa dos elementos principais e que nesse conhecimento consiste a felicidade” (EPICURO, apud DIÓGENES, 1977, p. 301) e a felicidade é atingida a partir de um agir sem medo dos fenômenos naturais. Para não temê-los precisa saber como eles se formam ou como se dão.

Para epicuro os fenômenos naturais podem ter várias explicações. Porém a explicação tem de estar em conformidade com a sensação recebida dos fenômenos. O importante é que se tenha uma boa explicação para que se mantenha o espírito em paz. O sábio é aquele que tem

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autodomínio e por isso bem sabe interpretar os fenômenos naturais.

Atormenta o ser humano ignorar as causas daquilo que lhe é apresentado. Se não conhece o que lhe acontece então o desconhecido transforma-se na sua mente um terrível monstro. Mas uma vez obtendo uma explicação louvável4 sobre o fenômeno que lhe era desconhecido, este cessa de atormentar-lhe a mente.

O método de explicação deve ser baseado na sensação, isto é, naquilo que se observa. Buscar uma explicação racional tendo como base os critérios da sensação e do raciocínio liberta o indivíduo do mito. Pois o mito é uma narração a-racional que atribui a causa dos fenômenos aos seres de natureza divina ou a uma força estranha à própria natureza. Por isso Epicuro rejeita toda e qualquer explicação que transfira a causa de qualquer seja o fenômeno aos deuses, pois cumpre-nos deixá-los livres de qualquer tarefa e em perfeita bem-aventurança. Falaremos mais adiante sobre a existência dos deuses.

4 Foi dito uma explicação, pois para Epicuro um mesmo fenômeno pode ter várias explicações. O que vale aqui é a explicação que causa a ataraxia, isto é, que acalma, tranqüiliza a alma do indivíduo.

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3.4 A Ética

Epicuro desenvolveu sua ética com base no atomismo, porque o corpo e a alma humanos são formados por átomos e, portanto, é na sensibilidade que se estrutura o critério último do conhecimento humano. A ética é a doutrina do bem viver. Ela se preocupa, tem como finalidade, a felicidade do indivíduo. Epicuro desenvolve uma ética hedonista.

O Mestre do Jardim reforma o hedonismo proposto pelos cirenaicos dando a ele nova concepção adequando-o ao seu sistema. O hedonismo de Epicuro é a doutrina filosófica que tem o prazer como sumo bem e que a felicidade, fim último da vida humana, consiste na busca do prazer. Num fragmento Epicuro diz que “chamamos ao prazer princípio e fim da vida feliz” (2006, p. 106). Giovanni Reale comentando a doutrina de Epicuro conceitua o hedonismo como “a doutrina que encontra no prazer o sumo bem e na busca do prazer o fim da vida do homem” (2003, p. 269). Duvernoy com outras palavras em concordância com Epicuro e Giovanni Reale diz que o hedonismo é a “filosofia para a qual o prazer é um bem” (1993, p. 20).

Na Carta a Meneceu epicuro exorta seus discípulos ao estudo da filosofia dizendo “que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho” (2002, p. 21) isso porque pela filosofia se alcança a saúde da alma ou do espírito. Negar a filosofia é o mesmo que negar a própria felicidade. Tanto para os jovens

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quanto para os velhos a filosofia é útil, pois para estes traz a feliz recordação das coisas que já passaram e para aqueles produz a satisfação de crescer livres dos temores das coisas que poderão vir acontecer. Viver sem temores é gozar do prazer da tranqüilidade e, por conseqüência, quem assim procede pode ser considerado um indivíduo feliz.

Qual é, segundo Epicuro, o sentido último da vida humana? É a felicidade, pois, segundo Epicuro “é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la”, escreve Epicuro na Carta a Meneceu (2002, p. 23).

É contemplando o tema da felicidade que Epicuro forja sua ética. A fonte da felicidade está no prazer. Portanto, a ética epicuréia é hedonista, por ser fundada na noção de prazer. Em que consiste o verdadeiro prazer para o Mestre do Jardim? Consiste, portanto, “na ausência de sofrimentos físicos” (aponia) e na “ausência de perturbações da alma” (ataraxia) (EPICURO, 2002, p. 43).

O prazer é o critério de toda escolha e também de toda rejeição. É apoiado nesse critério que se escolhe todo o bem de acordo com aquilo que provoca prazer ou dor. Se algo provoca prazer este por sua vez é objeto de escolha, todavia se este provoca dor é objeto de recusa. Apesar de o prazer ser o bem último e ser o critério de escolha, porém não é qualquer prazer que o indivíduo deve escolher, diz Epicuro. Pois em algumas ocasiões é melhor evitar certos prazeres quando deles vier efeitos desagradáveis; é preferível nesses casos sofrer algum dano se dele advier prazer maior que os sofrimentos padecidos. Epicuro escreve

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que “todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas” (2002, p. 39).

Sobre o prazer Epicuro classifica os que:- São naturais e necessários;- Aqueles que são naturais mas não necessários; e- Aqueles que não são naturais e nem necessários.

