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Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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Anderson Rezende

Epístola aos Romanos Comentário Expositivo

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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Índice

Índice 5

Autoria da Carta: 8

Data de Escrita: 8

Destinatários: 9

Propósito da Carta: 10

Estrutura da Carta: 11

Introdução: 14

I – Prólogo (1:1-15) 15

1.1 Saudação (1:1-7) 15

1.2 – Desejo de Visitar os Cristãos de Roma (1:8-15) 17

II – O Tema do Evangelho 19

2.1 A Justiça de Deus Revelada (1:16-17) 19

III – Pecado e Retribuição 20

3.1 Diagnóstico da Necessidade (1:18 – 3:20) 20

IV – O Meio de Alcançar a Justiça 29

4.1 – Satisfeita a Necessidade (3:21 – 5:21) 29

V – O Meio Para a Santidade (6:1-8:39) 38

5.1 – Livres do Pecado (6:1-23) 38

5.2 – Livres do Lei (7:1-25) 40

5.3 – Livres do Morte (8:1-39) 44

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VI – A Incredulidade Humana e a Graça Divina 50

6.1 – A Incredulidade de Israel (9:1-5) 50

6.2 – A Escolha Soberana de Deus (9:6-29) 51

6.3 – A Responsabilidade do Homem (9:10-10:21) 54

6.4 – O Propósito de Deus Para Israel (11:1-29) 57

6.5 – O Propósito de Deus p/ Humanidade (11:30-36) 61

VII – O Modo Cristão de Viver (12:1-15:13) 62

7.1 – Sacrifício Vivo (12:1-2) 62

7.2 – A Vida Comum dos Cristãos (12:3-8) 63

7.3 – O Cristão e o Estado (13:1-7) 63

7.4 – Amor e Dever (13:8-10) 64

7.5 – A Vida Cristã em Dias de Crise (13:11-14) 65

7.6 – Liberdade Cristã e Amor Cristão (14:1-15:6) 66

7.7 – Cristo e os Gentios (15:7-13) 71

VIII – Epílogo (15:14-16:27) 72

8.1 – Narrativa Pessoal (15:14-33) 72

8.2 – Saudações a Vários Amigos (16:1-16) 74

8.3 – Exortação Final (16:17-27) 74

Conclusão 75

Bibliografia: 77

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Autoria da Carta:

A carta aos Romanos afirma ter sido escrito por Paulo (1.1), e essa

afirmação não tem sido seriamente contestada. Tércio identificado em

16.22, foi provavelmente o amanuense ou escriba de Paulo. Embora às

vezes Paulo talvez tenha dado a seu amanuense certa liberdade na

redação de suas cartas, praticamente inexistem indícios de que isso

tenha acontecido em Romanos. Um pequeno número de pessoas tem-

se perguntado se alguns trechos de Romanos foram escritos por outra

pessoa e incorporados na carta por Paulo.

Data de Escrita:

De acordo com 15.22-29, três localidades estão nos planos de

viagem de Paulo: Jerusalém, Roma e Espanha. O destino imediato de

Paulo é Jerusalém. Como se vê em sua oração em 15.30 - 33, Paulo

aguarda com considerável expectativa essa viagem a Jerusalém. Ele

está levando aos empobrecidos cristãos Judeus de Jerusalém uma

oferta recolhida entre as igreja gentílicas que ele plantou (15.25-27)e

não está seguro de como a oferta será recebida.

A segunda parada que Paulo planeja fazer é em Roma, mas

apenas de passagem a caminho da Espanha(15.24,28). Isso não é

menosprezar a importância estratégica de Roma, mas reflete o senso

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de chamado de Paulo de “pregar o evangelho, não onde Cristo já fora

anunciado” (15.20).

Quando comparamos essas indicações com os detalhes da

carreira missionária de Paulo em Atos, fica claro que ao escrever

Romanos, Paulo deve estar perto do final de sua terceira viagem

missionária. Foi nessa ocasião que Paulo estava se preparando para

voltar para Jerusalém, tendo Roma como seu próximo destino

(At.19.21; 20.16). Corinto é o local mais provável onde a carta foi

escrita. Quando Lucas nos conta que Paulo passou três meses na

Grécia (At 20.3), o mais provável é que o apóstolo tenha ficado em

Corinto (2Co 13.1,10). A confirmação de que Corinto foi o local de

composição da epístola acha-se na vizinhaça de Corinto(16.1-2).

A data em que Paulo escreveu Romanos dependerá, portanto, da

data dos três meses que ele permaneceu na Grécia; determinar essa

data depende, por sua vez, da cronologia da vida e ministério de Paulo

como um todo. Conquanto haja uma margem de erro de um ou dois

anos, 57 d.C é a melhor alternativa.

Destinatários:

Pressupondo que o texto impresso em nossas Bíblias em grego e

português esteja certo a carta é dirigida “a todos os amados de Deus,

que estais em Roma, chamados para serdes santos”(1.7 e 1.15). Não

temos dados claros da origem da igreja em Roma nem de sua

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composição à época em que Paulo lhe escreveu. Por volta de 180 d.C.

Irineu identificou Pedro e Paulo conjuntamente como fundadores da

igreja em Roma, ao passo que a tradição posterior menciona Pedro

como o fundador e primeiro bispo da Igreja. Mas nenhuma das duas

tradições pode ser aceita a própria carta deixa claro que Paulo era

estranho à igreja em Roma. Nem é provável que Pedro tenha ido a

Roma cedo o suficiente para fundar ali uma igreja.

Propósito da Carta:

Podemos estar certos de que os poderosos argumentos de Paulo

sobre a justificação pela fé, nos capítulos primeiro a quinze escrito em

Romanos não eram de natureza meramente informativa e didática.

Também eram de fundo apologético. Em outra palavras ele fazia

oposição aos judaizantes que atuavam na cidade de Roma, os quais

sentiam obrigação ante as leis cerimoniais, bem como o conceito de

salvação através das obras. Na igreja de Roma tinham surgido

dificuldades de natureza doutrinária e prática. A epistola aos Romanos

também é de natureza didática, pois nem tudo que Paulo escreveu

visou a solução de algum problema. Seus estudos completos sobre a

doutrina da graça e da fé, seu estudo sobre á vida piedosa, seu

tratamento sobre o matrimonio, sua seção prática geral, sobre a moral

e a conduta cristã tem por propósito informar, ensinar e iluminar e não

meramente resolver determinados problemas.

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Estrutura da Carta:

Prólogo (1:1-15)

a. Saudação (1:1-7)

b. Introdução (1:8-15)

O EVANGELHO SEGUNDO PAULO (1:16-11:36)

1. O Tema do Evangelho: a Justiça de Deus Revelada (1:16-17)

2. Pecado e Retribuição: Diagnóstico da Necessidade Universal (1:18-3:20)

a. O mundo pagão (1:18-32)

b. O moralista (2:1-16)

c. O judeu (2:17-3:8)

c.1 – Privilégio traz responsabilidade (2:17-29)

c.2 – Objeções respondidas (3:1-8)

d. Toda a humanidade achada culpada (3:9-20)

3. O Meio de Alcançar a Justiça: Satisfeita a Necessidade (3:21-5:21)

a. A provisão de Deus (3:21-31)

b. Um precedente do Antigo Testamento (4:1-25)

c. Bençãos que acompanham a justificação: paz, alegria, esperança

(5:1-11)

d. A velha e a nova solidariedade (5:12-21)

4. O Meio Para a Santidade (6:1-8:39)

a. Livres do Pecado (6:1-23)

a.1 – Objeção por hipótese (6:1-2)

a.2 – O significado do batismo (6:3-14)

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a.3 – Analogia do mercado de escravos (6:15-23)

b. Livres da Lei (7:1-25)

b.1 – Analogia do casamento (7:1-6)

b.2 – O despertar da consciência (7:7-13)

b.3 – O conflito interior (7:14-25)

c. Livres da Morte (8:1-39)

c.1 – Vida no Espirito (8:1-17)

c.2 – A glória por vir (8:18-30)

c.3 – A vitória da fé (8:31-39)

5. A Incredulidade Humana e a Graça Divina (9:1-11:36)

a. O problema da incredulidade de Israel (9:1-5)

b. A escolha soberana de Deus (9:6-29)

c. Responsabilidade do homem (9:30-10:21)

c.1 – A pedra de tropeço (9:30-33)

c.2 – Os dois meios para a justiça (10:1-13)

c.3 – Proclamação universal (10:14-21)

d. O propósito de Deus para Israel (11:1-29)

d.1 – A alienação de Israel não é final (11:1-16)

d.2 – A parábola da oliveira (11:17-24)

d.3 – A restauração de Israel (11:25-29)

e. O propósito de Deus para a humanidade (11:30-36)

MODO CRISTÃO DE VIVER (12:1-15:13)

1. Sacrifício Vivo (12:1-2)

2. A Vida Comum dos Cristãos (12:3-8)

3. A Lei de Cristo (12:9-21)

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4. O Cristão e o Estado (13:1-7)

5. Amor e Dever (13:8-10)

6. A Vida Cristã em Dias de Crise (13:11-14)

7. Liberdade Cristã e Amor Cristão (14:1-15:6)

a. Liberdade Cristã (14:1-12)

b. Amor Cristão (14:13-23)

c. O Exemplo de Cristo (15:1-6)

8. Cristo e os Gentios (15:7-13)

9. Epílogo (15:14-16:27)

a. Narrativa pessoal (15:14-33)

b. Saudações a vários amigos (16:1-16)

c. Exortação Final (16:17-20)

d. Saudações enviadas pelos companheiros de Paulo (16:21-24)

e. Doxologia (16:25-27)

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Introdução:

Seguindo a estrutura literária do texto grego da epístola aos

Romanos, o procedimento a ser adotado na análise exegética do livro

será baseado na subdivisão de parágrafos proposta pela The Greek

New Testament, 4a edição, das Sociedades Bíblicas Unidas. A escolha

de tal procedimento deve-se ao fato de que todo e qualquer trabalho de

cunho exegético, deve partir de uma base segura e confiável para a

sua devida análise. E, nada melhor do que utilizar o resultado das

pesquisas desenvolvidas pela Critica Textual do Novo Testamento,

principalmente neste século, que muito tem contribuído ao labor de

vários estudiosos do grego do NT na procura de um texto que seja

mais confiável e mais próximo aos autógrafos originais (para maiores

detalhes sobre o trabalho da Critica Textual, analisar a obra de Wilson

Paroschi “Critica Textual do Novo Testamento Grego). Assim, pareceu-

me seguro lançar mão do texto grego produzido pela SBU, bem como

de suas divisões em parágrafos, devido à esta confiabilidade exigida

pelo labor exegético.

Desta forma, proponho a fazer a análise exegética do texto de

Paulo aos Romanos (ainda que de forma sucinta e panorâmica),

associando ao mesmo tempo um breve comentário sobre as principais

lições tiradas deste texto que tem sido considerado como um dos

pilares de toda a teologia do NT. Assim, apresentamos o devido

trabalho partindo da perspectiva de que o mesmo possui:

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15

um tema dominante em toda a obra a respeito do evangelho de Cristo. Para E.A. Lipsius, nos escritos de Paulo encontramos o termo “redenção” como o tema unificador desse apóstolo, partindo de dois pontos de vista centrais: o “jurídico” (justificação) e o “ético” (nova criação). Assim, o grande tema do apóstolo Paulo em torno do qual tudo o mais gira, sendo apenas outras tantas subcategorias do seu tema dominante, é a “salvação” ou “redenção”. Esse tema envolve e salvação inteira e completa, do princípio ao fim. Isto é declarado em Rm 8.29-30

1.

Com esta visão apresentada apresentamos o devido trabalho da

forma como segue:

I – Prólogo (1:1-15)

1.1 Saudação (1:1-7)

Paulo, como em todas as suas outras epístolas, saúda os irmãos

da igreja de Roma (os quais não conhecia pessoalmente)

apresentando-se como “servo” e “apóstolo” de Jesus Cristo. Seu

objetivo ao se apresentar dessa forma àqueles irmãos era o de

demonstrar o caráter de seu ministério, ou seja, um ministério marcado

pela humildade e autoridade baseados na vocação e comissionamento

de Deus. Não fora por mera escolha humana que vinha desenvolvendo

um ministério tão profícuo, antes porém, o sucesso do mesmo se

1 CHAMPLIN, Russel Normam. Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia, p. 458

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16

fundamentava nessa escolha de Deus pela sua vida a fim de ser

utilizado como instrumento para a propagação deste evangelho.