Assim, com essa classificação, Epicuro estabelece uma hierarquia entre os tipos de prazer, explicitando quais classes de prazer conduzem o indivíduo à verdadeira felicidade. Pois a meta a ser alcançada é a aponia e a ataraxia. É seguramente conhecendo os tipos de prazer que o homem efetua suas escolhas tendo claramente aqueles que o levarão a atingir a finalidade, que é a eudaimonia.

Os prazeres naturais e necessários são aqueles que dizem respeito à manutenção da vida biológica do indivíduo, e são esses que realmente têm validade, pois subtraem toda dor do corpo. Por exemplo, comer quando se tem fome, beber quando se está com sede, dormir quando se tem sono. A satisfação dessas necessidades é fundamental para o bem-estar do corpo do indivíduo.

A segunda classe de prazeres classifica os desejos e prazeres supérfluos. Alimentar quando se está com fome é natural e necessário, porém não é necessário suprir a necessidade de alimento com iguarias refinadas. Isso é inútil. Do mesmo modo é o caso do vestir. Não é necessário se vestir com vestes aperfeiçoadas, e assim por diante.

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A terceira classe de prazeres é aquela que deve ser evitada e desprezada, pois é inútil ao indivíduo. A esta classe Epicuro cita os desejos de riqueza, poder, honra e outros do gênero. Os prazeres deste grau não eliminam as dores no corpo e ainda causam perturbações na alma. Portanto, devem ser rejeitados e reprovados.

O primeiro grau de prazer refere-se àqueles desejos que devem ser satisfeitos e queridos, porque uma vez tendo saciado os desejos dessa ordem elimina-se a dor do corpo e suprime as perturbações da alma. O segundo grau não tem por limite a satisfação da necessidade, mas apenas a intensidade do deleite. E pode, em conseqüência provocar grandes danos ao indivíduo. O terceiro grau não tem a finalidade nem de subtrair a dor do corpo nem tampouco de livrar o indivíduo das perturbações na alma. A segunda e a terceira classe de prazeres descreve aquilo que é inútil e desnecessário. Epicuro para estabelecer essa ordenação parte do pressuposto de que “tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil” (EPICURO, 2002, p. 41). O ideal de vida nessa perspectiva é o da vida simples, sem ambições além daquilo que é necessário à manutenção da vida humana no aspecto biológico.

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3.5 O Sábio e a Felicidade

Epicuro é hedonista, como acima mencionamos, no entanto, não é qualquer prazer que o indivíduo deve escolher. Para que o homem escolha corretamente os prazeres ele tem de fazer uso da razão. É a razão que julga e discrimina qual prazer deve ser objeto de escolha e qual não. Usar a razão de maneira apropriada é ser autárquico, é ser sábio. O sábio é aquele que está submisso ao logos, pois esta é a condição natural que o indivíduo possui para alcançar a eudaimonia (LIMA VAZ, 1991, p. 44).

O sábio é o indivíduo mais feliz, isto porque é virtuoso. As virtudes estão ligadas intimamente à felicidade, e a felicidade não se dá separada delas. A prudência é a sede de todas as virtudes: da beleza e justiça, etc. A prudência é o principio e o bem mais elevado, até mais que a filosofia (EPICURO, 2002, p. 45). Perseguindo a virtude da prudência as demais virtudes virão por conseqüência. E, por conseguinte, quem assim age é sábio e feliz.

O sábio pensa naquilo que deve pensar para ser feliz. Portanto, o sábio possui uma boa saúde espiritual e não precisa, por conseguinte, de médico ou de remédio para ter tal saúde, porque ele já a tem, já a possui. Em contrapartida a filosofia não é a saúde da alma, mas é a disciplina intelectual (o remédio) que expulsa os males, dissipa as perturbações que a afeta permitindo assim ao indivíduo a possibilidade da felicidade.

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A sabedoria é sublime até mais que a filosofia porque para ser feliz basta saber escolher bem os prazeres, visto que a sabedoria tem sua função prática, cotidiana. Porém nem todos os homens são sábios, portanto, a partir disso se tem a necessidade da filosofia. Um fragmento Epicuro citado por Duvernoy diz o seguinte:

É vazio o discurso do filósofo que não trata (therapeueta) de nenhuma paixão humana. De fato, do mesmo modo – osper – que o médico de nada serve se não extirpa as doenças do corpo, assim também – outos – a filosofia de nada serve se não expulsa para fora da alma as coisas que a afetam (EPICURO, Apud DUVERNOY, 1993, P. 78).

É fazendo um exame cuidadoso que explicite as causas das escolhas e das rejeições efetivadas que remove as opiniões falsas acerca da realidade, pois estas opiniões falsas perturbam os espíritos. À medida que o homem (que não seja ainda sábio) se livra, por intermédio da filosofia, dos temores da alma ele se torna feliz.

A filosofia é bem vista por Epicuro por causa da utilidade que ela presta ao indivíduo. A filosofia não deve ser uma atividade teoricamente vazia, isto é, que o discurso filosófico não seja elucubrações sobre nada. Mas que o discurso filosófico traga luz para a ação cotidiana do indivíduo e seja remédio para a alma do homem doente do espírito.

Pelo uso da filosofia o indivíduo poderá ascender ao grau máximo da felicidade que é o patamar no qual se enquadra o sábio. Porém nem todos são ou serão sábios,

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mas todos os indivíduos têm o direito de ser feliz. Todos, crianças, velhos, escravos, homens livres, mulheres, etc. podem ser felizes, basta se pôr no caminho da filosofia do Mestre do Jardim.

3.6 A Amizade

Epicuro, como vimos acima, viveu a queda da Grécia enquanto cidade-estado. Com a derrocada desta diluiu-se também os valores a ela intimamente ligados. Um exemplo dos valores é o do homem-cidadão. Já não havia, no contexto em que viveu o Mestre do Jardim, coerência entre cidade e cidadão. Portanto, “o homem deixou de ser homem-cidadão para tornar-se puro homem-indivíduo” (REALE, 2003, p. 272).

Na pólis os cidadãos se uniam e reuniam em torno de discussões que dissesse respeito à cidade-estado. No novo cenário político e social, para unir os indivíduos entre si seria preciso de uma força que não fosse estranha a eles e esta se chamou: amizade. Amizade, porque esta é “o laço livre que reúne juntos aqueles que sentem, pensam e vivem de modo idêntico” (REALE, 2003, p. 272).

Viver na companhia de amigos é o mesmo que ser feliz. Epicuro elogia a conquista da amizade. Um fragmento seu nos diz: “de todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da

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amizade”; e um outro fragmento afirma: “toda amizade é desejável por si própria, mas inicia-se pela necessidade do que é útil” (EPICURO, 1973, p. 28).

A amizade, como diz Epicuro, nasce a partir daquilo que é útil, porém uma vez nascida torna-se fonte de prazer e, portanto, um fim em si mesma. Na vivência da amizade nada é imposto de fora e de maneira que não seja natural. Dessa forma não se viola a intimidade do indivíduo.

O surgimento de uma amizade pode acontecer de várias maneiras, porém surge a partir da necessidade pessoal de cada indivíduo. Às vezes se inicia uma amizade por causa de um favor feito por alguém a outrem. Após o feito se cria laços que perdura pela existência dos envolvidos nessa relação de amizade.

Numa amizade consolidada podemos sentir o prazer da segurança. Quando estamos amargurados, chateados ou algo do gênero, é o ombro da pessoa amiga mais próxima que requeremos para sermos consolados. A expressão “ombro da pessoa amiga” significa aqui a necessidade de se ter a atenção total do amigo procurado no momento em que solicitamos. Pois o que se procura na maioria das vezes não é alguém que fala, mas alguém que nos escuta atentamente e que respeita nosso momento de angústia.

Podemos perceber em consonância ao que falamos acima que a amizade possui utilidade. Todavia a utilidade numa amizade deve ter limites, pois se assim não for não é amizade. A amizade tem de ser fim em si mesma e não meio para conseguirmos a realização dos nossos caprichos pessoais.

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Quem exige ajuda constantemente, e, do mesmo modo, quem nunca a presta, não é um amigo. O primeiro quer comprar o nosso esforço com o seu afeto; o segundo nos rouba, para todo o futuro, a esperança consoladora (EPICURO, 2006, p. 77).

Epicuro estabelece limites de utilidade numa amizade para que ela possa ser conservada. Como sabemos, a amizade tem sua genes naquilo que é útil, mas deve cessar o utilitarismo para que a amizade seja ela mesma fonte de prazer. A alegria de viver entre amigos é contagiante. Podemos sentir fortemente a alegria da amizade quando reencontramos alguém que nos marcou positivamente e que por razões e outras teve de nos deixar. A presença dessa pessoa tão estimada por nós desperta emoções que dizemos sem hesitar: é bom tê-la como amiga.

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4 CAMINHO DA FELICIDADE:

O TETRAFÁRMACO

O Mestre do Jardim desenvolveu sua filosofia com um propósito bem claro: curar as almas enfermas. Ao longo da Tradição filosófica ficou conhecida a síntese da ética de Epicuro como Tetrafármaco, ou os quatro (tetra) remédios (pharmaco).

Àqueles que, por uma razão e outra, têm algum desequilíbrio na alma é útil a aplicação sobre si mesmos do tetrafármaco, pois este serve para todas as pessoas que queiram ser felizes. Serve tanto para homens livres, para escravos, mulheres, crianças e até estrangeiros. A felicidade é o escopo da filosofia do Epicuro. Todos anseiam em ser felizes, porém o caminho e o método pelo qual e com que direcionam suas vidas nem sempre conduzem à beatitude.

A bem-aventurança não é alcançada diretamente, ela é conseqüência das escolhas e das ações do homem sensato. Por essa razão Epicuro propõe uma forma de aprendizagem da felicidade ao mesmo tempo ampla e irrestrita, mas não utópica. Não utópica porque ele, Epicuro, considera o homem na sua singularidade, na cotidianidade, na concretude do indivíduo. E, portanto, a proposta dele está aberta para todo e qualquer indivíduo e não para apenas

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alguns eleitos marcados pela graça divina, ou para alguém superdotado de inteligência.