E é em Cristo Jesus, que as promessas feitas anteriormente por

Deus ao seu povo, Israel, por meio de seus profetas, se cumpre. “Em

Jesus, Deus faz cumprir o seu desígnio e intento eterno de reconciliar

consigo mesmo todas as coisas”2. E a maneira como isso comprova o

caráter dessa reconciliação, ou seja, por meio da encarnação do Filho

de Deus entre os homens, Deus fez prevalecer o seu amor redentivo, e

por meio de sua ressurreição a justiça de Deus foi cumprida

possibilitando assim a manifestação gloriosa dessa reconciliação.

Fora por meio de Cristo, ou melhor, por meio de sua vitória e

conquista, que Paulo recebera a sua vocação de ministro aos gentios,

ou seja, de mostrar para os povos que outrora estavam distantes da

promessa, que agora em Cristo, Deus reconcilia todos consigo. São a

estes gentios que se destinava todo o esforço de seu ministério e, com

certeza, os cristãos de Roma poderiam ser incluído também nessa

perspectiva ministerial.

Assim, Paulo demonstra o seu amor e apreço por aqueles irmãos

que não conhecia, igreja essa formada em sua maioria por gentios

conversos e também por uma pequena parcela de cristãos judeus, aos

quais desejava as mais ricas bençãos celestias como se pode bem ver

no versículo 7. São a estes queridos irmãos que o apóstolo destina a

2 LEENHARDT, F.J. Epístola aos Romanos – Comentário Exegético, p.15

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17

maior de todas as obras produzidas pela cristandade em toda a sua

história. O que se nos apresentará, portanto, é a suma de toda a

mensagem cristã, oculta desde os séculos mais agora revelada de

maneira poderosa: a redenção e reconciliação do mundo com Deus por

meio de Jesus Cristo.

1.2 – Desejo de Visitar os Cristãos de Roma (1:8-15)

Ainda no prólogo de sua carta, o apóstolo deixa bem claro o

desejo ardente em seu coração de um dia poder estar com os cristãos

de Roma, a fim de estabelecer um vínculo com a igreja da capital do

Império Romano. “Ciente de que o empreendimento missionário em

torno do Mediterrâneo estava como que completo por meio de seu

ministério”3 e, engajado na tarefa de auxiliar os irmãos da igreja mãe

em Jerusalém, Paulo via o seu futuro ministerial com grandes

perspectivas. Mesmo encontrando-se ainda em Corinto, o coração do

apóstolo já projetava a possibilidade estender o raio de ação do

evangelho de Jesus Cristo em terras hispânicas. Logo, era de

fundamental importância estabelecer um vínculo de amor e

fraternidade com aqueles irmãos da capital.

Com esses projetos e sonhos em mente, Paulo não deixou de

manifestar o seu profundo sentimento de louvor e gratidão a Deus pela

3 BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 18

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18

vida dos irmãos romanos que demonstravam, por meio de sua vida, o

poder do evangelho de Jesus Cristo. Isso servia como testemunho para

todo o mundo cristão daquela época que via de maneira espantosa o

avanço do Reino de Deus até mesmo no centro do mundo de então.

Porém, o seu desejo de estar com aqueles irmãos e de visitá-los

não era um sentimento infundado que surgira de uma hora para outra,

antes era um desejo já de longas datas, evidenciado pelas constantes

súplicas a Deus por uma oportunidade de visitar aqueles irmãos.

Entretanto, Paulo pode experimentar naquelas várias tentativas

frustradas de visitar Roma, que nem tudo na vida acontece da maneira

como planejamos e almejamos. É necessário entender que “existe o

tempo de Deus e que portanto, cabe-nos a responsabilidade de nos

submetermos à sua devida direção em nossas vidas”4. E agora que

surgia uma possibilidade de estar com aqueles irmãos, o desejo de seu

coração era o de poder abençoar e ser abençoado por meio das

riquezas procedentes do evangelho de Jesus Cristo.

4 CALVINO, João. Romanos, p. 32

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19

II – O Tema do Evangelho

2.1 A Justiça de Deus Revelada (1:16-17)

A partir deste ponto, o apóstolo Paulo começa a demonstrar o

caráter desse evangelho, bem como o caráter das riquezas

provenientes do mesmo. Não há razão para se envergonhar desse

mesmo evangelho, “mesmo que em plena sociedade imperial romana o

mesmo seja considerado como loucura”5, é nele que se manifesta de

maneira gloriosa o poder de Deus. Tal poder se evidencia na

restauração tanto de judeus como de gentios (demonstrando assim a

natureza universal do mesmo) por meio da justiça de Deus revelada

em Jesus Cristo. É nesse evangelho que o pecador pode ter sua

condenação revogada por intermédio da justiça auto-doadora de Deus,

pois, todas as exigências da justiça divina para com o pecado são

satisfeitas no sacrifício redentivo e substitutivo de Jesus Cristo,

crucificado e ressuscitado, que possibilitou a todos, sem distinção de

raça, o desfrutar dessas benção provindas desse ato de amor divino.

5 BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 23

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III – Pecado e Retribuição

3.1 Diagnóstico da Necessidade (1:18 – 3:20)

Dando continuidade à sua argumentação o apóstolo passa a

demonstrar que a “necessidade de tal mensagem torna-se clara

quando contemplamos o mundo em que vive a humanidade”6. Assim,

ele passa a dar um diagnóstico dessa necessidade universal da

humanidade demonstrando que a mesma encontra-se aprisionada pelo

jugo do pecado e, como tal, a devida retribuição da justiça divina faz-se

necessária.

O Mundo Pagão (1:18-32):

O diagnóstico começa com uma análise do mundo pagão,

“provavelmente o seu interesse em começar pelos gentios seria o de

demonstrar aos irmãos romanos a realidade na qual se encontrava a

sua sociedade”7. O mundo pagão demonstrava em grande medida as

reais dimensões dessa necessidade universal, na qual, Paulo tornava

cada vez mais claro a exigência da justiça divina bem como o meio

provido por Ele mesmo para a satisfação de tal justiça.

6 Ibid., p. 53

7 LEENHARDT, F.J. Epístola aos Romanos – Comentário Exegético, p.34

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21

De modo contundente o apóstolo afirma que a ira de Deus se

revela contra toda a impiedade e injustiça do mundo pagão. “A sua ira

é voltada contra a pecaminosidade humana que deteriorou a beleza da

criação divina desde o Éden”8. Tal pecaminosidade não é resultado de

um descaso de Deus para com os homens, antes porém, trata-se de

uma verdadeira rebelião para com aquilo que o próprio Deus

manifestou à humanidade. Ele não se fez escondido para com a sua

criação, e muito menos para com a coroa de sua criação (o homem). O

Ser divino se manifestou e se manifesta também por meio da ordem

perceptível da criação. Ou seja, mesmo que faltasse uma revelação

mais especial de Deus para com o mundo gentio, Ele mesmo proveu

os meios necessários para que toda a humanidade, e principalmente

os gentios, pudessem reconhecer a existência de um Ser divino e

eterno que sustenta todas as coisas. Por isso, tornam-se

indesculpáveis de alegarem ignorância, pois demonstram por meio de

seus próprios atos a rejeição para com Deus.

O mundo pagão, mesmo dotado dessa capacidade de conhecer

Deus por meio da revelação geral, rejeitou tal revelação deturpando e

corrompendo-a em sua essência. Assim, compreende-se a afirmação

do apóstolo quando diz que “mudaram a glória do Deus incorruptível”,

pois os homens passaram a adorar as coisas criadas ao invés de

adorarem aquele que é bendito eternamente. A consequência disso, ou

melhor, a consequência dessa rejeição de Deus por parte dos homens,

8 CALVINO, João. Romanos, p. 42

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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22

foi a entrega dos mesmos aos desejos mais vis e pecaminosos dos

seus próprios corações. Em outras palavras, pelo fato de os homens

criados terem rejeitado o Ser divino, Deus mesmo os entregou às

consequências de seu pecado. Logo, o resultado premente a aparecer

no cenário do mundo criado foi a depravação total da raça humana. O

mundo pagão, portanto, é o resultado dessa rebelião, que depravou e

distorceu a ordem criada, e no que diz respeito à própria humanidade,

toda a sorte de pecados, impiedades, injustiças, etc., se manifestaram

em todas as relações sociais trazendo assim uma verdadeira

desestabilização da Imago Dei no homem.

O Moralista (2:1-16):

A tônica de sua argumentação passa agora do gentio pagão para

o judeu moralista. E nesta unidade, Paulo introduz a questão da falsa

moralidade, como que preparando terreno a fim de discursar a respeito

da realidade do judeu diante da justiça divina. O que se percebe é que

a dimensão desse diagnóstico extrapola os limites do paganismo

gentílico estendendo-se até a falsa moralidade expressa pelos

religiosos judeus.

Assim, Paulo começa a destruir todo o alicerce de segurança do

moralista, demonstrando ao mesmo o caráter infundado de sua auto-

confiança. Em outras palavras, não basta apenas possuir um caráter

externo de religiosidade falsa e sem sentido, sendo que no interior a

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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23

truculência do pecado domina de maneira absoluta. Mesmo tomando-

se um comportamento hipócrita, nada justifica o moralista diante de

Deus que, em sua autoridade e poder, repudia toda e qualquer

manifestação de hipocrisia que objetiva a própria auto-justificação.

Todos, tanto judeus como gentios, tanto religiosos como não religiosos,

estão na mesma realidade de pecado. E é por isso que Deus há de

retribuir a cada um de acordo com as suas obra. Ao pagão que deturpa

a revelação de Deus, e ao falso moralista que exterioriza um

comportamento falso e hipócrita, mas que por dentro de si mesmos

demonstram a malignidade do pecado reinando absolutamente.

O juízo divino se estende sobre todos os homens, judeus e

gentios, e a devida retribuição será a consequência daquilo que cada

um plantar. Ou o mal para a sua devida condenação, ou o bem para as

suas devidas bençãos. E assim, portanto, Paulo deixa bem claro o

caráter imparcial do julgamento de Deus que, não fazendo distinção

entre pessoas e raças, faz prevalecer a sua correta e santa justiça.

Mesmo aqueles que pecaram não possuindo o caráter revelatório da

Lei divina, serão julgados por aquilo que tem de si mesmos, ou seja,

por sua consciência moral (Lei moral) que testifica contra o homem

mesmo apontando-lhe o caminho do bem. “E muito mais para aqueles

que, além de possuir a Lei moral em seus próprios corações possuem

também a revelação da Lei divina em si mesmos”9. Tudo isso nos

demonstra, em especial aqui nessa unidade, que nem mesmo o caráter

9 LEENHARDT, F.J. Epístola aos Romanos – Comentário Exegético, p.39

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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24

religioso de muitos, marcado por um falso moralismo e por uma

hipocrisia repugnante e nojenta que exterioriza um comportamento

falso, podem justificar o homem diante de Deus. A justiça divina exige

muito mais do que isso.

O Judeu (2:17-3:8):

Privilégio Traz Responsabilidade (2:17-29):

Nesta parte o apóstolo Paulo afunila ainda mais a

responsabilidade do judeu moralista, demonstrando de modo incisivo o

caráter infundado do orgulho judaico. Paulo continua em sua

argumentação utilizando de um recurso retórico a fim de derrubar

definitivamente o orgulho exclusivista dos judeus. Com uma série de

questionamentos, o apóstolo procura deixar em clara evidência que

mesmo no afã de se considerarem superiores aos outros povos, como

nação escolhida de Deus, os judeus caíam no erro crasso da auto-

justiça. Esse erro era reconhecido por sua desobediência em cumprir

todos os quesitos da Lei. Ou seja, os judeus consideravam-se

privilegiados pelo fato de terem sido o povo da aliança e, como tais,

achavam-se no direito de privilegiar apenas alguns aspectos da lei tais

como a circuncisão.

Tudo isso só pode gerar hipocrisia e mentira, produtos de

corações obstinados e manchados pelo pecado. Logo, para que

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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25

pudessem ser considerados justos diante de Deus, os judeus deveriam

cumprir a Lei em toda a sua integridade. E esse é o caráter e o papel

da Lei – nos apontar o padrão de vida necessário que Deus exige que

vivamos a fim de sermos considerados justos diante Dele. Porém, os

próprios judeus podiam olhar para dentro de si mesmos e perceber que

isso não era possível.