A todos, portanto, a filosofia de Epicuro proporciona os quatro remédios que curam a alma e o corpo e, por conseguinte, o indivíduo alcança a felicidade. Os remédios são:

a) não temer os deuses;b) não temer a morte, pois ela não é nada;c) o prazer é o bem supremo e está a disposição de

todos; ed) a dor é suportável.

Esses são os remédios terapêuticos que levam o indivíduo a reencontrar a felicidade. Aquele que souber aplicar esses remédios a si mesmo poderá alcançar a paz de espírito e a bem-aventurança.

Os remédios propostos por Epicuro, que se refere à maneira de agir e, portanto, à ética, estão em conformidade com a sua física. A alma e a morte são vistas e entendidas a partir da ótica da física desenvolvida por ele.

Assim, tudo o que existe é formado pelos átomos, inclusive nosso corpo e nossa alma. A alma é corpórea, no entanto é formada de partículas sutis, delicadíssimas que se expande por todo o organismo. A alma, por sua sutileza e por estar em todo o corpo humano, é responsável pelas sensações. Contudo, a alma é amparada pelo corpo, isto é, a alma sem o corpo não teria sensações, mas o corpo sem ela não poderia também sentir. A alma é a causa principal das sensações, mas não seria se não se servisse de um corpo, porque o corpo é ocasião para efetivá-las.

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A alma é um aglomerado de átomos. E como conseqüência lógica do sistema de Epicuro ela não é imortal, mas mortal. O que é a morte para Epicuro? A morte já não é mais a separação da alma do corpo, como dissera Platão, pois a alma não é imaterial, nem imortal. A alma sendo um conjunto de átomos sutis que está em estreita relação e consenso com o corpo e que dá ao corpo a capacidade da sensação e o corpo é a ocasião da sensação a morte é justamente a perda da sensação tanto de dor quanto de alegria. A morte é o término de todas as sensações, tanto das que alegra quanto das que causam sofrimento. Assim um dos fragmentos de Epicuro (2006, p. 61) expressa: “a morte nada é para nós, pois aquilo que já foi dissolvido não possui mais sentimento. Aquilo, porém, que não possui mais sentimento, não nos importa”.

Um organismo sem a alma é sem vida, isto é, não é dotado da capacidade de sentir. Um corpo quando perde parte sua, por exemplo, um braço, ele continua tendo sensação, porém a parte extraída daquele conjunto perde a sensibilidade. Mas se o corpo todo for mutilado e desmembrado a alma também se dissolve, pois o corpo que é a base da sensação já não existe mais. Contudo se um corpo permanece inteiro e a alma se esfacela o corpo perde a sensação constituindo, assim, a morte.

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4.1 Não Temer os Deuses Nem a Morte

Os deuses são conhecidos somente pelo pensamento, pois possuem natureza extremamente sutil e captamos seus simulacros somente pelo pensamento. Contudo é evidente o conhecimento que temos deles. Eles de fato existem, afirma Epicuro. Como tudo o que existe, eles também são corpóreos. Porém são formados por átomos sutis, delicadíssimos.

A concepção errônea que a maioria tem dos deuses faz com que os indivíduos sofram. As idéias erradas sobre os deuses escravizam e atormentam o espírito do homem. O medo da ira e das intemperanças (o que é estranho aos seres bem-aventurados) dos deuses fazem com que continuamente os crentes ofereçam sacrifícios para abrandar as fúrias deles e que no fim da vida o homem piedoso seja afortunado com a vida feliz e não seja lançado no Hades, onde sofrerá duras penas. Essa preocupação que perturba os espíritos humanos baseia-se na “crença de que os deuses causam os maiores malefícios aos maus e aos maiores benefícios aos bons” (EPICURO, 2002, p. 25).

Mas não se deve temer os deuses, justamente porque eles não se preocupam com os homens, isto é, eles não interferem em nada na natureza e nem nas ações humanas. É inútil e desastroso para o espírito humano temê-los. Os deuses são seres imortais e bem-aventurados, e como tal, não têm preocupações com nada e nem com ninguém. Eles somente “aceitam a convivência com os seus semelhantes e

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consideram estranho tudo o seja diferente deles” (EPICURO, 2002, p. 27). Portanto, não devemos esperar nada dos deuses e nem temê-los, pela simples razão de que, vivendo em eterna satisfação, eles conosco não se preocupam (MORAES, 1998, p. 65).

Os deuses não interferem em nada na vida dos homens e nem na natureza. Não são os deuses, mas sim os átomos que estão em constante movimento que regem o Universo. Portanto, não há necessidade de temê-los, pois eles não são vingativos ou odiosos como o vulgo costumeiramente julga. Nessa perspectiva Epicuro escreve que “um ser ditoso e eterno (a divindade) não conhece penas e nem transfere para um outro ser”. Nem tampouco os deuses são complacentes e benevolentes. Pois, de acordo com Epicuro (2006, p. 61) os deuses não conhece nem ira nem benevolência. Ter sentimento de ira ou de benevolência é característica de seres fracos. Portanto, nada disso condiz com a natureza divina, porque são seres eternos e felizes, não têm preocupações e nem perturba a ninguém. Eles são indiferentes aos homens.

Ter opinião correta sobre as divindades é um grande remédio para conduzir o indivíduo à eudaimonia. Em vez de temer os seres bem-aventurados deve-se tê-los como paradigma, como modelo a ser perseguido para atingir a verdadeira felicidade.

Tudo o que existe é corporal, portanto se os deuses existem, são corpos, e o conhecimento que se pode ter deles é por meio de percepções. A prolepse que se tem dos deuses é conhecida por meio do pensamento, pois os deuses são corpos, mas o são invisíveis. De acordo com Moraes,

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“Epicuro, coerente com sua canônica, leva a sério a constatação de que todos os povos, em todas as regiões, possuem uma prenoção dos deuses”. Isso mostra que os indivíduos têm percepção dos deuses, porém é uma percepção confusa, enigmática, no sentido de que não é a prolepse de um deus específico, mas é uma sensação da divindade enquanto tal. Por causa dessa universalidade da prolepse da divindade prova-se, então, que a prenoção dos deuses não é ilusória.

Na Carta a Meneceu Epicuro (2002, p. 25) afirma que “os deuses de fato existem e que é evidente o conhecimento que temos dele”. O que não existe é a imagem que a maioria das pessoas concebem desses seres divinos. O vulgo considera que os deuses castigam os maus e recompensam abundantemente os bons. Mas os deuses são seres bem-aventurados e não se preocupam os homens e nem com o mundo.

O filósofo é aquele que tem o juízo correto acerca dos deuses. Os deuses não são seres que criam as coisas e nem são senhores do mundo nem dos homens. A relação dos deuses conosco não é nada, pois eles são “deuses-para-si-mesmos, isso exclui que eles sejam deuses-para-outrem, é justamente essa plenitude contente consigo que faz deles deuses, e que faz com que os conheçamos como tal” (DUVERNOY, 1993, p. 62).

Os deuses por serem deuses são imortais e bem-aventurados. Eles são seres que vivem em plenitude a ataraxia, isto é, eles vivem totalmente sem perturbação alguma. É importante para o ser humano reconhecer que existam os deuses. Porque ao notar que eles existem o

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homem percebe que a idéia de felicidade não é algo impossível de ser atingido, visto que os deuses a vivem em plenitude. Por essa razão eles merecem respeito como paradigmas da felicidade. Mas, no entanto, os deuses não se preocupam conosco.

Temer a morte é um desconforto que imediatamente perturba o espírito do indivíduo humano. Epicuro (2002, p. 27) percebendo isso escreve na Carta a Meneceu “acostume-te à idéia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações”. A morte é tida muitas vezes como algo doloroso e danoso, pois impede de o homem ser imortal. Há, todavia, um desejo de imortalidade que toma conta dos sentimentos do indivíduo e este, por final, sofre amargamente quando se vê impotente frente à impossibilidade de realizar tal desejo.

Um justo entendimento do que seja a morte supera esse terrível medo e conduz o indivíduo ao caminho da felicidade. Como a morte é perda da sensibilidade escreve na Carta a Meneceu que “o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos” (EPICURO, 2002, p. 29). A morte cessa todo o movimento humano, pois ela é dissolução do composto em elementos, isto é, é a dissolução do aglomerado de átomos em suas partículas atômicas, tanto do corpo quanto da alma. Ao dissolver o corpo e a alma não há mais sentimento. Entendendo que a alma não é imortal é inútil alimentar a crença na imortalidade da dela, pois essa idéia é incompatível com a natureza das coisas, pois a morte é

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simplesmente a separação dos átomos componentes do organismo.

Portanto, não se deve temer a morte porque ela nada é para nós visto que em quanto somos ela não é, e quando ela é nós é que não somos. É vã a preocupação com a morte, pois essa idéia tolhe a alegria do homem em viver. Cabe ao indivíduo viver honestamente e também de morrer honestamente, porque “o sábio nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal” (EPICURO, 2002, p. 31).

4.2 O Prazer é o Bem Supremo e a Dor é Suportável

O prazer é o supremo bem, pois ele “é o início e o fim da vida feliz” (EPICURO, 2002, p. 37). Em que consiste o verdadeiro prazer para o Mestre do Jardim? Consiste, portanto, “na ausência de sofrimentos físicos” (aponia) e na “ausência de perturbações da alma” (ataraxia) (EPICURO, 2002, p. 43). Quando se está com fome o prazer advém à medida que o indivíduo se alimenta com o mínimo necessário. Quando, por exemplo, se tem medo da morte à medida que se tem o justo entendimento de como a natureza é constituída tal medo é dissipado dando espaço à tranqüilidade do espírito. No entanto “o apogeu do prazer será alcançado quando todas as dores forem eliminadas.

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Pois onde entrou o prazer não existem, enquanto ele reinar, nem dores nem padecimentos” (EPICURO, 2006, p. 61).