Assim, em comparação com os gentios, os judeus eram também

considerados indesculpáveis pelo fato de que possuíam a Lei e os

privilégios de serem o povo da aliança mas, ao mesmo tempo,

deixavam de honrar esse privilégio particular, não cumprindo os

quesitos da Lei, e ainda possuindo um caráter prepotente pelos

privilégios alcançados. Portanto, a lição que estava sendo dada aos

judeus era demonstrar que “a justiça de Deus não é satisfeita por meio

de atos externos de uma religiosidade hipócrita, corrupta e mentirosa,

mas sim mediante uma disposição sincera e reta de um coração

verdadeiro”10.

Objeções Respondidas (3:1-8):

Diante desse quadro, surge algumas questões que precisam ser

respondidas, questões essas que são levantadas pelo próprio apóstolo,

a saber: qual a vantagem de ser judeu então? Para que serve os sinais

do pacto? Quais são os reais privilégios?

10

CALVINO, João. Romanos, p. 54

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26

Paulo responde à essas indagações dizendo que a “vantagem de

ser judeu é muita sob todos os aspectos. Decerto é vantagem

pertencer à nação judaica. Pensemos em todos os privilégios

assegurados por Deus àquela nação – privilégios de que outras nações

não participavam”.

Entre os privilégios hereditários de Israel, “Paulo reconhece como

da maior importância o fato de que os israelitas eram os guardiães dos

oráculos de Deus”11. Ou seja, possuíam o encargo da revelação da

vontade e do propósito de Deus o que constituía para eles um fato de

alta honra. Mas, se era alta honra, levava consigo uma grande

responsabilidade. Se se mostrassem infiéis à confiança depositada

neles, seu caso seria pior do que o das nações às quais Deus não se

tinha revelado. E foi isso que de fato aconteceu; Israel fracassou na

sua missão de manifestar essa vontade divina, tanto em si mesmo

como para com as outras nações. Em outras palavras, Israel

manifestou-se infiel para com Deus.

Mesmo com esse ato de infidelidade do povo da aliança o

propósito eterno de Deus não fora frustrado, isto porque Deus sempre

mantém a sua fidelidade. “A infidelidade dos homens simplesmente

põe em relevo a verdade de Deus: Sua justiça é sempre vindicada em

contraposição à injustiça deles”12.

11

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 78 12

Ibid., p.78

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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27

O que marca esta unidade são estes questionamentos

audaciosos sobre a relação de Israel para com Deus e até mesmo a

questão da justiça divina. Assim, uma outra objeção é levantada: se a

infidelidade de alguns põe a fidelidade de Deus em mais alto destaque,

ou seja, se a infidelidade de alguns estabelece a justiça divina, porque

Deus deveria ser “injusto” ao levar vantagem sobre o pecado

manifestando-se assim como grande juiz? E aqui o apóstolo apresenta

uma resposta contundente à esse astuto questionamento: “Deus é o

Regente moral do universo, o Juiz de toda a terra. Como é que Ele

poderia exercer essa função, que é inseparável de Sua divindade, se

não exigisse retribuição pelo pecado”13.

Toda a Humanidade Achada Culpada (3:9-20):

Continuando no ritmo de suas argumentações o apóstolo afirma

categoricamente que os judeus em nada são melhores que os gentios.

Que mesmo possuindo todos os privilégios de povo da aliança, isso em

nada assegurava a sua aceitação diante de Deus, pelo simples fato de

que todos os homens, sem distinção de raça, estão debaixo do pecado

como afirma as Escrituras Sagradas (Sl 14:1-3; 36:1; 53:1; Pv 1:16; Is

59:7-8; Jr 5:16). Portanto, Paulo chega ao clímax de sua exposição

diagnóstica sobre a necessidade universal da humanidade. Ele expõe

de modo certeiro a realidade de ambas as raças, judeus e gentios,

13

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 79

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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28

demonstrando que ambos estão na mesma condição de pecado e por

isso não podem ser aceitos por Deus por meio de seus próprios

méritos pessoais. Não existe, portanto, vantagem alguma em declarar

completa ignorância de Deus como o faziam os gentios, visto que Deus

deu condições necessárias por meio da revelação geral em os homens

honrá-lo como Senhor. E também não existe nada que possa

assegurar a aceitação de Deus para com aqueles que se dizem judeus,

pois mesmo possuindo os oráculos de Deus não se submetiam a ele

devido a monstruosidade de seu pecado. Portanto, com esses

argumento Paulo demonstra a dimensão geral do pecado na

humanidade.

Ainda há que se observar aqui nesta unidade que o apóstolo faz

mais uma vez menção à Lei (o AT), afirmando que todos devem se

sujeitar ao juízo da Lei de Deus. Ou seja, pelo fato de Deus ter

manifestado seu propósito mediante a revelação de sua lei, todas as

pessoas, sem distinção de raça, devem se sujeitar à ela. O papel da lei

era o de revelar o estado de pecado das pessoas, e de demonstrar, ao

mesmo tempo, que pelas obras da Lei ninguém seria justificado, pelo

fato de não haver homem sequer no mundo que cumprisse todos os

quesitos da Lei. Logo, as obras de justiça promovidas pelo próprio

homem a fim de alcançar aceitação diante de Deus são repudiadas

pois todos estão em estado de pecado. Assim:

se existe alguma esperança para qualquer dos dois grupos, terá de ser achada na misericórdia

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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29

de Deus, e não em alguma reivindicação que os homens ou as nações possam fazer-lhe

14.

Portanto, a humanidade inteira, judeus e gentios igualmente, está

moralmente falida perante Deus. Ninguém pode esperar ser declarado

justo por Deus, com base em qualquer obra ou mérito seu.

IV – O Meio de Alcançar a Justiça

4.1 – Satisfeita a Necessidade (3:21 – 5:21)

A Provisão de Deus (3:21-31):

Após discorrer sobre o problema da necessidade universal da

humanidade, demonstrando a falibilidade da raça humana e a maneira

como a mesma se acha perdida diante de Deus, o apóstolo Paulo

passa a apresentar um novo caminho para a aceitação da parte de

Deus que é mediante o meio correto de se alcançar a justiça de Deus,

ou melhor, de alcançar a justificação da parte de Deus. A tônica dessa

unidade é a manifestação da justiça divina que se consumou em Cristo

Jesus e que satisfaz a necessidade universal da humanidade. Por meio

de sua graça e misericórdia, Deus mesmo proveu o meio necessário

para a satisfação de Sua justiça. Ou seja, por meio do sacrifício de

14

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 80

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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30

Cristo na cruz do Calvário e de sua ressurreição dentre os mortos, a

reconciliação dos homens com Deus tornou-se possível.

Pelo fato de todos, judeus e gentios, se encontrarem perdidos em

seus pecados, e também pelo fato de a auto-justiça do homem não

livrá-lo de seu estado de pecado, todos carecem da glória de Deus.

Todos necessitam ser aceitos por Deus mediante a justificação de seus

pecados. Tal justiça não pode ser obtida por meio de méritos humanos

mas sim por meio da fé, ou seja, por meio de um assentimento real e

verdadeiro na obra graciosa de Deus em Cristo Jesus, entregando-o

por nossos pecados. E é por isso que se vê em Jesus o cumprimento

da promessa de Deus outrora anunciada aos profetas do Antigo

Testamento; é a consolidação do propósito eterno de Deus formulado

desde antes da fundação – a reconciliação de todas as coisas com

Deus por meio de Cristo Jesus.

Logo, toda a glória e honra devem ser dados a Deus que proveu,

por meio de sua infinita graça e misericórdia, o meio de justificar os

homens diante de si. Por isso toda jactância e orgulho pessoal devem

cair por terra, pois não há nada que os homens possam fazer para

serem aceitos por Deus. Ele é justificado pela fé nesta graça e não

pelas obras da Lei, seja ele judeu ou seja ele gentio, é para todos que

se destina essa graça salvadora e justificadora.

Mas, uma questão é levantada: já que Deus nos justifica por meio

de sua graça e misericórdia e não por meio das obras da Lei, vamos

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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31

então anular os preceitos da Lei? A resposta levantada pelo próprio

apóstolo é um categórico não, visto que o problema não reside na Lei,

mas sim nas obras da Lei produzidas pelos homens, que não

conseguem satisfazer toda a exigência da mesma, pois “se alguém

vacilar em qualquer um destes princípios é julgado como réu”. A Lei,

para ser utilizada como meio de justificação, deve ser cumprida em

toda a sua íntegra, mas, visto que ninguém pode fazer isso, tendo em

vista o estado pecaminoso de todos nós, somente por algo que

sobrepuje a lei é que poderemos ser justificados. E esse algo é a graça

de Deus alcançada por meio da fé. Assim, “por este princípio da fé a

Lei é mantida de fé, o pecado é condenado, a justiça é vindicada, e se

cumprem as Escrituras do Antigo Testamento”15.

Um Precedente do Antigo Testamento (4:1-25)

Após demonstrar qual o meio provido por Deus para satisfazer

definitivamente a necessidade universal da humanidade, por meio de

Sua graça e favor divinos que acabam por alcançar a justiça divina,

Paulo passa a demonstrar um precedente do Antigo Testamento a fim

de consolidar a sua argumentação. O seu propósito é demonstrar que

esse meio da justiça divina, que é fundamentado na graça e no amor

de Deus, é atestado pela Lei e pelos Profetas. E nisso, a história de

Abraão é um exemplo claro.

15

LEENHARDT, F.J. Epístola aos Romanos – Comentário Exegético, p.98

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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32

A justiça de Deus jamais se baseou nas obras da Lei, mas sim na

fé em sua graça. E, pelo fato de Abraão ter alcançado o favor divino

mesmo antes de a Lei ter sido estabelecida, podemos dessa forma ver

o precendente lançado por Deus a fim de compreendermos a sua

maneira de justificar o pecador. “A fé de Abraão na providência divina

foi o meio adotado por Deus para aceitar o ser humano”16. Assim,

percebe-se que a fé e não as obras é que é contada como justiça,

segundo nos testificam as Sagradas Escrituras.

Mesmo Abraão vivendo em integridade para com Deus no

cumprimento da vontade divina, não foram os seus atos de bondade

que o justificaram diante de Deus, mas sim a sua fé. Desta forma, as

obras produzidas por Abraão eram o resultado de sua fé viva em Deus.

Por isso, podemos entender que essa justiça é para todos, tanto para

circuncisos como para incircuncisos. Pois, mesmo antes de receber o

selo da aliança por meio do ritual da circuncisão, Abraão já havia sido

justificado por Deus e declarado pai de uma grande multidão. Tal

promessa se estendia a todos aqueles que como ele depositam a sua

fé na graça divina. Logo, não é apenas pai de uma nação, mas sim de

muitas nações, ou seja, pai daqueles que crêem. E tal promessa só

pode ser cumprida mediante a fé, e é por fé que o homem pode se

tornar herdeiro das promessas outrora feitas a Abraão.

16

CALVINO, João. Romanos, p. 156

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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33

Entretanto, não foi somente Abraão quem experimentou a justiça

divina mediante a fé. O próprio rei Davi também foi declarado justo

diante de Deus mediante a sua fé depositada na misericórdia divina.

Ele também é um exemplo de justificação. Assim, essa justiça que é

recebida tanto por Abraão como por Davi, também o é estendida à

todos nós. E isso contraria o argumento daqueles judeus que achavam

que somente os que possuíam o selo da circuncisão em sua carne era

os que poderiam ser favorecidos. Paulo demonstra de maneira

brilhante que a justiça divina se estende a Abraão mesmo ele ainda

sendo um incirunciso e mesmo ainda não possuindo a Lei. Porém,

quando afinal Abraão foi circuncidado, sua circuncisào foi apenas o selo externo daquele estado de justo que Deus lhe tinha conferido muito tempo antes, em virtude de sua fé. Fica mais evidente que foi a fé, não a circunisão, que Deus exigiu dele. Eis ai, pois, a esperança dos gentios: o caso de Abraão mostra que a questão de incircuncisão ou circuncisão é irrelevante para o estado do homem perante Deus”

17.