Aquilo que é necessário para suprir as carências humanas nos é fácil obter. Quando estou com fome terei o mínimo sem grandes dificuldades para suprimir minha carência de alimento. Assim, o prazer imediatamente sucede àquilo que instantes antes me fazia sofrer. A razão disso é que o prazer está indistintamente ao alcance de todos. Segundo Epicuro “tudo o que é natural é fácil conseguir; difícil é tudo o que é inútil” (2002, p. 41). Perseguindo o exemplo acima, quando estou com fome se apenas quero eliminá-la, um alimento simples é fácil de ser conseguido; porém é difícil quando quero uma iguaria requintada. Assim “os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita” (EPICURO, 2002, p. 41). No entanto, o sábio compreende que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis de adquirir.

A dor tanto física como espiritual não deve tolher a felicidade do indivíduo, mas para isso se deve ter uma opinião acertada a esse respeito. A dor tem por natureza a característica de perturbar o corpo e a alma. Por essa razão se torna imprescindível conhecer sua natureza. A despeito disso escreve o Mestre do Jardim:

A dor não permanece ininterruptamente na carne. Por mais violenta que ela seja, mais curta é a sua duração. Se ela, porém, existir ao lado do gozo, logo que ultrapasse este último na carne, não dura muitos dias. Num sofrimento mais

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demorado, entretanto, o prazer é sempre um pouco maior do que o padecimento da carne (EPICURO, 2006, p. 61-62).

A dor é o oposto do prazer. Quando se está com alguma dor e esta cessa significa que há nesse instante a prevalência do prazer. O prazer está ao alcance de todos, porém quando o indivíduo é acometido por alguma enfermidade este, se não conhece essa realidade, fica perturbado e por essa razão não consegue obter o mínimo de prazer nas ações que poderá vir a realizar. Portanto, frente ao sofrimento, o homem deve enfrentá-lo com imperturbável serenidade de espírito para que no cessar a dor possa gozar o mais consistente prazer.

Dor e prazer são faces da mesma e única moeda, ou seja, a vida humana está sujeita ao prazer e à dor. Quando alguém está preocupado, angustiado com algo que sucedeu à sua existência, então esse indivíduo busca a todo custo se livrar do incômodo para desfrutar da alegria do prazer. A busca pelo prazer é uma característica inerente à ação humana. Portanto saber que a dor tem limites poderá dar coragem para o indivíduo enfrentar as dificuldades que acometem tanto a alma quanto o corpo.

Mas como agir frente à dor? É em momentos assim que se faz necessário a filosofia. Pois é momento de perceber as circunstâncias na totalidade e avaliar qual atitude será melhor para aquele específico momento. Saber avaliar e escolher é mérito da razão e portanto da filosofia.

Epicuro, ao formular o tetrafármaco, deu resposta às angustias dos indivíduos de seu tempo. No entanto o quádruplo remédio responde às principais causas da

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infelicidade do homem de modo geral: o medo dos deuses; o apavorar-se mediante o conhecimento de que o homem morre; a dificuldade de escolher os objetos do desejo que proporcione prazeres mais duradouros; e o problema de angustiar-se frente ao sofrimento.

O indivíduo que puser em prática o tetrafármaco este será feliz, conquistará para si a eudaimonia. O conhecimento acerca da natureza e do modo como o ser humano conhece tem a finalidade de ajudar o indivíduo a agir bem. É conhecendo bem a natureza das coisas e agindo bem, isto é, escolhendo bem, que se encontra a verdadeira ataraxia. Portanto, a felicidade está ao alcance de todos e não é difícil, basta seguir a terapia do Jardim.

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5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

No primeiro capítulo, do presente trabalho, discorremos sobre a pólis e o cidadão. Nela havia uma perfeita integração entre o cidadão e a cidade-estado. Portanto, a pólis tornou-se assim o modelo ideal e perfeito de aglomeração de pessoas, de associação de cidadãos. Nela as necessidades dos homens pertencentes a ela eram satisfeitas. Para o grego, de modo geral, a idéia de que a cidade-estado é o modelo ideal, era tão forte e arraigada na cultura que nem sequer viam para além dela uma unidade mais vasta, um império, por exemplo. Com o tempo, por causa de sucessivas guerras entre as pólis da própria Grécia e invasões circunvizinhas, a pólis grega entrou em ruína. A derrocada da cidade-estado se deu finalmente com as invasões operadas pelo império macedônico. Com as conquistas de Alexandre Magno, imperador macedônico, iniciou-se assim o fenômeno denominado Helenismo.

Com a queda da pólis caíram também os valores a ela intimamente ligados. Já não há mais aquela integração natural entre a pólis e o cidadão. Surge, então, a idéia de indivíduo, que é novidade para a época. O indivíduo é a nova sede da ética. Pela primeira vez na história da filosofia moral a ética discursa tendo o homem na sua singularidade. O centro das discussões éticas acerca do indivíduo é a eudaimonia, ou seja, a felicidade.

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Nas discussões que se referem à felicidade dos indivíduos no período helenístico encontramos com Epicuro uma resposta, apesar de não ser o único a se pôr o problema. Epicuro, como muitos outros filósofos, era comprometido com seu tempo, com os problemas que afetavam tanto a si mesmo quanto aos seus contemporâneos.

No itinerário espiritual de Epicuro destacamos que a visão de mundo que ele aceitou foi a atomista. Introduziu em sua doutrina a ataraxia que extraiu do ceticismo pirrônico. A ataraxia é o estado de impertubalidade ou tranqüilidade da alma.

Epicuro concebeu a vida baseada no prazer. Portanto sua filosofia é chamada de hedonista por ter o prazer como fundamento da vida feliz. A eudaimonia é o que os indivíduos querem e buscam em suas ações. Para auxiliar as pessoas a alcançarem a ataraxia Epicuro divulga suas idéias sobre a vida feliz.

No segundo capítulo tratamos sobre o sistema filosófico elaborado por Epicuro. Vimos que seu sistema é composto por três partes diferentes que se complementam no todo. São elas: a canônica, a física e a ética. Elas se complementam no todo, isto é, uma dá base e sustentação para as outras. Sem a física não seria possível sustentar a doutrina ética; sem a canônica, que trata das regras e critérios do pensamento indubitavelmente correto, não seria possível entender a física ou ciência da natureza; e sem a ética, que é a ciência do agir corretamente do homem, não seria possível ao homem ser feliz. Porém aquelas, isto é, a canônica e a física, são estruturadas em benefício desta última.

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Na canônica elucidamos que o conhecimento é possível e que o critério último de fundamentação do conhecimento humano está assentado na sensação. A sensação é a fonte do conhecimento e ela não nos engana nunca, segundo Epicuro. Com base nas sensações surgem as antecipações. Esta é o segundo critério de verdade de acordo com a canônica epicurista. As antecipações estão no âmbito da memória. Por se ter visto várias vezes um mesmo objeto somos capazes de extrair uma noção geral do objeto e de dar a ele um nome. O terceiro critério de verdade estabelecido por Epicuro é o do sentimento (afecção). Este por sua vez se divide em dois: o sentimento de prazer e o sentimento de dor. O sentimento de prazer “é conforme a natureza humana”, já o sentimento de dor “é contrária” à natureza humana. O sentimento é o meio pelo qual efetuamos nossas escolhas e recusas.

No estudo da física de Epicuro vimos que o todo é formado pelo espaço e pelos corpos. O espaço não é passível de ser percebido pelos sentidos, mas é uma necessidade lógica que nos obriga a aceitá-lo. O espaço é aquilo que é destituído, por natureza, de matéria.

Tudo o que existe é formado por átomos. Até mesmo a alma humana é feita por átomos, porém de átomos sutilíssimos. A alma é responsável pela sensibilidade do corpo. A morte humana é a perda da sensibilidade e a desintegração daquilo que é composto em seus elementos simples.

É importante, segundo Epicuro, conhecer as causas ou a estrutura da natureza para que o indivíduo não tema os

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fenômenos naturais. Entender as causas mais remotas da física é a base para a ética epicurista.

Epicuro desenvolveu sua ética com base no atomismo, porque o corpo e a alma humanos são formados por átomos e, portanto, é na sensibilidade que se estrutura o critério último do conhecimento humano. A ética é a doutrina do bem viver. Ela se preocupa, tem como finalidade, a felicidade do indivíduo. Epicuro desenvolve uma ética hedonista, porém não é qualquer prazer que se deve escolher. Quem melhor sabe avaliar quais prazeres escolher é o sábio e, por conseguinte, é o mais feliz de todos os homens porque, não somente escolhe, mas escolhe bem. O sábio é aquele que está submisso ao logos, pois esta é a condição natural que o indivíduo possui para alcançar a eudaimonia.

No terceiro capítulo abordamos as conclusões éticas do sistema de Epicuro que ficou conhecida na história da filosofia como tetrafármaco. Tetrafármaco como o próprio nome diz significa os quatro (tetra) remédios (pharmaco). Os quatro remédios são: não temer os deuses; não temer a morte; o prazer é o bem supremo e a dor é suportável.

Vimos que o tetrafármaco tem a finalidade bem precisa: curar as almas doentes e conduzi-las à eudaimonia. O medo é uma doença causada pelo juízo errado acerca daquilo que é temido. Quando se tem um juízo equivocado sobre as divindades e sobre a morte pesa na consciência do indivíduo o medo. Por isso a paz da alma se estabelece no indivíduo quando este possui um justo entendimento da realidade divina e da morte.

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Ao mesmo tempo em que há a libertação dos temores dos deuses e da morte o indivíduo é instruído de que o prazer é o bem supremo e está ao alcance de todos. Aprende-se com o tetrafármaco que a dor é suportável, por isso se deve aprender a lidar com ela. Portanto aquele que souber aplicar esses remédios a si mesmo poderá alcançar a paz de espírito e a bem-aventurança.