Assim, a lição que Paulo procura, a partir desse precedente, é

que para o homem ser justificado diante de Deus ele precisa depositar

a sua fé na graça e na misericórdia divina que, mediante o sacrifício de

Cristo na cruz do Calvário e depois a sua devida ressureição proveram

definitivamente à humanidade o meio correto para sua aceitação diante

de Deus. Logo, é pela fé e não pelas obras que somos justificados. Por

17

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 82

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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34

isso Abraão é o Pai tanto de circuncisos como de incircuncisos, ou

seja, pai de todo aquele que crê sem distinção de raça. Pelo seu

testemunho de fé, mesmo contra tudo aquilo que parecia obscuro,

Abraão tornou-se o pai de uma verdadeira multidão.

Bençãos da Justificação - Paz, Alegria, Esperança (5:1-11):

Após expor o meio usado por Deus para justificar os pecadores, e

após estabelecer isto com base no precedente veterotestamentário,

Paulo passa a enumerar as bençãos que se acumulam para aqueles

cuja fé lhes foi imputada para justiça. Ou seja, a consequência em ter

sido justificado por Deus mediante a fé na sua graça produz bençãos

jamais desfrutadas por aqueles que outrora estavam separados de

Deus por causa de seus pecados.

Assim, a primeira benção a ser desfrutada por aquele que foi

justificado pela fé é a paz com Deus. Afastados da graça divina que é

alcançada somente por meio da fé os homens encontram-se num

estado de rebeldia para com Deus, num estado de inimizade tal que ao

invés de possuírem tranquilidade, encontram-se num estado de

angústia, dor, tristeza e infelicidade. Entretanto, por meio do sacrifício

de Cristo na cruz do Calvário somos reconciliados por Deus tendo

assim a nossa dívida quitada e podemos consequentemente a isso

experimentar da paz tão almejada. A paz com Deus é o sinônimo

dessa aceitação da justiça divina.

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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35

Uma vez reconciliados e declarados filhos de Deus que desfrutam

de paz num relacionamento com a Divindade, os homens encontram a

verdadeira alegria, ou seja, o livre acesso a Deus e às suas bençãos

espirituais. “O cristão pode agora, por meio da justificação pela fé,

desfrutar da alegria de estar na presença de Deus”18. Tal alegria

evidencia-se pela esperança na glória de Deus; pela esperança de

nossa redenção final quando Deus haverá de restaurar todas as coisas

novamente consigo. E é essa esperança que nos faz gloriar nas

tribulações vividas aqui neste mundo. Isto porque a tribulação produz a

perseverança que redundará na experiência e que culminará nessa

esperança da glória de Deus.

Em todas essas sortes de bençãos, pode-se compreender a

dimensão real do amor de Deus que, não poupando a sue próprio filho

mesmo nós sendo ainda considerados pecadores e inimigos de Deus,

o entregou por nós a fim de promover a reconciliação por meio de sua

graça.

Então, alegria, paz e esperança – fruto do Espírito – marcam a vida daqueles que foram justificados pela fé em Deus. Cancelou-se o réu culposo do passado, assegura-se a glória do futuro, e aqui e agora a presença e o poder do Espirito de Deus asseguram ao cristão toda a graça de que necessita para suportar a provação, resistir ao mal, e a viver como convém a alguém que Deus declarou justo”

19.

18

LEENHARDT, F.J. Epístola aos Romanos – Comentário Exegético, p.137 19

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 99

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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36

A Velha e a Nova Solidariedade (5:12-21):

Paulo passa agora a apresentar a realidade da velha e da nova

solidariedade humana que clareiam ainda mais a compreensão da

justificação pela fé, que satisfaz a necessidade universal da

humanidade. Os efeitos da reconciliação do homem com Deus,

mediante o sacrifício e a ressurreição de Jesus Cristo, estende-se a

todos. Ou seja, se em Adão temos o retrato da velha solidariedade

humana que se baseava no estado de pecado de todos e que

consequemente gerava a morte, e a separação de Deus passando

assim a todas as pessoas, agora em Jesus Cristo temos a

representação da nova solidariedade humana, que se baseia na oferta

da graça estendida por Deus a todos mediante a fé. “Em Jesus a graça

divina produz uma nova vida à raça caída e dilacerada pelo pecado”20.

Essa antítese entre velha e nova solidariedade apresenta-nos

duas características. A primeira é o juízo divino que se estende a todos

por meio de uma só ofensa para a condenação (o caso de Adão). A

Segunda é a graça divina estendida a todos por meio da justificação de

muitas ofensas. Com isso Deus demonstra que somente por um único

ato de pecado todos morreram, mas também por um só ato de justiça

todos viveram. Assim, Paulo procura deixar de modo claro e

compreensível que por causa da desobediência de Adão todos se

tornaram pecadores e estão afastados de Deus. Entretanto, por causa

20

CALVINO, João. Romanos, p. 181

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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37

da obediência de Jesus Cristo, o novo Adão, todos se tornaram justos

mediante a fé nessa graça divina.

Isso tudo demonstra que o estado de pecado da raça humana

remonta-se aos tempos da queda. Mesmo antes de existir a Lei o

pecado já reinava soberanamente na vida dos homens distanciando-os

de Deus. A sua função não foi o de mostrar um caminho alternativo

para que o homem pudesse ser reconciliado com Deus visto que o

mesmo já estava dilacerado pelo pecado, porém a sua função foi a de

manifestar a dimensão do pecado e mostrar aos homens que somente

por meio de um ato divino é que poderiam ser reconciliados com Deus

novamente. Por isso, o apóstolo pode afirmar categoricamente que

onde abundou o pecado superabundou a graça. “Assim, se a queda de

Adão colocou toda a sua posteridade sob o domínio da morte, a

obediência de Cristo, introduziu triunfalmente uma nova raça nos

domínios da graça e da vida”21.

21

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 104

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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38

V – O Meio Para a Santidade (6:1-8:39)

5.1 – Livres do Pecado (6:1-23)

Após ter delineado as dimensões da obra redentora de Deus em

Cristo Jesus, que restaurou e reconciliou o homem com Deus

novamente, a despeito de o mesmo estar distanciado por causa de

seus pecados, Paulo passa a expor a questão da aplicabilidade da

graça na vida diária. Assim, ele apela para uma compreensão correta

do evangelho que nos assegura que por meio da graça de Deus não

permanecemos mais no pecado, antes, porém, a graça nos livra do

poder do pecado.

Alguns podem objetar a questão dessa aplicabilidade da graça

na vida prática, talvez possam afirmar: “Bem, se a graça foi mais

abundante que o pecado, por que não continuarmos pecando para dar

à graça divina a oportunidade de se tornar abundante ao máximo?

Porém, Paulo responde de modo categórico e incisivo com um

contudente não. Ou seja, não podemos baratear a graça divina

achando que abusar d paciência divina estaremos fazendo a graça

crescer de modo mais “glorioso”. A tônica de sua resposta é que os

que são de Cristo Jesus já morreram para o pecado, pelo fato de terem

sido identificados com Cristo em sua morte. Na cruz do Calvário, Cristo

pagou a nossa condenação e ao mesmo tempo levou-nos a morrer

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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39

para o próprio pecado. Assim, já não há mais razão para estarmos

pecando pois estamos mortos para o mesmo.

A morte de Jesus selou definitivamente o preço da liberdade do

pecado. Mas, como ele morreu para o pecado e ressuscitou dentre os

mortos, nós também morremos para o pecado e ressuscitamos para

uma nova vida com Cristo. Somos, portanto, unidos a Cristo na sua

morte e na sua ressurreição, onde analogamente representa o nosso

novo estado diante de Deus de mortos para o pecado e vivos para uma

nova vida. E somente quem está morto se encontra justificado do

pecado. Disso tudo resulta a liberdade do jugo e da escravidão do

pecado e é exatamente por isso que não podemos mais viver pecando.

Quem assim vive demonstra não Ter compreendido corretamente o

evangelho, pois a vida no pecado não pode coexistir com a morte para

o pecado, como nos exemplifica o batismo que é o símbolo dessa

nossa união com Cristo por meio da morte e da ressurreição. O pecado

portanto, não pode mais reinar em nossas vidas.

Assim, Paulo nos ensina nesse trecho que a superabundante

graça de Deus que redime, restaura e reconcilia novamente o homem

com Deus não pode e não deve ser barateada por aqueles que

professam ter experimentado em Cristo as bençãos da nova vida.

“Compete ao cristão andar em novidade de vida e não submeter mais

os membros de seu corpo ao pecado”22. Isto porque a quem nos

22

LEENHARDT, F.J. Epístola aos Romanos – Comentário Exegético, p.168

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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40

apresentamos como servos, seja o pecado para o morte, seja a graça

para a vida, a estes é que serviremos. Ao cristão não cabe outra

alternativa a não ser a de se submeter à graça redentora e

regeneradora de Deus e assim apresentar o seu corpo como servo da

justiça para a santidade. Nesse trecho em que Paulo enfatiza a

liberdade do jugo do pecado podemos vê-lo falar aos cristãos de Roma

da seguinte maneira:

Vocês vivem agora sob o regime da graça, e a graça não estimula o pecado, como o faz a lei. A graça os liberta do pecado e os capacita a triunfar sobre ele. Como, então, podem pensar em continuar pecando, justamente porque vivem sob o regime da graça e não da lei? Quem quer que fale desse modo não tem nem a mais remota suspeita de qual é o significado da graça divina.”

23

5.2 – Livres do Lei (7:1-25)

Neste ponto, Paulo passa a tratar da questão da Lei e da graça.

Após ter retratado a dinâmica da liberdade do pecado por meio da

graça de Deus. Paulo introduz este tema de modo a parecer um pouco

incoerente. Entretanto, ao observar o todo de sua argumentação

percebemos claramente o que ele queria dizer aqui neste trecho que

trata a respeito da questão da Lei.

23

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 111

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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41

Dentre aqueles que conheciam a lei (v.1), ou sejam, os israelitas

e prosélitos que adotavam a Lei Veterotestamentária como padrão

religioso, havia um falso entendimento a respeito do papel da Lei na

vida do indivíduo. Tais pessoas consideravam a salvaguarda da Lei

suficiente na luta contra o pecado. Achavam que podiam alcançar

mérito diante de Deus por meio da observância irrestrita da Lei

Veterotestamentária. Porém, Paulo passa a demonstrar o quanto

estavam redondamente enganados pelo fato de agora haver um novo

elemento introduzido por Deus na questão da justificação, ou seja, a

graça divina.

Assim, a discussão toda girará em torno da relação entre a

graça e a Lei e, com isso o apóstolo Paulo lança mão de uma analogia

a fim de demonstrar a ineficácia da Lei em justificar a pessoa diante de

Deus, a analogia que Paulo usa é a analogia do casamento. Ou seja,

no casamento vê-se um pacto de fidelidade e compromisso entre

homem e mulher que só pode ser dissolvido com a morte de um dos

cônjuges. Enquanto a mulher ou o homem (Paulo usa o exemplo do

homem) estão vivos na como se lançar em um outro relacionamento de

adultério. Se tal coisa é feita é vista como uma relação imprópria e

negativa. Com isso, só poderão ficar livres um do outro caso um deles

venha a morrer. Assim, Paulo lança mão dessa analogia a fim de

exemplificar que como a morte se desfaz o laço que une marido e

mulher, assim a morte – a morte do crente com Cristo – desfaz o laço

que o prendia ao jugo da lei, e agora está livre para entrar em união

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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42

com Cristo. Sua anterior associação com a Lei não o ajudava a

produzir os frutos da justiça, mas esses frutos são produzidos com

abundância, agora que ele está unido a Cristo. O pecado e a morte

foram o resultado de sua associação com a Lei; a justiça e a vida são o

produto de sua nova associação.

Logo, tendo como exemplo essa analogia do casamento, Paulo

procura demonstrar para aqueles que descansavam na segurança da

Lei que a mesma é insuficiente para restaurar e justificar o homem

diante de Deus. Isso porque enquanto na estávamos na morte e papel

da Lei era o demonstrar a realidade do nosso pecado. A função da Lei,

portanto, foi o de trazer à tona o nosso estado de pecado, foi o de

demonstrar as dimensões da depravação humana e assim apontar um

caminho que pudesse resolver definitivamente esse problema da

natureza humana. Em outras palavras, o papel da Lei era o demonstrar

o padrão de vida que Deus deseja que nós vivamos para alcançarmos

dele justiça. Mas visto que ninguém consegue viver nesse padrão

devido ao estado de pecado de cada um de nós, Deus mesmo proveu

um meio, mediante a sua graça, pelo qual podemos obter a justiça –

Jesus Cristo.

Assim, conseguimos compreender a visão de Paulo em relação

da Lei e assim entender o porque do pecado ter tomado ocasião do

mandamento. Ou seja, “o mandamento revelou o mal que havia dentro

de nossos corações e despertou a nossa consciência mostrando assim

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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43

a nossa fraqueza”24. A Lei portanto é boa, santa e justa, porém o nosso

estado de pecado se aproveita dela para relevar na verdade quem

somos – miseráveis pecadores.

Porém, Paulo também passa a expor a questão da luta entre a

velha e a nova natureza vivida pelo cristão enquanto neste mundo.

Paulo se utiliza de sua própria experiência a fim de representar toda a

humanidade e demonstra essa terrível luta no interior de todas as

pessoas. Essa descrição pessoal que ele faz mostra a luta de alguém

que ama a lei de Deus e deseja cumpri-la, mas é forçado por um poder

mais forte do que ele a fazer coisas que detesta, não é um argumento

abstrato, mas o eco da experiência pessoal de uma alma angustiada.

Paulo mesmo sabia o que significa ser arrastado por um caminho pela

lei de sua mente que o apartava da vontade de Deus, mas que, por

outro lado, era submetido pela lei do pecado e da morte. Essa terrível

tendência para o mal, para o pecado é intrínseca ao ser humano,

mesmo ele já tendo experimentado a regeneração por meio do Espirito

Santo. Essa constante luta entre o mal e o bem, entre a velha e nova

natureza revela o nosso estado de fragilidade por consequência do

pecado. E somente por meio da glorificação a se dar no futuro é que

nos veremos livres desse conflito. Diante desse quadro de luta e

reconhecimento de fragilidade Paulo exclama de maneira profunda;

Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo dessa morte? É

24

CALVINO, João. Romanos, p. 235

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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44

o clamor de alguém que anseia profundamente a redenção final do

corpo.

Mas, mesmo nesse clamor de angústia e reconhecimento de

fragilidade e insuficiência, Paulo glorifica Deus por Jesus Cristo, que

nos livrou do jugo da Lei e da servidão do pecado para nos fazer

servos seus a fim de caminharmos em novidade de vida, mesmo ainda

vivendo em constante luta contra o pecado. O sacrifício de Cristo nos é

suficiente.

5.3 – Livres do Morte (8:1-39)

Paulo introduz agora um novo elemento que destaca a nova vida

debaixo da graça redentora e reconciliadora de Deus, segundo o

Espirito de santidade e adoção. Esse elemento é descrito como a vida

vitoriosa nos Espirito pois, ao tratar da questão dessa luta interior

enfrentada pelo ser humano regenerado e demonstrar assim o meio de

escape providenciado por Deus em Jesus Cristo, Paulo passa a expor

quais são os resultados dessa vida experimentada sob a graça de

Deus e a sua relação com esse conflito entre carne e Espirito.

A tônica dessa unidade é que “não há mais motivo para aqueles

que estão em Cristo Jesus de continuarem levando uma vida de

servidão sob o jugo do pecado, obrigados a por em execução os

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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45

ditames da tirania da lei do pecado e da morte”25. Cristo habita neles

por Se Espirito, e Seu Espirito infunde neles um novo princípio – a lei

da vida – que é mais forte do que a força do pecado neles, e os liberta

da tirania deste.

Esta nova vida, portanto, infunde neles a vitoriosa vida do

Espirito Santo que, habitando em seus corações lhes dá a segurança

de que não mais condenação para eles. Ou seja, mesmo vivendo ainda

sob o jugo deste conflito interior, por meio da graça de Deus de em

Cristo Jesus, o que era necessário para justificar os homens diante de

Deus foi providenciado. Em Cristo a liberdade da lei do pecado e da

morte nos é assegurada por meio da doação de seu Espirito Santo.

Tudo isso demonstra que a insuficiência da lei se devia não algum

ponto negativo encontrado nela, visto que a lei é boa, mas tal

insuficiência era o resultado da enfermidade da carne pelo pecado. “O

pecado depravou a natureza humana de tal forma que impossibilitou

até mesmo a Lei desempenhar o seu papel”26. Assim, somente por

meio da iniciativa divina é que o problema do pecado, enraizado na

natureza humana, foi resolvido de uma vez por todas na cruz do

Calvário. Deus, portanto, supriu essa deficiência em Jesus Cristo o

qual destruiu o poder do pecado a fim de cumprir a justa exigência da

Lei que é a aceitação dos homens diante de Deus. Sob a velha ordem

era impossível fazer a vontade de Deus, e se a velha ordem ainda

domina a vida dos homens, fazer a vontade continua sendo uma

25

LEENHARDT, F.J. Epístola aos Romanos – Comentário Exegético, p.228 26

CALVINO, João. Romanos, p. 263

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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46

impossibilidade. Mas aqueles cuja vida é dominada e dirigida pelo

Espirito, que seguem os seu impulsos, fazem de coração a vontade de

Deus. O espirito deles, anteriormente morto e insensível, está agora

imbuído da vida comunicada pelo Espirito de Deus. Seu corpo pode por

algum tempo ainda estar sujeito à lei da morte que resulta da entrada

do pecado no mundo. Mas a palavra final permanece com o Espirito da

vida.

Paulo continua expondo as maravilhas dessa nova vida

desfrutada em Cristo afirmando a questão da adoção de filhos. Por

meio da graça de Deus foi aberto o caminho para a adoção na pessoa

de Jesus. E um dos privilégios desse novo estado de filiação é a

presença do Espirito Santo que atesta e sela essa adoção. A presença

do Espirito Santo garante vida, paz, alegria e vitória sobre o pecado. E

é a presença dele que garante também a herança das promessas de

Deus que há de ser revelada em Cristo Jesus na glória futura.

A magnitude dessa glória que há de ser revelada foge aos

limites de toda e qualquer comparação. Sem dúvida nenhuma há de

ser algo tremendo e glorioso onde nem mesmo as coisas deste mundo

podem refletir a beleza do que aquilo será. Diante disso cria-se uma

esperança viva e verdadeira que sobrepuja toda e qualquer aflição

sofrida neste tempo presente E a idéia que o apóstolo traz aqui é que a

glória vindoura vem do sofrimento, ou seja, ela será o resultado final

para aqueles que enquanto neste mundo vivem ainda sob a tensão da

luta entre a carne e o espirito, mas que possuem a marca do Espirito

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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47

de Deus em suas vidas que neles vive e lhes garante essa esperança

de glória vindoura.

Até mesmo a criação aguarda ansiosamente por essa

manifestação final dos filhos de Deus. isto porque a mesma foi também

entregue ao jugo do pecado pelo fato de o homem Ter se rebelado

para com Deus. Ela acabou sofrendo indiretamente as consequências

do pecado na humanidade. De modo que todo o universo, ou melhor,

toda a ordem criada, necessita ardentementte por essa libertação final.

É a restauração de todas as coisas que Deus empreenderá no fins dos

tempos quando há de estabelecer definitivamente o seu reinado entre

os homens. Portanto, essa expectativa da redenção final além de ser a

esperança motivadora dos filhos de Deus enquanto neste mundo é

também a expectativa da criação. Portanto, a transformação do

universo depende inexoravelmente de consumar-se a transformação

do homem por obra da graça de Deus. É na verdade o anseio

desesperado e angustiante por um grito de liberdade final que há de

trazer a tona o cumprimento final de todo o propósito de Deus.

Propósito esse que se fundamenta no ideal divino de tornar

todos nós conforme a imagem de seu filho segundo ele mesmo

predestinou desde antes da fundação do mundo.

Esta é a esperança do povo de Deus – Cristo em vós, a esperança da glória (Cl 1:27). Esta esperança é elemento essencial da salvação dos filhos de Deus. Capacita-os a aceitarem as

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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48

aflições do presente de modo que, por sua paciente perseverança, ganhem suas vidas. Ela é, juntamente com a fé e o amor, uma das sublimadoras graças que constituem as marcas distintivas do cristão”

27.

E nisso o Espirito Santo se comporta como o nosso ajudador

diante do Pai que intercede por nós até mesmo em nossas tribulações

e aflições. Por meio de Sua intercessão junto ao Pai ele nos ajuda nas

aflições deste tempo presente e ao mesmo tempo coloca em nossos

corações esta aspiração pela santidade e glória.

Assim, vemos nisso tudo que a soberana graça de Deus

coopera em todas as coisas para o bem de Seu povo, mesmo naquelas

coisas que na hora causam tanta tristeza e perplexidade, e são duras

de aguentar. Pois de uma forma ou de outra Deus está fazendo

prevalecer o Seu propósito para com os seus filhos, a estes que

predestinou para serem conforme a imagem de Seu Filho, que também

chamou pelo fato de já os conhecerem desde antes da fundação do

mundo e vendo assim neles a realização de seu propósito, que em

consequência desse chamamento os justificou mediante o sacrifício de

seu Filho na cruz do Calvário e que os tem glorificado já nesta vida

presente por meio da presença de seu Espirito neles e que os

glorificará por final quando vier a dar cabo definitivo de seu plano.

27

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 139

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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49

Diante dessa quadro glorioso a única expressão que resta é a

expressão de louvor, gratidão e adoração à este Deus que mediante o

seu grande amor nos reconciliou consigo por meio de Jesus Cristo. A

visão, portanto, que Paulo apresenta aqui no final dessa sua exposição

sobre a dinâmica do evangelho é a de um tribunal de justiça, a que o

crente comparece par ser julgado. Mas quem ousará se apresentar

como advogado de acusação? O próprio Deus, o Juiz de todos,

declarou a absolvição e a justificação e quem vai poder contestar a sua

sentença. Daí vem a pergunta: Se Deus é por nós, quem será contra

nós. É a declaração da vitória da fé que traz um incentivo enorme à

mesma pelo fato de compreender que Deus consumará por fim o seu

propósito.

Este grande Deus, Juiz de todos, que nos justificou e nos

reconciliou consigo por meio de seu filho não rejeitará a nos nada.

Pois, de acordo com o argumento de Paulo, Ele não mediu nenhum

esforço para entregar o seu Unigênito Filho para morrer por nós e

assim nos fazer seus filhos por meio da adoção. Logo, quem vai acusar

os Filhos de Deus? Quem os vai condenar? Ninguém, pois foi Deus

quem os justificou entregando o seu filho para morrer por Eles e assim

dar-lhes a herança eterna reservada nos céus. Diante desse bélissímo

quadro providenciado por essa inaudita graça divina só podemos dizer

que somos mais do que vencedores e que nada e nem ninguém

poderá nos separar do amor Deus em Cristo Jesus.

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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50

VI – A Incredulidade Humana e a Graça Divina

6.1 – A Incredulidade de Israel (9:1-5)

Os capítulos 9 a 11 de Romanos constituem-se num grande

parêntese incluído por Paulo. Após concluir a sua argumentação sobre

a justificação, a santificação e a glorificação expostas nos capítulos 1 a

8, o apóstolo passa a tratar de um assunto que foge totalmente à linha

de pensamento lógico desenvolvido por ele. Seu tema agora gira em

torno da questão da escolha de Israel como povo para abençoar o

mundo e a sua devida incredulidade ao evangelho pregado entre eles e

exposto pelo próprio apóstolo. Ao tratar de tal tema Paulo deixa

transparecer a sua frustração e tristeza por causa da incredulidade de

seu povo a ponto de até mesmo desejar ser separado da graça e do

amor de Deus em substituição pela redenção de seu povo, e, assim,

tentará dar uma explicação plausível à este difícil problema do futuro

de Israel tendo em vista o seu estado presente. Israel é o povo eleito e

como tal desfrutava das bençãos e dos privilégios provenientes de sua

eleição por meio da graça divina. Mas, como explicar essa eleição

divina face à tamanha incredulidade e rejeição para com o evangelho

de Deus que é o cumprimento de suas promessas feitas no passado

durante o período do AT e para Israel? Como apontar o futuro da

nação eleita e qual foi a característica primordial dessa eleição?

Exclusivista apenas? Assim, procurando responder à essas questões

levantadas frente ao problema da incredulidade de Israel, Paulo lança

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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51

mão da sabedoria da graça soberana de Deus para dar respostas à

esses difíceis questionamentos.

6.2 – A Escolha Soberana de Deus (9:6-29)

Somente por meio de uma compreensão correta da escolha

soberana de Deus é que se pode entender a questão do futuro de

Israel. Assim, Paulo passa a tratar desse assunto trazendo muitas

luzes para a compreensão dessa problemática. A tônica de sua

argumentação é que muito embora Israel Ter rejeitado o evangelho da

graça de Deus, nada disso pode invalidar o plano de Deus. No decorre

da história humana “sempre houve os que abriram o coração para a

revelação de Deus, enquanto outros endureciam o seu”28. E pela

maneira como responderam, mostraram se estavam ou não entre

aqueles sobre os quais Deus fez recair a Sua escolha. Por isso, é que

Paulo afirma que nem todos os que são de Israel são de fato israelitas,

isto porque o verdadeiro judeu é o homem cuja vida exalta a Deus,

onde nem mesmo a linhagem natural e a circuncisão física não são as

coisas da maior importância, ou seja, nem todos os descendentes de

Abraão são “filhos de Abraão” no sentido espiritual explicado por ele no

capítulo 4. Assim, “são os filhos da promessa (os filhos na fé) que são

contados como descendência espiritual de Abraão”29.

28

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 153 29

LEENHARDT, F.J. Epístola aos Romanos – Comentário Exegético, p.251

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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52

Com essa visão em mente, Paulo procura elucidar a questão da

descendência física de Abraão representada em Israel demonstrando

que no transcorrer de toda a história do Antigo Testamento, o propósito

de Deus foi conduzido por meio de um grupo íntimo, uma minoria

eleita, um remanescente reservado. Logo, quando uns recebem luz e

outros não, pode-se discernir a eleição divina como operando

antecedentemente à vontade ou à atividade dos que são seus objetos.

Se Deus não revela os princípios segundo os quais Ele faz Sua

escolha, isto não é razão para se por em dúvida a Sua justiça. Ele é

misericordioso e compassivo porque Sua vontade o é. Isto explica a

relação de Deus com o seu povo que “por sua graça, tolera as

questões levantadas por Seu povo; mas Ele não se submete ao

interrogatório judicial feito por um coração empedernido e

impenitente”30.

Desta forma, Paulo procura deixar bem claro aos seus leitores

que a escolha de Israel não foi injusta e que sobre ele repousa as

bençãos descritas nos versos 3 a 5. Foi por meio da graça redentora e

soberana de Deus que Deus separou aquele com um propósito

específico. E para explicar a questão do afastamento e rejeição de seu

povo Paulo introduz a analogia dos vasos para honra e dos vasos para

desonra. Sua intenção com isso é procurar responder às devidas

objeções que poderiam ser levantadas quanto à questão da rejeição de

30

CALVINO, João. Romanos, p. 323

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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53

Israel: “Se Deus preordena os caminhos do homem por Sua própria

vontade, por que deveria culpá-lo por andar por onde anda?”31. A sua

resposta é enfática e conclusiva em demonstrar que nenhum de nós

tem o direito de exigir de Deus justiça; ele age da forma como bem lhe

apraz.

Deus em sua infinita grandeza e soberania faz cumprir de modo

glorioso o seu propósito. As suas promessas a Israel não falharam. No

transcurso da história, Ele fez recair Sua escolha em alguns do povo (o

remanescente) e deixou de lado os outros. Pelo fato de recusarem

conscientemente o meio de alcançar justiça pela fé, os israelitas

preferiram o seu próprio meio pessoal de alcançar justiça diante de

Deus, pelo cumprimento ineficaz da Lei. Não se deram conta de que

Cristo pôs fim ao cumprimento da Lei como meio para a justiça. Assim

como Deus tinha o Seu remanescente fiel em dias passados, em

nossos dias, segundo Paulo, um remanescente em Israel escolhido por

Sua graça (os salvos por Cristo por meio da fé). E como então, o

remanescente atual é uma promessa de coisas melhores por vir cabe a

certeza de que a recusa de Israel e a sua consequente rejeição do

evangelho da graça de Deus são apenas temporárias. Por isso, é que o

apóstolo afirma que os gentios escolheram o caminho certo, a justiça

pela fé, e assim os próprio gentios ao desfrutarem das bençãos do

evangelho provocará ciúmes nos judeus fazendo-os voltar abraçando o

evangelho, e todo o Israel se alegrará com a salvação de Deus. Nessa

31

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 153

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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54

unidade, a ênfase de Paulo recai não sobre a ira divina, mas sim sobre

a paciência de Deus em esperar e promover salvação para aqueles

que ainda o rejeitam mas que ainda tem a oportunidade de

arrependimento.

6.3 – A Responsabilidade do Homem (9:10-10:21)

Tendo considerado o problema do ponto de vista da eleição

divina, Paulo agora o considera do ponto de vista da responsabilidade

humana. “O evangelho, com sua proclamação da justiça outorgada por

Deus aos crentes, veio ao judeu primeiro, e também ao gentio. Os

gentios responderam agradecidamente à mensagem que lhes

assegurava que seriam aceitos por Deus com base em sua fé, e isto

lhes foi “imputado para justiça”. Os judeus, como um todo, continuavam

a seguir o caminho da justiça da Lei, procurando ser aceitos por Deus

com base em sua guarda da Lei, e contudo jamais atingiram a meta. A

razão era simples: estavam seguindo um caminho errado. A aceitação

da parte de Deus era assegurada à fé, e não às obras impostas pela

Lei.

Era uma lição deveras difícil para eles aprenderem que, apesar de todos os privilégios que tinham como israelitas, a justiça divina só poderia ser alcançada por eles do mesmo modo pelo qual foi aberta para aqueles forasteiros completos que eram os gentios, os quais tinham sido, durante séculos, mantidos isolados do conhecimento de Deus e seus caminhos. Não admira que o evangelho fosse uma pedra de tropeço para eles”

32.

32

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 161

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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55

Paulo manifesta expressamente o seu desejo de ver os seus

compatriotas salvos mas entende que o zelo que eles tem por Deus e

pela Lei é um zelo sem entendimento. Ou seja, eles compreendem de

uma forma errada qual deve ser o meio de justificação para com Deus.

E nisso criaram toda a sorte de expectativa e vaidade em achar que

pelo simples cumprimento da Lei seriam salvos, o que, segundo Paulo

é tremendo engano, visto que não há homem que venha a cumprir toda

a exigência da Lei, por causa de seu estado de pecado. Logo, volta à

tona todo o argumento de Paulo desenvolvido nos oito primeiros

capítulos, que somente por meio de um ato da misericórdia é que o ser

humano, seja ele judeu ou gentio, pode ser salvo. E o meio para isso é

o caminho da fé.

Por causa de seu zelo ignorante os judeus rejeitaram essa

justiça de Deus que é baseada na fé, e consequentemente, os gentios

a aceitaram de prontidão. Esse zelo cego deixou de compreender que

Cristo é o fim da Lei e somente ele pode justificar o homem diante de

Deus, anulando todo o esforço e tentativas humanas por uma auto-

justiça como era o caso de Israel. Em Cristo todos, judeus e gentios,

recebem o impacto da Palavra de fé que assegura que somente por

meio de uma confissão e fé sinceras de reconhecimento da justiça de

Deus, é suficiente para dar salvação, e por isso ninguém que põe Nele

essa confiança será confundido.

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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56

Esta salvação estende-se para todos, judeus e gentios; assim

como todos estão em pecado e depravação e por isso afastados da

glória divina, Deus mesmo estende a sua misericórdia, a sua anistia

divina para todos independemente de raça. Daí surge a necessidade

de proclamar o evangelho no mundo inteiro. Os homens são exortados

a invocar o nome do Senhor e serem salvos. Mas não invocarão o Seu

nome a menos que sejam movidos a crer nele, não crerão nele a

menos que ouçam falar dele, não podem ouvir dele a menos que

alguém lhes leve as novas, e ninguém pode levar as novas a menos

que seja enviado para isso, logo, “quão formosos os pés dos que

anunciam as boas novas”. Assim, portanto, nessa proclamação

universal o objetivo é declarar e manifestar a graça e a misericórdia

divina que justifica o homem diante de Deus.

Todos ouviram dessa proclamação, inclusive Israel, porém nem

todos deram ouvidos para essa proclamação. Israel não poderia ser

considerado como ignorante quanto à essa manifestação da justiça

divina visto que já a compreendiam por meio das Escrituras Sagradas.

O seu ato foi um ato de desobediência e rejeição para com essa justiça

de Deus que acabou por fim trazendo a aceitação por parte dos gentios

que creram nessa mensagem e por ela foram justificados. Como

consequência os gentios passaram a desfrutar das bençãos

prometidas a Israel causando-lhe ciúmes.

Deus provocaria a Israel a zelos por meio de uma gente gentia que não era povo, mostrando a Israel as bençãos

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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57

derramadas sobre os gentios quando estes abraçam a Cristo pela fé. Deus não fala mais deles como não sendo “meu povo”, mas lhes chama Seu povo. Provocados a zelos a ver isso, Israel pergunta por que estas bençãos não hão de pertencer-lhe, e com maior razão; e recebe a segurança de que lhe pertencerão, sobre a mesma base – a fé em Cristo. Paulo desenvolve esta esperança no capítulo 11, mas resume esta fase da sua argumentação com o contraste entre duas passagens que aparecem justapostas em Isaías 65. O primeiro versículo daquele capítulo é aplicado aos gentios, que depois de viverem séculos sem o conhecimento do verdadeiro Deus, voltaram-se para buscá-lo. E o segundo versículo destaca o favor divino constantemente estendido à Israel e a sua devida rejeição”

33

6.4 – O Propósito de Deus Para Israel (11:1-29)

As bençãos que são desfrutadas pelos gentios sem dúvida

atestam a esperança da restauração de Israel pelo fato de as mesmas

provocarem no povo da aliança ciúmes e o desejo futuro de receber as

mesmas. Isso leva o apóstolo a afirmar categoricamente que Deus não

rejeitou o seu povo. Que não é pelo fato de Israel Ter invalidado o

pacto feito outrora com Deus no passado, que o Senhor voltaria atrás e

não cumpriria o seu plano. Prova disso está no caso do remanescente

fiel. Os judeus que como Paulo haviam recebido a mensagem do

evangelho por meio da fé. É o remanescente segundo a graça da

eleição divina e não por meio das obras da Lei. Tal remanescente

despertará em todo o Israel no futuro o desejo de se voltar para Deus

definitivamente e assim crer na mensagem do evangelho.

33

LEENHARDT, F.J. Epístola aos Romanos – Comentário Exegético, p. 275

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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58

Israel tinha tropeçado, mas não caíra a ponto de não poder

levantar-se mais. Por seu tropeção, as bençãos do evangelho foram

estendidas mais imediatamente aos gentios. Se, porém, os judeus

tivessem aceitado o evangelho, teriam o privilégio de torná-lo

conhecido aos gentios; entretanto isso não aconteceu, os gentios

ouviram o evangelho sem a instrumentalidade dos judeus. “Mas se o

tropeção de Israel dera ocasião a muitas bençãos para os gentios, que

haveria de significar o despertamento e a restauração de Israel senão

uma verdadeira ressurreição!”34. E é isso que Paulo passa a afirmar

quando dá as razões de sua total consagração no ministério aos

gentios. O seu propósito, além de manifestar a graça de Deus àqueles

que durante séculos estavam separados de Deus, era o de também

poder provocar ciúmes nos judeus ao constarem as bençãos outrora

prometidas a eles sendo derramadas sobre os gentios. Segundo Paulo

isso despertaria o desejo dos judeus de voltarem para Deus, por meio

do remanescente fiel, e assim a sua alienação não seria mais final.

Com tudo isso Paulo procura destacar que o tropeço de Israel (por

meio da descrença da maioria) trouxe a salvação aos gentios, mas, no

futuro o mesmo povo da aliança se reconciliará com Deus novamente,

e o remanescente fiel é a prova de que isso acontecerá.

Para ilustrar ainda mais a questão, Paulo lança mão da parábola

da oliveira a fim de elucidar a questão do propósito de Deus para com

Israel. Existem duas oliveiras – uma cultivada e outra silvestre. A

34

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 172

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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59

silvestre produzia frutas pobres, com pouco óleo; a primeira produzia

normalmente bons frutos. A oliveira é Israel, o povo de Deus; a oliveira

silvestre é o mundo gentílico. Mas a oliveira foi-se enfraquecendo e

ficando improdutiva. Portanto os ramos velhos foram cortados e foi feito

um enxerto da oliveira silvestre”. Esse enxerto é caracterizado pelos

gentios e que portanto devem Ter um comportamento de gratidão para

com Deus por tamanha misericórdia e graça demonstra em Cristo

Jesus que os possibilitou desfrutar das bençãos outrora destinadas à

Israel. Assim todo e qualquer sentimento de orgulho e vaidade pela

concessão dessas bençãos deve ser rechaçado pois não fora por

méritos próprios que os gentios conseguiram isso, mas sim pela

gloriosa graça de Deus.

Os ramos que foram quebrados, ou seja, Israel, foram

quebrados e separados do tronco por causa de sua incredulidade e

desobediência. Isso serve como uma lição da bondade (a sua graça

em enxertar os que crêem) e da severidade de Deus que, se for

preciso quebrar mais alguns ramos (os gentios por causa de sua

vaidade) não medira esforços para realizar tal coisa. Porem, vem a

grande afirmação do apóstolo d que se os ramos que outrora foram

quebrados e cortados do tronco vieram novamente a crer poderão ser

restabelecidos novamente por meio de um novo enxerto. Em outras

palavras, o que Paulo está querendo ensinar é que se os judeus vierem

a crer novamente, como com certeza farão no futuro, Deus os

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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60

restaurará ao se estado original e derramará sobre eles as bençãos

outrora prometidas.

Se os judeus que pela descrença perderam sua posição de membros do verdadeiro Israel vierem afinal a crer em Cristo, serão incorporados de novo no povo de Deus. Se os ramos velhos que tinham sido cortados fossem uma vez mais enxertados na árvore de origem e tornassem a produzir fruto, seria um milagre sem precedentes na esfera natural. Igualmente, a reincorporação da nação judaica no povo de Deus quando a incredulidade é substituída pela fé, seria um milagre na esfera espiritual. Mas, diz o apóstolo, é um milagre que Deus vai realizar”

35.

Desta forma, Deus restaurará a Israel fazendo cumprir o seu

propósito para com a nação eleita. Tal propósito constitui-se num

mistério que agora se tornou conhecido de todos. A cegueira de Israel

é apenas parcial e temporária, tendo em vista que o remanescente fiel

foram iluminados pela graça de Deus em Cristo Jesus. Enquanto isso

as bençãos recaem sobre os gentios. No que concerne à proclamação

do evangelho, a ordem é: “ao judeu primeiro”. No que concerne à

recepção do evangelho a ordem é: “pelo gentio primeiro, e depois pelo

judeu”. Quando se completar o número total de gentios cristãos então,

todo o Israel, não um remanescente fiel mas a nação como um todo,

verá a salvação de Deus. E é também por isso que o ministério de

Paulo aos gentios é dotado de grande consagração. O tropeção

temporário de Israel foi predito profeticamente assim como também a

sua restauração última e permanente segundo atestam os textos de

35

CALVINO, João. Romanos, p. 407

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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61

Isaías 59:20s e Jeremias 31:33. A nova aliança não se completará

enquanto não abranger o povo da velha aliança. Assim, embora

temporariamente alienado, para vantagem dos gentios, Israel foi e

sempre é objeto do amor eletivo de Deus porque as Suas promessas

uma vez feita aos patriarcas, não podem ser revogadas.

6.5 – O Propósito de Deus p/ Humanidade (11:30-36)

O propósito último de Deus para o mundo é revelado agora. É

misericórdia tanto para judeus como para gentios. O remanescente fiel

não foi escolhido pela graça de modo que o restante fosse destinado à

perdição. Sua eleição é um sinal de que a misericórdia divina há de

estender-se a todos sem distinção. Se os gentios alcançaram

misericórdia foi devido à desobediência dos judeus. E, assim como os

gentios receberam tamanha misericórdia, os judeus também

receberam o mesmo tratamento da parte de Deus. Em tudo isso Paulo

demonstra a misericórdia de Deus estendida à toda humanidade, aqui

representada pelos judeus e pelos gentios, mesmo encontrando-se a

mesma sob o jugo do pecado e da morte.

Diante desse quadro glorioso, vemos que Deus cumprirá o seu

propósito final derramando as bençãos outrora prometidas aos judeus

e gentios salvos por sua graça. Entender isso é reconhecer a forma

maravilhosa e sábia que Deus encaminha a realização do Seu plano,

no qual faz tudo segundo o seu querer, isto porque, “todas as coisas

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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62

Dele procedem; por meio Dele todas as coisas existem; a Ele todas as

coisas retornam: a Ele seja a glória por todos os séculos. Amém”36.

VII – O Modo Cristão de Viver (12:1-15:13)

7.1 – Sacrifício Vivo (12:1-2)

Em vista de tudo quanto Deus fez por Seu povo em Cristo, como

Seu povo deve viver? Deve apresentar-se a Deus como "sacrifício

vivo", consagrado a Ele. Os sacrifícios de animais, oferecidos numa

época anterior, tomaram-se obsoletos graças à oferta que Cristo fez de

Si mesmo. “Mas sempre há lugar para o serviço divino prestado por

corações obedientes”37

. Em vez de viverem pelos padrões de um

mundo em desacordo com Deus, os crentes são exortados a deixar

que a renovação das suas mentes, pelo poder do Espírito, transforme

as suas vidas harmonizando-as com a vontade de Deus .

De maneira particular, pode-se traçar uma impressionante lista

de paralelos entre 12:3.13:14 e o Sermão do Monte. Embora não

existisse nesse tempo nenhum dos nossos evangelhos canônicos, o

ensino de Cristo registrado neles era corrente nas igrejas - certamente

em forma oral, e talvez também na forma de sumários escritos.

36

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 181 37

LEENHARDT, F.J. Epístola aos Romanos – Comentário Exegético, p. 312

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63

7.2 – A Vida Comum dos Cristãos (12:3-8)

A marca das obras das mãos de Deus é a diversidade, não a

uniformidade. Assim é com a natureza; é assim também com a graça, e

em nenhum lugar mais do que na comunidade cristã. Nesta há muitos

homens e mulheres das mais diversas espécies de origem, ambiente,

temperamento e capacidade. E não só isso, mas, desde que se

tomaram cristãos, são também dotados por Deus de uma grande

variedade de dons espirituais. Entretanto, graças a essa diversidade e

por meio dela, todos podem cooperar para o bem do todo. Seja qual for

a espécie de serviço que se deva prestar na igreja, que seja feito de

coração e com fidelidade pelos que são qualificados por Deus, quer

seja a profecia, o ensino, a exortação, a administração, as

contribuições materiais, a visitação aos enfermos, quer a realização de

qualquer outra classe de ministério.

7.3 – O Cristão e o Estado (13:1-7)

A relação dos cristãos, quer como súditos individuais, quer

unidos em corpo social na vida da igreja, com as autoridades

governantes, estava destinada a tornar-se especialmente crítica dentro

da década seguinte à produção desta epístola. Enquanto a igreja era

mormente composta de judeus, não faltavam problemas desta espécie,

mas não eram tão graves como vieram a ser mais tarde. A posição dos

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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64

judeus no Império Romano era regulamentada por uma série de editos

imperiais. Na verdade, os judeus, como uma nação sujeita ao Império,

gozavam de privilégios verdadeiramente excepcionais. “Sua religião

estava legalmente registrada como religio licita, e suas várias práticas

religiosas que os distinguia dos gentios eram-lhes autorizadas”38

.

Essas práticas podiam parecer absurdas e supersticiosas aos

romanos, mas eram protegidas nada menos que por lei imperial.

Incluíam a lei do sábado, as leis que regiam a alimentação e a

proibição de "imagens de escultura". A política imperial proibia os

sucessivos governadores da Judéia de levarem os estandartes

militares, com imagens imperiais anexadas a eles, para dentro das

muralhas da santa cidade de Jerusalém, pois isto era uma afronta às

susceptibilidades religiosas dos judeus. Se pela lei judaica um gentio

violava os átrios internos do templo de Jerusalém cometendo um

sacrilégio passível de pena de morte, Roma confirmava a lei judaica

sobre isso a ponto de ratificar a sentença de morte por tal violação,

mesmo quando o transgressor fosse um cidadão romano.

7.4 – Amor e Dever (13:8-10)

Que a sua única dívida a outrem seja a dívida do amor. Quem

paga esse débito cumpre a lei. A citação de Levítico 19:18, "Amarás ao

teu próximo como a ti mesmo", como um sumário dos mandamentos,

38

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 187

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65

introduz Paulo diretamente na tradição de Jesus, que colocou estas

palavras como o segundo grande mandamento ao lado de "Amarás o

Senhor teu Deus ..." (Dt 6:5), "o grande e primeiro mandamento",

acrescentando: "Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os

profetas" (Mt 22:37- 40; ver Me 12:28-34). Paulo menciona o segundo

aqui, e não o primeiro, porque a questão imediata relaciona-se com os

deveres do cristão para com o seu próximo - tema dominante dos

mandamentos da segunda tábua do Decálogo. Estes mandamentos

nos proíbem prejudicar o nosso próximo de qualquer modo. Visto que o

amor nunca prejudica a outros, o amor cumpre a lei.

7.5 – A Vida Cristã em Dias de Crise (13:11-14)

Paulo reconhecia a natureza crítica dos tempos. Não tinha

ilusões sobre a continuidade de sua presente oportunidade de pregar o

Evangelho sem obstáculo e sem embaraço, mas estava determinado a

explorá-la ao máximo enquanto durasse. Os cristãos devem estar

alerta. Mas a prospectiva deve enchê-los de ânimo, não de desespero:

"Ao começarem estas cousas a suceder, exultai e erguei as vossas

cabeças; porque a vossa redenção se aproxima" (Lc 21:28). E Paulo

faz eco a seu Senhor: "A nossa salvação está agora mais perto do que

quando no princípio cremos." Enquanto isso, os filhos da luz devem

viver em prontidão para o dia da visitação, abjurando todas as "obras

das trevas". Em outras partes Paulo fala de revestir-se "do novo

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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homem" (Ef 4:24; CI 3: 10); aqui, mais diretamente, ele ordena aos

seus leitores que se revistam "do Senhor Jesus Cristo". As graças

cristãs, as “armas da luz”, que ele os exorta a arvorar em vez de

gratificar os desejos da natureza inferior - que são, senão aquelas

graças expostas com harmônica perfeição em Jesus Cristo? O

conhecimento que Paulo tinha do Jesus histórico e seu interesse por

Ele eram muito maiores do que o admitem aqueles que interpretam mal

as suas palavras sobre não conhecer a Cristo "segundo a carne",

negando que Paulo tivesse esse conhecimento ou interesse. “Pois

quando ele passa a enumerar pormenorizadamente as graças com as

quais deseja que seus amigos de Roma e alhures "se revistam", são as

graças que caracterizaram Cristo na terra.”39

paga esse débito cumpre

7.6 – Liberdade Cristã e Amor Cristão (14:1-15:6)

Paulo desfrutou plenamente sua liberdade cristã. Jamais houve

um cristão mais emancipado das inibições e tabus anti-cristãos. Era

emancipado tão completamente da escravidão espiritual, que nem

sequer era, escravo da sua emancipação. Adaptava-se ao modo de

viver dos judeus quando se achava numa sociedade judaica, com tão

boa disposição como se adaptava ao modo de vida dos gentios quando

vivia entre eles. Os interesses do Evangelho e o supremo bem-estar

39

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 195

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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dos homens e mulheres eram considerações da mais alta importância

para ele, e lhes subordinava tudo mais. Mas sabia muito bem que

muitos outros cristãos não eram emancipados tão completamente

como ele, e insistia em que fossem tratados com delicadeza. Um

cristão podia, em muitos aspectos, ter "fé" fraca, imatura e carente de

instrução. Mas devia ser bem recebido, com acolhida calorosa, como

cristão, e não ser logo desafiado a debater questões sobre aquelas

áreas da vida em que não era emancipado ainda.

Paulo menciona duas áreas da vida em que isso era suscetível

de acontecer, e depois se estende a respeito de uma delas. Uma era a

comida; a outra era a observância religiosa de certos dias. Alguns

cristãos (como o próprio Paulo) não tinham dor de consciência quanto

a comer qualquer espécie de alimento; outros tinham escrúpulos

acerca de certos tipos de comida. Uns (outra vez como Paulo) não

faziam distinção entre dias mais ou menos sagrados, considerando

todo dia como "santo ao Senhor"; outros achavam que alguns dias

eram mais santos do que outros. Que se deve fazer quando cristãos de

tão diversas convicções se acham na mesma comunidade? Devem

pôr-se a malhar os pontos em questão, cada lado determinado a

converter o outro? Não, diz o apóstolo. Cada qual os resolva em sua

mente e em sua consciência. Aquele que desfruta maior liberdade não

deve menosprezar o outro julgando-o espiritualmente imaturo. Quem

tem escrúpulos de consciência não deve criticar o seu irmão na fé por

praticar o que aquele não pratica. Cada cristão é servo de Cristo, e a

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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Cristo é que terá que prestar contas, aqui e no porvir. Cristo morreu, e

é o Senhor dos mortos; Cristo vive, e é o Senhor dos que vivem. Um

cristão não deve julgar outro - pode-se ouvir aqui o eco das palavras de

nosso Senhor: "Não julgueis, para que não sejais julgados pois é no

tribunal de Deus que teremos todos de comparecer para prestar contas

e receber a devida paga.

Tendo Paulo afirmado inflexivelmente a liberdade do cristão,

põe-se a demonstrar como se pode e se deve estabelecer limite

voluntário a esta liberdade. Ao fazê-lo, amplia a exposição de um dos

assuntos que usara para ilustrar a sua afirmação da liberdade cristã - o

assunto relacionado com a comida. A questão de quais os tipos de

comida que se podiam e não se podiam comer agitou a igreja primitiva

de várias maneiras. Uma destas maneiras afetou mais particularmente

os cristãos judeus. “As leis judaicas sobre a alimentação, que tinham

sido observadas pela nação desde os seus primeiros dias, eram um

dos principais traços que distinguiam os judeus de seus vizinhos

gentios”40. Não somente se proibia absolutamente comer carne de

certos animais; o sangue de todos os animais era absolutamente

proibido, e os animais "limpos" abatidos para alimento tinham de ser

mortos de modo que o sangue fosse totalmente drenado. Desde que

nunca se poderia ter certeza de que a carne de que se alimentavam os

não-judeus estava livre de toda suspeita de ilegalidade num aspecto ou

noutro, para um judeu era impossível partilhar de uma refeição com um

40

LEENHARDT, F.J. Epístola aos Romanos – Comentário Exegético, p. 362

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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gentio. Na verdade, era muito difícil um judeu rigoroso compartilhar de

uma refeição com outro judeu suspeito de relaxamento nestas

questões.

Comprar carne de açougue em cidades pagãs como Corinto e

Roma representava um problema de consciência para alguns cristãos.

Grande parte da carne exposta para venda no mercado provinha de

animais anteriormente sacrificados a alguma divindade pagã. A

divindade pagã recebia sua porção simbólica; o restante da carne

podia ser vendido pelas autoridades do templo aos comerciantes da

venda a varejo, e é possível que muitos consumidores pagãos

estivessem dispostos a pagar um pouco mais pela carne porque tinha

sido "consagrada" a alguma divindade. Entre os cristãos havia alguns

que possuíam consciência robusta e entendiam que a carne não

melhorava nem piorava por sua associação com a divindade pagã.

Sentiam-se muito bem ao comê-la. Outros não se sentiam bem.

Ao emitir seu julgamento aos coríntios sobre esta questão,

“Paulo se nivela, por um lado, com os que entendiam que não havia

nenhuma realidade substancial nas divindades pagãs, e que o cristão

tinha perfeita liberdade de comer dessa carne”41. Mas o entendimento

não é tudo; as exigências do amor deviam ser levadas em

consideração. Ele mesmo estava pronto a renunciar à sua liberdade se,

ao insistir nela, desse mau exemplo a um irmão em Cristo de

41

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos – Introdução e Comentário, p. 202

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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consciência mais fraca. Se um cristão que achava errado comer carne

dada a ídolos fosse incentivado pelo, exemplo de seu irmão mais forte

a comer dessa carne, o resultante prejuízo à sua consciência seria

posto na conta da falta de caridade e de consideração do outro.

Paulo conclui suas palavras sobre a liberdade cristã e sobre o

amor cristão aduzindo o exemplo de Cristo. Quem estava mais livre de

tabus e inibições do que Ele? Contudo, quem cuidou mais de tolerar as

fraquezas alheias? É bem fácil para um homem cuja consciência vê

com absoluta clareza algum curso de ação, estalar os dedos para os

que o criticam e dizer: "Farei o que me agrada." Tem todo o direito de

fazê-lo, mas não é este o modo de agir de Cristo. O modo de agir de

Cristo é considerar os outros primeiro, consultar os interesses deles e

ajudá-los quanto possível. "Nem mesmo Cristo agradou-se a Si

próprio"; se o tivesse feito, poder-se- ia perguntar em que aspecto Sua

vida e Seu ministério teriam seguido curso diferente daquele que

seguiram. Mas o sentido é que Cristo não pôs em primeiro lugar os

Seus próprios interesses e o Seu próprio bem-estar. Cristo colocou os

interesses dos outros antes dos dele, mas talvez Paulo queira dizer

aqui que Cristo colocou a vontade de Deus antes de tudo mais, esta

idéia é sugerida pela citação do Salmo 69:9.

As palavras que se seguem à citação encarnam um princípio

presente em todo o Novo Testamento, onde quer que o Velho

Testamento seja citado ou mencionado. As lições sobre a tolerância

que os escritos do Velho Testamento inculcam, e o estímulo que dão à

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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fidelidade, constituem forte incentivo ao sustento da esperança cristã.

Paulo apresenta- lhes também um forte incentivo ao fortalecimento da

união fraternal, e ora para que o Deus que ensina a Seu povo a

tolerância e os supre de ânimo, através destes escritos lhes assegure

unidade no entendimento, de modo que Ele seja glorificado pelo

testemunho unido dado por eles.

7.7 – Cristo e os Gentios (15:7-13)

Assim, pois, diz o apóstolo, sigam o exemplo de Cristo que nos

acolheu sem discriminação, e abram as portas uns para os outros, sem

discriminação. O que quero dizer é isto, continua ele: Cristo não veio

para receber serviço, mas para prestá-lo - primeiro aos judeus, para

cumprir as promessas que Deus fizera aos antepassados deles, e

depois aos gentis, para que estes também glorificassem a Deus por

Sua misericórdia. Mas se a dádiva do Evangelho aos judeus cumpriu

as promessas do Velho Testamento, o mesmo se pode dizer da

evangelização e da conversão dos gentios. E Paulo acrescenta uma

cadeia de testimonia do Velho Testamento em que os gentios são

apresentados como louvando o Deus de Israel e colocando sua

esperança no Messias de Israel.

A maneira pela qual Deus daria aos gentios crentes a bênção e

a extensão desta - a bênção da sua incorporação ao lado dos judeus

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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na comunidade do povo de Deus - podia ser um mistério mantido

oculto desde as mais primitivas gerações até virem a ser unia realidade

mediante o ministério de Paulo. Mas o fato de que os gentios seriam

abençoados pelo Evangelho, Paulo vê como algo claramente predito

nos tempos do Velho Testamento. Isto significa que ele via o seu

ministério como um meio empregado por Deus para o cumprimento de

Suas promessas aos gentios. Uma oração para que tivessem

abundante alegria e paz, fé e esperança, conclui esta divisão da

epístola - divisão que apresenta o modo cristão de viver.

VIII – Epílogo (15:14-16:27)

8.1 – Narrativa Pessoal (15:14-33)

Paulo passa ao término de sua carta bem cônscio da qualidade

moral e espiritual deles. O que escreveu é mais recordação do que já

sabem, do que instrução elementar sobre o cristianismo. Além disso,

conquanto não tenha sido ele o fundador da igreja deles, é o apóstolo

dos gentios, e é nesta capacidade que lhes escreveu. “Paulo vê seu

apostolado como um serviço sacerdotal, e vê os gentios que se

converteram por meio dele como a oferta agradável que eis apresenta

a Deus”42

.

42

LEENHARDT, F.J. Epístola aos Romanos – Comentário Exegético, p. 375

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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Nesta altura, Paulo já exercera seu apostolado por bem mais de vinte

anos, e embora sua missão não estivesse completa ainda, não tinha

razão nenhuma, ao olhar aqueles anos passados, para sentir-se

insatisfeito com a obra realizada por Cristo por intermédio dele.

Pregara o Evangelho de Jerusalém até aos limites do Ilírico. Nas

principais cidades às margens das vias mais importantes das

províncias da Síria-Cilícia, de Chipre, da Galácia, da Ásia, da

Macedônia e da Acaia havia comunidades de crentes em Cristo para

testemunharem da atividade apostólica de Paulo. Em toda parte seu

objetivo fora pregar o Evangelho onde não tinha sido pregado ainda, e

agora que tinha completado sua obra no oriente, olhava para o

ocidente e se propunha a evangelizar a Espanha. Sua viagem à

Espanha lhe daria oportunidade de realizar seu desejo de há muito

acalentado de ver Roma, e ansiava por reunir-se com os cristãos na

capital e por reanimar-se mediante a comunhão com eles.

Todavia, tinha de ir primeiro a Jerusalém. A coleta para a igreja

de Jerusalém que, já fazia alguns anos, ele organizara nas suas igrejas

gentílicas, estava pronta para ser levada aos seus beneficiários, e

Paulo ofereceu-se para acompanhar os representantes nomeados

pelas igrejas para entregar suas ofertas.

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8.2 – Saudações a Vários Amigos (16:1-16)

A carta, quando terminada, foi evidentemente levada ao seu

destino por Febe, uma senhora cristã que tinha mesmo de viajar para

lá. Paulo aproveita a oportunidade para recomendá-la à hospitalidade e

à comunhão dos cristãos a quem está escrevendo. Esta palavra de

recomendação é seguida de uma lista de saudações pessoais a certo

número de pessoas mencionadas nome por nome.

8.3 – Exortação Final (16:17-27)

Aqui Paulo se afasta da sua política de não se dirigir à igreja

romana com o tom da autoridade apostólica usado por ele ao escrever

às igrejas que ele fundou. Além disso, as dissensões referidas neste

parágrafo não correspondem a coisa alguma da vida da igreja romana

que se pudesse recolher de outras partes da epístola. Em outras partes

da epístola, a única possibilidade de tensão no seio da igreja a que se

faz alusão é a que poderia surgir se os membros gentílicos da igreja

começassem a assumir um ar de superioridade sobre seus irmãos de

origem judaica (11:13ss.). Por outro lado, a admoestação deste

parágrafo tem pontos de afinidade com as palavras de exortação e de

prognósticos dirigidas por Paulo aos presbíteros da igreja de Éfeso em

Atos 20:28ss. Servem para comparação as dissensões e os falsos

ensinos em Éfeso mencionados nas duas epístolas a Timóteo (para

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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não falar da heresia que, segundo a Epístola aos Colossenses, estava

encontrando guarida entre os cristãos doutra região da província da

Ásia).

Doutro lado, não seria de admirar se, após longo esforço por

conter-se ao dirigir-se a uma igreja não fundada por ele, Paulo afinal

rompesse numa urgente advertência quanto a certos criadores de

problemas de uma classe que ele conhecia muito bem nas igrejas dele.

Da descrição que faz deles, é evidente que se refere a "maus obreiros"

como os que denuncia em Filipenses 3:18s. O ensino deles era de

evidente tendência antinomista, e possivelmente trazendo as marcas

de um gnosticismo incipiente.

Conclusão

Após Ter examinado minuciosamente esta epístola e após Ter

constatado nela o mais puro evangelho, faço das palavras de Martinho

Lutero as minhas palavras sobre a importância e a fundamentalidade

desta epístola:

Esta epístola é, sem dúvida, o escrito mais importante do Novo Testamento e o mais puro evangelho, digno e merecedor de que o cristão não só o conheça de cor, palavra por palavra, mas também com ele se ocupe diariarnente, na qualidade de pão diário para a alma; pois ele jamais poderá ser lido ou contemplado em

Epístola aos Romanos - Comentário Exposito

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demasia. E quanto mais se lida com ele, tanto mais agradável e gostoso fica.

43

E cabe também nessa conclusão a citação da da doxologia final

com a qual Paulo conclui a sua carta louvando a Deus de todo o

coração:

Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar, segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério guardado em silêncio desde os tempos eternos, mas agora manifesto e, por meio das Escrituras proféticas, segundo o mandamento do Deus, eterno, dado a conhecer a todas as nações para obediência da fé; ao único Deus sábio seja dada glória por Jesus Cristo para todo o sempre. Amém.

43

LUTERO, Martinho. Prefácio à Epístola de São Paulo aos Romanos, p. 01

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