A vida tem sentido, segundo Epicuro. As nossas ações visam sempre uma finalidade específica: a felicidade. O sentido último da vida humana é, então, a felicidade ou a eudaimonia. Como o indivíduo é a sede da ética helenística em todos os lugares e condições é possível a vida humana ter sentido; basta saber escolher bem. Desejamos por nossa própria natureza ser felizes. Por essa razão a vida vale a pena ser vivida segundo a nossa natureza: a razão. O sábio como vimos é o indivíduo mais feliz porque sua vida é governada pelas leis da razão.

A melhor forma comunitária onde a eudaimonia é preservada e garantida é a amizade. A amizade é o modo de manter relações com outras pessoas sem ferir a liberdade alheia e até mesmo a própria. Porém a amizade, como diz Epicuro, nasce a partir daquilo que é útil, porém uma vez nascida torna-se, fonte de prazer e, portanto, um fim em si mesma. Na vivência da amizade nada é imposto de fora e de maneira que não seja natural. Dessa forma não se viola a intimidade do indivíduo.

Será que a filosofia de vida desenvolvida por Epicuro é capaz de irradiar luz em nosso tempo para que possamos entendê-lo? Em outros termos: o pensamento de Epicuro é válido para os homens de hoje? A resposta é positiva. A

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razão disso é que nós, depois de 2300 anos de distância, temos algo em comum com “os do Jardim”: o desejo de felicidade. Mudou-se o tempo e os indivíduos, todavia somos ainda instigados a trilhar caminho que nos leve a viver com alegria. Porque não basta viver, temos de viver bem.

Assistimos e lemos constantemente nos noticiários reportagens que mostram horríveis crimes cometidos contra a pessoa humana, contra o povo no âmbito político, etc. Queremos nos ater ao aspecto econômico que nos é bastante pertinente. Na maioria dos casos, os crimes são feitos por desejos de riqueza. A vida fausta, luxuosa de muitos, suscita noutros indivíduos, que costumamos qualificar de bandidos, o desejo de roubar a riqueza alheia. Um vive protegendo o que tem e o outro procurando forma de tomar o que aquele possui. Torna-se um círculo violento, causando muito sofrimento aos envolvidos nessa disputa pelo ter. O atrito aflige não somente os grandes detentores de bens materiais, mas até os pobres que pouco têm ou nada possuem.

É a luta pelo ter que faz muitos não perceberem que ser é a base para uma vida feliz, bem-aventurada. Epicuro nesse aspecto é radical. O homem não deve se preocupar com riquezas e glórias a ponto de perder aquilo que tanto busca nas riquezas e glórias: a felicidade. O indivíduo deve ser autônomo (autárquico) e para isso deve se descobrir e sentir quem se é e, também, o que se é. Para fazer esse percurso na descoberta do próprio ser ele conta com o instrumento universal a todos: a razão.

Enfatizar o ser da pessoa humana não é negar a ela o acesso aos bens materiais. Mas é, por meio da razão,

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submetê-los ao serviço do homem e não o contrário. Quando a vida do indivíduo está presa aos objetos, concomitantemente ele é escravo deles e põe neles sua razão de viver e estes não conseguem dar ao homem o sentido último para uma vida boa.

Epicuro serve de referência teórica para motivar

nossos contemporâneos a empreender a busca de ser.

Conseguindo atingir o objetivo de ser muitos problemas

atuais poderiam se resolver, porque não será mais

necessário recorrer à violência para conseguir aquilo que é

necessário para uma vida feliz. Afinal, aquilo que é

necessário é fácil conseguir. Segundo Epicuro (2002, p. 41)

“tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o

que é inútil”.

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VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Antropologia Filosófica I. São Paulo: Loyola, 1991.

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Epicuro desenvolveu sua ética com base no atomismo, porque o corpo e a alma humanos são formados por átomos e, portanto, é na sensibilidade que se estrutura o critério último do conhecimento humano. A ética é a doutrina do bem viver. Ela se preocupa, tem como finalidade, a felicidade do indivíduo. Epicuro desenvolve uma ética hedonista, porém não é qualquer prazer que se deve escolher. Quem melhor sabe avaliar quais prazeres escolher é o sábio e, por conseguinte, é o mais feliz de todos os homens porque, não somente escolhe, mas escolhe bem. O sábio é aquele que está submisso ao logos, pois esta é a condição natural que o indivíduo possui para alcançar a eudaimonia.A melhor forma comunitária onde a eudaimonia é preservada e garantida é a amizade. A amizade é o modo de manter relações com outras pessoas sem ferir a liberdade alheia e até mesmo a própria. Porém a amizade, como diz Epicuro, nasce a partir daquilo que é útil, porém uma vez nascida torna-se, fonte de prazer e, portanto, um fim em si mesma. Na vivência da amizade nada é imposto de fora e de maneira que não seja natural. Dessa forma não se viola a intimidade do indivíduo.Epicuro serve de referência teórica para motivar nossos contemporâneos a empreender a busca de ser. Conseguindo atingir o objetivo de ser muitos problemas atuais poderiam se resolver, porque não será mais necessário recorrer à violência para conseguir aquilo que é necessário para uma vida feliz. Afinal, aquilo que é necessário é fácil conseguir. Segundo Epicuro (2002, p. 41) “tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil.