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Educ. Soc. , Campinas, v. 32, n. 114, p. 171-188, jan.-mar. 2011 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br> 171 A IMPORTÂNCIA DA INVESTIGAÇÃO NARRATIVA NA EDUCAÇÃO A O R * RESUMO: Este artigo apresenta uma análise da importância da investigação nar- rativa para pesquisar os cotidianos educacionais. Descrevemos a relevância deste tipo de investigação como contribuição à articulação da teoria com a prática, do social com o individual. Também ressaltamos as características deste tipo de in- vestigação, diferenciando duas formas de cognição (narrativa e paradigmática) que proporcionaram a distinção de duas formas de análise dentro das investiga- ções narrativas. Através da descrição destas formas apontamos os pontos positi- vos e negativos de cada uma delas, mostrando que os dois tipos de investigação não são dicotômicos, podem ser complementares e têm muito a contribuir às in- vestigações educacionais. Enfim, para contornar as dúvidas que marcam qualquer investigação, é imprescindível considerar todas as questões, inclusive as práticas, e intensificar os cuidados na busca das bases narrativas para as investigações na educação. Palavras-chave: Investigação narrativa. Teoria. Método. T ABSTRACT: This paper analyzes the importance of research narrative to inves- tigate day-to-day education. It describes the relevance of such research as a con- tribution to linking theory and practice, the social and the individual. Aer high- lighting the characteristics of this kind of research, it distinguishes between two forms (narrative and paradigmatic) of cognition and, thus, two forms of analysis within narrative research. It then describes both, pointing out their positive and negative sides to shows that they can be complementary (non-dichotomous) and have much to contribute to educational research. Finally, to bypass the doubts that mark any investigation, all the issues, including practices, must be considered and the care in search of narrative bases to investigate education must be intensified. Key words: Narrative research. Theory. Method. L’ ’ RÉSUMÉ: Cet article présente une analyse de l’importance de la recherche nar- rative pour faire analyser les quotidiens éducatifs. Il décrit la pertinence de ce type d’investigations comme contribution à l’articulation de la théorie et de la pratique, du social et de l’individuel. Il souligne également les caractéristiques * Pós-doutoranda em Ciências da Educação na Universidade de Coimbra e professora da Escola Superior de Educação Almeida Garre (, Lisboa). Projeto de investigação financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (). E-mail: [email protected]

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    A IMPORTNCIA DA INVESTIGAO NARRATIVA NA EDUCAO

    A O R*

    RESUMO: Este artigo apresenta uma anlise da importncia da investigao nar-rativa para pesquisar os cotidianos educacionais. Descrevemos a relevncia deste tipo de investigao como contribuio articulao da teoria com a prtica, do social com o individual. Tambm ressaltamos as caractersticas deste tipo de in-vestigao, diferenciando duas formas de cognio (narrativa e paradigmtica) que proporcionaram a distino de duas formas de anlise dentro das investiga-es narrativas. Atravs da descrio destas formas apontamos os pontos positi-vos e negativos de cada uma delas, mostrando que os dois tipos de investigao no so dicotmicos, podem ser complementares e tm muito a contribuir s in-vestigaes educacionais. Enfi m, para contornar as dvidas que marcam qualquer investigao, imprescindvel considerar todas as questes, inclusive as prticas, e intensifi car os cuidados na busca das bases narrativas para as investigaes na educao.

    Palavras-chave: Investigao narrativa. Teoria. Mtodo.

    T

    ABSTRACT: This paper analyzes the importance of research narrative to inves-tigate day-to-day education. It describes the relevance of such research as a con-tribution to linking theory and practice, the social and the individual. A er high-lighting the characteristics of this kind of research, it distinguishes between two forms (narrative and paradigmatic) of cognition and, thus, two forms of analysis within narrative research. It then describes both, pointing out their positive and negative sides to shows that they can be complementary (non-dichotomous) and have much to contribute to educational research. Finally, to bypass the doubts that mark any investigation, all the issues, including practices, must be considered and the care in search of narrative bases to investigate education must be intensifi ed.

    Key words: Narrative research. Theory. Method.

    L

    RSUM: Cet article prsente une analyse de limportance de la recherche nar-rative pour faire analyser les quotidiens ducatifs. Il dcrit la pertinence de ce type dinvestigations comme contribution larticulation de la thorie et de la pratique, du social et de lindividuel. Il souligne galement les caractristiques

    * Ps-doutoranda em Cincias da Educao na Universidade de Coimbra e professora da Escola Superior de Educao Almeida Garre (, Lisboa). Projeto de investigao fi nanciado pela Fundao para a Cincia e a Tecnologia (). E-mail: [email protected]

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    de ce type dexamen et distingue deux formes de cognition (narrative et para-digmatique) qui perme ent la discerner deux formes danalyse dans les recher-ches narratives. Aprs avoir dcrit ces deux formes, il dsigne les points positifs et ngatifs de chacune, montrant que ces deux types de recherche ne sont pas dichotomiques, mais peuvent tre complmentaires et ont beaucoup apporter aux investigations sur lducation. Finalement, pour contourner les doutes mar-quant toute recherche, il est indispensable de considrer toutes ces questions, y compris les pratiques, et dintensifi er les prcautions en qute des bases narrati-ves pour les recherches en ducation.

    Mots-clefs: Recherche narrative. Thorie. Mthode.

    Introduo

    Durante muito tempo o que se relacionava com a prtica foi menosprezado frente cincia. Hoje, entretanto, a relevncia das prticas, e da sua arti-culao com a teoria, motiva o trabalho e a ateno de muitos autores que fazem uso de alguns tipos de investigaes da prtica no campo educacional. Nosso foco de discusso, neste artigo, justamente sobre uma modalidade de pesquisa que valoriza a exposio dos pensamentos dos indivduos acerca da sua viso de mun-do: a investigao narrativa.

    O professor no s um trabalhador na sociedade, ele pode ser um formador de opinies e um instigador de discusses. Dessa forma, a sua tomada de posio interfere no s na sua vida, mas na prpria formao da sociedade. Por isso, exal-tamos a necessidade de que ele tenha conscientizao na sua atuao/escolha pro-fi ssional e objetivamos incitar a integrao das perspectivas individuais e sociais na anlise dos relatos. Isso porque, apesar de difcil, no impossvel ultrapassar as determinaes. As pessoas no esto determinadas a priori, nem so responsveis pelo seu fracasso ou sucesso: o social interfere nas oportunidades que surgem na vida, mas existe algo de individual que nos permite ter razes prprias que podem ir alm dos imperativos sociais.

    Narrativa: o conceito que palpita a complexidade da prtica

    A narrativa permite compreender a complexidade das estrias contadas pelos indivduos sobre os confl itos e dilemas de suas vidas. Bolvar (2002) entende-a como a qualidade estruturada da experincia percebida e vista como um relato, captando a riqueza e os detalhes dos signifi cados nos assuntos humanos, tendo como base as evidncias do mundo da vida. Reconstri-se a experincia refl etindo sobre o vivido e dando signifi cado ao sucedido.

    Para Brockmeier e Harr (2003), a utilizao geral do termo narrativa deno-mina um conjunto de estruturas lingsticas e psicolgicas transmitidas cultural e

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    historicamente, delimitadas pelo domnio individual de cada um, mas combina-das com as tcnicas scio-comunicativas, bem como a linguagem, adquiridas so-cialmente.

    Estes autores afi rmam que as palavras nunca so proferidas apenas pelo in-divduo, elas so articuladas a partir de vrias narrativas particulares, a partir de pontos de vista especfi cos, determinadas em certo contexto e por certas vozes. As narrativas seriam um modo especfi co de construo e constituio da realidade que compe um conjunto de regras do que aceito, ou no, em determinada cultura.

    Jerome Bruner um dos autores mais importantes para a compreenso das narra-tivas e, conseqentemente, para o surgimento da investigao narrativa. O autor (1990) baseia-se em alguns pressupostos da psicologia cultural, principalmente na necessida-de de enveredarmos por uma abordagem mais histrica e interpretativa. Contudo, vai alm destes pressupostos e apresenta como a realidade construda: pela narrativa, que media a prpria experincia e confi gura a construo social da realidade, o que tambm inclui a subjetividade, sempre relacionada com o discurso comunicativo.

    Para Bruner (1990), as infl uncias que dominam as transaes da vida cotidia-na e tornam o signifi cado pblico e partilhado na participao cultural (a psicologia comum) tm um princpio organizador mais narrativo do que conceitual, pois a nar-rativa organiza a experincia. Quando as coisas so como devem ser as explicaes narrativas da psicologia comum so desnecessrias, ou seja, o usual da condio humana revestido de legitimidade e os desvios da norma so verifi cados; quando h uma exceo, o relato precisa de uma razo, de uma explicao. Contar uma est-ria assumir uma posio moral.

    Lyotard (1989) tambm descreve a narrao como a forma por excelncia do saber das classes populares, da cultura de um povo. Ela obedece s regras fi xadas pela pragmtica, determinando o que preciso dizer para ser ouvido, escutar para poder falar e o que desempenhar para ser objeto de uma narrativa. O que se transmite com as narrativas o grupo de regras pragmticas que constitui o vnculo social, encontrando a matria desse vnculo no s na signifi cao dos relatos, mas no prprio ato de sua narrao, com a utilizao do ritmo, que compassa o tempo, e da temporalizao, que visa o no esquecer.

    Para Bruner (op. cit.), nossa propenso para organizar a experincia em forma de narrativa no serve somente para conservar e elaborar uma tradio, mas para interpretar e melhorar o que se passou, promovendo uma nova forma de contar. A narrativa um veculo da psicologia comum, reitera as normas da sociedade, pode ensinar, conservar a memria ou alterar o passado, no realizada nem para manter o social, nem para assegurar a lembrana individual. A estria contada a partir de um conjunto de prismas pessoais. Dessa forma, podem existir vrias ver-ses, pois h uma vertente inevitavelmente humana para a instituio de sentido.

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    Nesse sentido, Gudmundsd ir (2001) destaca que a ao e o signifi cado dei-xam traos no espao social e transformam a atividade humana atravs da memria coletiva proferida nas instituies. A ao mediada vai alm da situao inicial e tor-na-se relevante em outros contextos. Dessa maneira, os signifi cados vo alm dos pre-tendidos pela pessoa envolvida na ao original. Na construo de uma narrativa da prtica os investigadores so sempre intrpretes, pois entre as experincias do campo est o esforo por fazer sentido e descrever estas experincias.

    Diante destas constataes, preconizamos que tanto o aspecto social quanto o individual motivam a memorizao e a narrativa, mas as instituies tambm tornam-se importantes na esquematizao da memria/narrao, pois, como Bruner (1990, p. 62) explica, a nossa experincia e memria do mundo social so estruturadas por con-cepes profundamente interiorizadas e narrativizadas da psicologia comum e tam-bm por instituies elaboradas historicamente por certa cultura a apoiar e reforar.

    Na mesma linha, Lyotard (1989) e Foucault (1979) salientam as instituies como forma de imposio de limites para o que pode ser dito e de que maneira. A disciplinao um dos principais encargos institucionais, mas as instituies tambm esto submetidas a estes jogos, h uma disputa de estratgias de linguagem conduzi-das dentro e fora do ambiente institucional.

    A narrativa est presente nas instituies e nas relaes sociais, assim tambm percebida como instrumento de disciplinao e poder. Gudmundsd ir (2001) argu-menta que o fato da fala estar interconectada intimamente com a cultura faz com que ela no exista de forma totalmente individual, pois toda a voz se insere no contexto de muitas vozes situadas cultural e singularmente. As multivozes da sociedade trazem infl uncias e uma bagagem invisvel das ideologias e questes ticas da nossa cultura. As narrativas podem ser utilizadas de forma emancipatria, ou reproduzindo as es-truturas hierrquicas da nossa cultura.

    Compreendemos com Foucault (1979) que nem o poder nem as resistncias a ele tm lugar defi nido, mesmo as aes emancipatrias so partes de uma luta que se exer-ce dentro das relaes de poder, pois o indivduo uma produo do poder e do saber, no existindo uma individualidade anterior que se torna dominada pelo poder. Os sa-beres esto intimamente interligados ao poder que, como prtica social, constitudo historicamente. Contudo, o poder no existe, ele se exerce. O que existe so prticas ou relaes de poder que produzem individualidades, no por coero, mas por insero do indivduo desde seu nascimento dentro de um mundo onde o poder atua.1

    Ainda neste sentido, Gudmundsd ir (op. cit.) defi ne a subjetividade do su-jeito como no-unitria, pois a linguagem, as questes ticas, os relacionamentos, as interaes sociais e as experincias so centrais. O sujeito unitrio um mito que demonstra algumas dominaes sociais. Ou seja, o fato de estarmos em contato com

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    o social, e com as pessoas da sociedade, leva-nos a adquirir no s uma subjetivida-de no-unitria, mas uma memria que, de acordo com Bruner (op. cit.), lembrada pela relao dialgica que tivemos com uma pessoa com quem mantivemos contato. Assim, o que nos faz lembrar e organizar a memria a dialtica entre os indivduos, os grupos, as instituies e as relaes sociais do meio.

    Berger e Luckman (1985) apreciam que, para alm da importncia do afeto e da identifi cao, a linguagem tem que ser um contedo interiorizado, acima de tudo, na socializao primria.2 Ela diferencia (e legitima) a identidade do indivduo, ou seja, ela institui signifi cados aos papis e interpretaes, construindo o primeiro mundo do indivduo que deve ser considerado real.

    A narrativa no s estrutura de enredo nem historicidade. Para Bruner (1990), uma forma de utilizar a linguagem. O signifi cado simblico depende da interioriza-o e utilizao do seu sistema de signos como um interpretante e, por isso, precisa-se da interao com as pessoas. O domnio inicial da lngua s pode advir da participa-o na comunicao.

    Como conseqncia da necessidade de relao dialgica, adquire-se a narrao da experincia naturalmente com a aprendizagem de uma lngua. Gudmundsd ir (2001) explica que, gradualmente, os povos em todas as culturas desenvolvem inter-subjetivamente maneiras distintas de saber, compreender e perceber sua realidade fsica e social compartilhada. A narrativa funciona como um guio para ajudar-nos a fazer sentido. Utilizamos-na constantemente porque o social se apresenta a ns como uma narrativa e podemos aplic-la seletivamente a quase todos os aspectos de nossas vidas.

    Viver numa cultura viver num confl ito de interesses. Uma das maiores for-mas de preservar a paz o dom humano de explicar as circunstncias atenuantes. Vi-ver numa cultura estar entrosado em vrias histrias que, na maioria das vezes, no representam um consenso. A perspectiva interpretativa de Bruner (1990) nos explica que o consenso no o mais importante de uma cultura apesar de ser necessrio e de embasar as vises de mundo de quem pertence determinada cultura , mas o relacionamento e as disputas entre diferentes posturas de construo da realidade. A narrativa um dos dispositivos sempre utilizados nestas lutas para manter a sua percepo de mundo. At o poder faz uso dela.

    Bruner assinala que o colapso de uma cultura acontece quando no h mais consenso entre o habitual e o cannico na vida, quando h uma superespecializao retrica da narrativa ou um empobrecimento dos recursos narrativos, que no quer dizer que a experincia no se d mais na forma de narrativa, mas que a histria negativa acaba por dominar a vida diria, ao ponto que outra histria parece no ser possvel.

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    Quanto s discusses da ligao da narrativa com o pessoal e o social, Bruner (op. cit.) reavalia o conceito de si mesmo, muito utilizado na psicologia, afi rmando que este no estaria localizado somente na conscincia privada, mas tambm numa situao histrico-cultural. A cultura reformulada pelo indivduo por meio da refl e-xividade3 que a nossa capacidade narrativa oferece, alm de uma capacidade intelec-tual de visionar alternativas, concebendo outras maneiras de ser, de agir, de falar.

    Estas mudanas na percepo do nosso passado so observadas de forma mais clara nas investigaes narrativas, pois no ato de relatar a refl exividade ati-vada, at mesmo porque ao interagir com outra pessoa o sujeito tem a possibilidade de tentar esclarecer os seus motivos e modos de ser. Dessa forma, estes estudos com-preendem que o entendimento de si mesmo se realiza somente com um esforo interpretativo. O si mesmo uma narrao, pois estamos sempre a contar histrias sobre ns a ns prprios, recuperamos uma memria criando uma nova narrativa. As narrativas obtidas por este estudo contm muito deste esforo de elucidar, criar e recriar explicaes para formas de agir e de pensar.

    Polkinghorne (1988) diz que o nosso prprio autoconceito formado por uma confi gurao narrativa, nossas estrias so revistas constantemente, medida que novos eventos se acrescentam s nossas vidas. O si mesmo no algo esttico ou uma substncia, mas uma confi gurao de eventos pessoais numa unidade narrativa que inclui no s o que fomos, mas tambm antecipaes do que seremos.

    Estas ponderaes nos lembram que as narrativas proporcionadas pelos entre-vistados so totalmente dependentes do contexto em que os mesmos se encontram (e tambm do objetivo com que deram a entrevista). As mesmas poderiam ser totalmen-te diferentes se entrevistssemos anos antes ou anos depois, quem sabe at mesmo na semana seguinte.4 Enfi m, as construes da sua singularidade dependem do con-texto social e histrico, as contribuies so somadas e reformuladas. Para entender as regras em que os seres humanos se fundam, ao criarem signifi cados em contextos prtico-culturais, devemos indagar e interpretar o que a pessoa faz ou tenta fazer em determinada situao e local.

    A narrativa no uma construo livre, ela conta os signifi cados que a pessoa constri para o si mesmo. Para Bruner (1990), a autobiografi a no um registro, mas uma narrao do que se pensa que se fez, em que circunstncias, de que formas, por que razes. um relato feito no presente por um narrador, sobre o processo de construo de um protagonista que tem o seu nome e existiu num passado, desem-bocando a histria no presente, onde o protagonista se une com o narrador.

    Ento, o narrador no pode falar de si no passado? Pode, mas este de quem ele fala no representa mais o que ele no presente, ele aprende e reconstri a sua forma de pensar. Por isso, muitas pessoas dizem que no fariam mais o que

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    fi zeram. O arrependimento uma interpretao do passado. Contudo, nem s de arrependimentos vivem os relatos. Muitas vezes, o indivduo no tem certa moti-vao para o seu ato, mas ele depois a encontra e justifi ca as suas aes por estas novas descobertas.

    Consideramos o entrevistado como este narrador que busca no ato de con-tar as explicaes que muitas vezes ele queria ter tido ou que s descobriu depois. Com esta elucidao demarcamos que uma narrativa no a verdade tal como acon-teceu, mas uma interpretao da pessoa que tambm ser por ns interpretada. S mediante a interpretao podemos fazer jus ao mundo cultural.

    A psicologia comum um exerccio da narrativa e do contar histrias que se suporta por uma poderosa estrutura de cultura narrativa. O si mesmo, ou eu, no isolado na conscincia de cada um, mas interpessoalmente distribudo, vai buscar signifi cado nas circunstncias histricas que do forma cultura (Bruner, 1990).

    Algumas verses pessoais do si mesmo podem ser preferidas a outras, pos-sivelmente por causa das concepes ofi ciais, ou foradas, serem utilizadas para estabelecer um controle poltico ou hegemnico de um grupo sobre o outro. Muitas pesquisas narrativas destacam esse controle, por exemplo, do domnio das concepes machistas na cultura ocidental frente s biografi as e maneiras de contar das mulheres.

    Entretanto, o controle pode ser alvo de resistncias. Gudmundsd ir (2001) ex-prime que uma narrativa de si mesmo pode tornar-se emancipatria, quando vai alm do mito da subjetividade unifi cada e permite a validao do confl ito como uma fonte em que os grupos minoritrios tornam-se fortes e falam de suas prprias experincias.

    Podemos concluir que nossa individualidade no contm uma identidade imutvel, mas algo que construmos socialmente no decorrer de nossas vidas e que muda constantemente. As narraes de ns mesmos nos ajudam a construir nosso signifi cado, tanto para cada um quanto para os outros na sociedade.

    As investigaes que utilizam narrativas tornam possvel o relato das experi-ncias no s dos legitimados, mas das minorias, possibilitando que se ouam outras vozes, alm das que respondem pelas deliberaes. A potencialidade destas novas vozes pode mostrar que as discriminaes e papis so provocados por foras so-ciais, mas que pode haver uma resistncia a estas determinaes.

    A narrativa como investigao

    por intermdio das perspectivas franqueadas por um posicionamento crtico avesso s antinomias que podemos situar as narrativas como um elo entre o prtico e

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    o terico. No pensamento acadmico a separao das formas de conhecimentos em cognitivo versus emocional tem recebido um novo signifi cado. Um dos responsveis por esta mudana tambm foi Jerome Bruner, que argumenta que o conhecimento narrativo mais do que mera expresso de emoo, sendo uma forma legitimada de raciocnio de saber.

    Ele prope dois tipos de cognio ou racionalidade (Bruner, 1986), dois modos de pensamentos que se completam. Estes no representam uma oposio, mas sim a complementaridade. Para capturar a rica diversidade da cognio no se pode ignorar nenhum destes dois conhecimentos. preciso analis-los para compreender as diferentes maneiras de se lidar com a experincia. Cada maneira de conhecer tem princpios e critrios especfi cos, diferem nos procedimentos de verifi cao e na forma de argumentao. Os dois tipos de cognio descritos por Bruner (op. cit.) so:

    Paradigmtico: o conhecimento tomado por regras e prescries, onde o saber s pode existir se for proposital, formal e cientfi co. Este modelo infl uenciado pelos mtodos positivistas.

    Narrativo: o conhecimento prtico, abarca o saber popular construdo de modo biogrfi co-narrativo. Os mtodos utilizados por este conhecimento so hermenuticos, interpretativos e narrativos. Os discursos so apre-sentados com sentimentos, aes, estrias e imagens.

    O conhecimento paradigmtico classifi ca os indivduos, anulando as dife-renas individuais, e baseia-se na lgica cientfi ca, em um sistema matemtico de ex-plicao e descrio. Ele emprega a conceitualizao ou categorizao como opera-es para que sejam estabelecidas as categorias, idealizadas e relatadas para formar um sistema pelo qual as proposies gerais so extradas dos contextos particulares. A aplicao deste conhecimento leva construo de uma teoria baseada em an-lises, provas lgicas e descobertas empricas guiadas pelo raciocnio acerca de uma hiptese, buscando sempre transcender as particularidades.

    Polkinghorne (1995) ressalta que o importante na cognio paradigmtica classifi car uma instncia particular como categoria, ou conceito, defi nindo-a como um ponto de caractersticas comuns s investigaes. Os conceitos gerais podem in-cluir subconceitos ou subcategorias e em cada um determina-se um atributo peculiar chamado diferena especfi ca. O conhecimento paradigmtico foca no que co-mum entre as aes, mantido por palavras individuais que nomeiam um conceito.

    De modo contrrio, a cognio narrativa parte do pressuposto de que as aes so nicas, assim no h como exibi-las em defi nies, categorias ou propo-sies abstratas. O conhecimento narrativo dirigido ao entendimento da ao hu-mana e mantido por estrias enredadas que retm a complexidade da situao,

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    enfatizando o particular e as caractersticas especiais de cada ao, possibilitando compreender como os indivduos do sentido ao que fazem. Por isso, no deve ser reduzido a um conjunto de categorias abstratas ou gerais que anulem sua singula-ridade.5

    O efeito cumulativo do raciocnio narrativo uma coleo de casos indivi-duais em que o pensamento move de caso para caso, em vez de casos para genera-lizao. Essa coleo de casos providencia uma base para entender novas aes por meio da analogia. O entendimento analgico reconhece a improvisao e mudana que compem a variabilidade fl exvel do comportamento humano.

    Bolvar, Domingo e Fernndez (2001) apresentam a investigao narrativo-biogrfi ca como um enfoque prprio ou perspectiva especfi ca (no um mtodo e vai alm de uma estratgia metodolgica6). Tem chegado a ser um ramo da inves-tigao interpretativa que comparte alguns dos princpios metodolgicos da inves-tigao qualitativa,7 mas que introduz algumas fi ssuras na investigao qualitativa habitual (como o fato de que a experincia vivida no algo a captar, mas criada no prprio processo investigativo).

    A investigao narrativa baseia-se em uma epistemologia construtivista e in-terpretativa e tem como pressupostos o entendimento: que a linguagem media a ao; que a narrativa a estrutura central do modo como os humanos constroem os sentidos, ou seja, o curso de vida e a identidade pessoal so vividos como uma narrao; que a trama argumental confi gura o relato narrativo; que temporalidade e narrao formam um todo (o tempo constitui signifi cado); que as narrativas cultu-rais e individuais esto interligadas (Bolvar, Domingo & Fernndez, op. cit.).

    Nela, as prescries de uma metodologia (as receitas de cozinha) no levam muito longe e no asseguram nada, pois em uma perspectiva mais interpretativa o signifi cado dos agentes se converte no foco central da investigao e abarca-se a dimenso emotiva da experincia, a complexidade, relaes e singularidade de cada ao (que no possvel de ser rigorosamente controlada). Por isso, a investigao narrativa um enfoque interdisciplinar (envolve vrias questes), um novo campo de investigao, reorganizado a partir de fundamentos fi losfi cos e epistemolgi-cos prprios e que compreende qualquer forma de refl exo oral ou escrita que em-pregam a experincia pessoal. Mas como o relato no fala por si mesmo, deve ser organizado e conceitualizado, e dependente da interao social estabelecida entre informante e investigador (idem, ibid.).

    Os relatos narrativos podem apresentar-se de vrias formas (fi lmes, bal, contagens orais, entre outros) e tambm podem receber a contribuio de vrias tcnicas,8 alm da entrevista gravada e transcrita, ou seja, no exclui outros meios escritos.9 No entanto, em qualquer investigao narrativa estes so complementa-res entrevista, pois a oralidade a fonte mais importante e, por isso, a entrevista

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    narrativa10 essencial, transformando-as em formato escrito atravs de transcri-es. O seu resultado uma estria apresentada de vrias maneiras11 (Polkinghor-ne, 1995; Bolvar, Domingo & Fernndez, 2001).

    A distino efetuada por Bruner entre cognio narrativa e cognio para-digmtica proporcionou a refl exo de alguns autores, distinguindo duas formas de anlise nas investigaes narrativas. De acordo com Polkinghorne (1995), ambas con-tm princpios gerais da investigao narrativa, mas o fazem de forma diferente:

    A anlise narrativa paradigmtica, ou anlise de narrativa, baseia-se em dados consistidos de narrativas ou estrias, mas cujas anlises produ-zem tipologias ou categorias paradigmticas, sendo utilizados como ele-mentos ou base comum de dados. Coletam-se relatos estoriados para os dados, usando um processo que identifi ca aspectos como instncias de categorias. A investigao narrativa do tipo paradigmtico produz co-nhecimento de conceitos.

    A anlise narrativa, propriamente dita, opera com elementos combinados entre uma estria enredada, coletando descries de eventos, aconteci-mentos, aes, cujas anlises produzem estrias (por exemplo: biografi as, estrias, estudos de caso). A anlise narrativa produz conhecimento de situaes particulares.

    Bolvar (2002) explica que a razo paradigmtica encontra-se presente tanto em investigaes quantitativas quanto em qualitativas. A diferena est na defi nio das categorias antes da recolha de dados nas investigaes quantitativas de anlise nar-rativa paradigmtica e, a posteriori, na investigao qualitativa (sendo induzidas ou emergindo dos dados). Dessa forma, Bolvar, Domingo e Fernndez (2001) demarcam que, no fundo, seguem a mesma lgica do questionrio: tratamento qualitativo de ma-terial qualitativo; empregam com fi m ilustrativo partes selecionadas das entrevistas.

    A anlise de narrativa paradigmtica pode ser utilizada para examinar os da-dos, identifi cando o particular como instncia de conceitos gerais e localizando os temas comuns ou manifestaes conceituais entre as estrias/dados coletados. No entanto, tambm pode enfatizar a construo ou descoberta de conceitos que do identidade categrica aos itens em seus dados coletados, assim como para anotar os relacionamentos entre categorias (Bolvar, 2002).

    A rede de narrativas sustentada e transportada atravs da linguagem local e das experincias individuais. Por isso, Bolvar (2002) indica que comum a utili-zao de citaes da entrevista, com fi ns ilustrativos, para apoiar o que previamente se tem determinado em anlise quantitativa. Destacamos, por isso, que importan-te aproveitar o ponto forte do procedimento paradigmtico, que sua capacidade para desenvolver conhecimento geral sobre uma coleo de estrias e os seus pontos

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    comuns. Mas a espcie deste conhecimento, entretanto, abstrata e formal e no contempla os aspectos nicos e particulares de cada narrativa. Por isso, necessrio complement-lo com a investigao narrativa.

    Tanto Bolvar (2002) quanto Polkinghorne (1995) demonstram que a preocu-pao da anlise narrativa (propriamente dita) detm-se em colecionar casos indivi-duais no para generalizar cada um sobre uma categoria, mas para efetuar analogias, onde os indivduos podem ter aspectos similares a outros, ou singulares. Baseia-se em uma narrativa particular, mas com fi m de expressar a vida individual de modo autntico, sem manipular a voz dos participantes.

    A investigao paradigmtica fragmenta o discurso em elementos codifi c-veis, mas concordamos com Bolvar (2002) que o investigante no deve s tomar nota e classifi car o discurso, ele precisa decifrar signifi cativamente os componentes e dimenses relevantes das vidas dos sujeitos, situando os relatos narrativos em um contexto que tome um sentido mais amplo.

    Defendemos que devemos ir alm do discurso do entrevistado, sem categori-z-lo a priori, superando a colagem de fragmentos do texto e penetrando no comple-xo conjunto de smbolos que as pessoas usam para conferir signifi cado ao seu mun-do e vida, descrevendo os relatos de forma que obtenha sentido. H uma frequente crtica de que insufi ciente tanto uma postura ilustrativa, que se limita a fazer um uso seletivo das palavras dos participantes, ao servio do que querem mostrar os investigadores, quanto uma postura hiper-realista,12 que trata de dar todo o valor s prprias palavras dos participantes, como se as palavras fossem por si mesmas transparentes.

    A forma de se analisar, que possibilita tomar em considerao estes aspectos, seria a investigao narrativa (Bolvar, 2002). Esta metodologia emprega uma espcie de viso binocular (uma viso dupla) que, por um lado, contextualiza a realidade interna do informante e, por outro lado, inscreve o relato em um contexto externo que aporte signifi cado e sentido realidade vivida pelo informante. As experincias devem ser situadas dentro de um conjunto de regularidades scio-histricas, mas sem desdenhar que o relato de vida nico e singular.

    O processo de anlise narrativa deve sintetizar um agregado de dados em um conjunto coerente, em lugar de separ-lo por categorias. Os relatos obtidos devem resultar em uma trama argumental que determina quais elementos devem ser inclu-dos, com que ordem e com que fi m.

    Entendemos que, em nossa atual conjuntura, a escrita da investigao narra-tiva joga-se entre no sacralizar os relatos, nem assimil-los aos modos tradicionais paradigmticos de conhecer. Bolvar sugere que o prprio texto narrativo no pode deixar de ser narrativo, ou seja, que o estilo de redao deve reorientar as prticas

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    convencionais de investigao. Assim, defendemos uma escrita feita pelo investiga-dor dos prprios relatos, mas tentando aproxim-los o mximo possvel das falas (adequando-as s normas da escrita, para tornar a leitura mais fl uente), revelando no s os pontos comuns nas estrias, mas sim suas diferenas e singularidades.

    No podemos esquecer, reportando-nos aos trabalhos de Polkinghorne e Bolvar, que as duas formas de investigao (narrativa e paradigmtica) tm muito a contribuir nas nossas investigaes e podem ser complementares. Enfi m, como afi rmam Bolvar, Domingo e Fernndez (2001), estes dois tipos de investigao no so dicotmicos, ambos contribuem para gerar conhecimento e podem se comple-mentar. Eles assumem que a anlise narrativa pode no chegar a cobrir alguns in-teresses da investigao e, assim, pode ser necessria uma anlise de dados catego-rial. Alm disso, ignorar que a narrativa determinada por uma poltica e que faz parte de um contexto social mais amplo pode exercer uma funo conservadora.

    Nosso objetivo, ento, propor uma anlise enredada, que pode at conter categorias, mas que no as busca acima de tudo, menosprezando as particularidades de cada relato. Polkinghorne (1995) prope uma investigao narrativa enredada ou estoriada,13 que utiliza anlise narrativa sem fi ns de classifi cao e ordenao. Os eventos e aes so desenhados em um inteiro organizado pelos signifi cados de um enredo, que um esquema conceitual pelo qual o signifi cado contextual dos eventos individuais pode ser exibido.

    O estudo do enredo possibilita compreender a estrutura narrativa atravs da qual as pessoas entendem e descrevem os relacionamentos entre os eventos e esco-lhas de suas vidas, o intervalo temporal, a criao de critrios para selecionar eventos a serem includos na estria (ou at os acontecimentos externos que possam contextu-aliz-la), ordenando os eventos at culminar numa concluso. Nas estrias recolhidas as pessoas tentam dar um seguimento temporal linear, pois presumem que esta a forma como o tempo se apresenta (nossa aprendizagem histrica geralmente nos leva a pensar desta forma) e oferece sentido sua estria (Polkinghorne, 1995).

    Dessa maneira, a tarefa do investigador primeiramente confi gurar os ele-mentos em uma estria que une e d signifi cado aos dados. Depois, requer-se uma tarefa analtica para desenvolver ou descobrir um enredo que demonstra a ligao entre os elementos, o que culmina na soluo da estria.

    Clandinin e Connelly (1991) consideram que a anlise narrativa produz uma estria que no pertence a um indivduo. Ela demonstra o encontro de duas narra-tivas, do participante e do investigante, que se tornam, em parte, uma construo narrativa partilhada e reconstruda atravs da investigao. Durante a contagem e recontagem, o emaranhado de relatos torna-se agudo e os horizontes temporais, sociais e culturais so fi xados e re-fi xados.

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    A este propsito, salientamos que no h como o investigador fugir de adicio-nar a sua prpria voz no processo de pesquisa, indagando sobre o motivo da nar-rativa ter sido dita de determinada forma. Respondendo a estes questionamentos, os participantes podem penetrar mais profundamente em outras experincias para traar a emocionalidade anexada sua forma particular de estoriar eventos.

    A experincia humana tem uma qualidade estoriada que s pode ser interpreta-da de maneira qualitativa, pois cada indivduo descreve narrativamente a sua vivncia passada (como criana, docente, investigador ou componente de certo grupo), sempre reanalisando dentro do seu contexto atual profi ssional, histrico, social.

    A interao entre investigante e praticante guia um contar e recontar mtuo e colaborativo. Isso permite entender a mudana em suas prticas. O praticante par-ticipante e o investigante participante tm diferentes objetivos na investigao narrativa, que se apresentam na sua ampla narrativa social. O praticante expressa seu reestoriar nas relaes redivididas no seu contexto de trabalho. O investigante quer reestoriar a sua prtica e a sua narrativa, mas tambm quer recontar a narrativa com o objetivo da sua estria ser lida pelos outros, necessitando igualmente de de-senvolver construes tericas (Clandinin & Connelly, 1991).

    Portanto, como investigantes, objetivamos uma maior audincia dos relatos e necessitamos que esta investigao narrativa seja partilhada. Os relatos narrativos podem ser vistos por outrem como narraes de suas prprias estrias, que, espe-ramos, possam suscitar nos leitores uma vontade de recontar/rever as suas prprias estrias e indagaes sobre a prtica.

    Mas no precisamos somente que o nosso texto seja partilhado. Como inves-tigadores, necessitamos tanto de construes tericas como da narrativa estoriada e, por isso, escolhemos os dados que sero recolhidos dependendo do foco da nossa in-vestigao. Isso pressupe uma delimitao de estudo que deve entrelaar os relatos individuais (que providenciam um entendimento das idiossincrasias e complexida-des particulares), mas de modo que nem todos os dados precisem constar no relato fi nal da estria (pois nem sempre so necessrios para o enredo).

    As ponderaes de Polkinghorne (1995) guiam-nos neste processo e conside-ram a anlise de dados narrativos como um procedimento atravs do qual o investi-gante organiza os elementos em um relato coerentemente desenvolvido, sintetizando os dados em vez de separ-los em suas partes constituintes. O autor adverte-nos que a anlise de dados narrativos no est presente em todo tratamento de dados, mas somente quando o investigante confi gura os elementos em um inteiro coerente.

    Enfi m, para tentar contornar as dvidas, que so as marcas de qualquer in-vestigao social expressiva, imprescindvel considerar as questes prticas. Isso pressupe que estudar como as pessoas narrativizam a experincia necessita de

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    tcnicas de pesquisa mais cuidadosas para no suprimir ou cortar os entrevistados, quando eles desatam a contar histrias. Dessa forma, intensifi cam-se no s os cuidados, mas a busca das bases narrativas para as investigaes.

    A prtica est presente na construo narrativa, na sua concepo como expe-rincia pessoal temporal. Por isso, devemos considerar que, ao narrar, um indivduo encontra-se em um processo de recriao de si mesmo, um processo que visualiza o passado frente s perspectivas presentes, mas organizando-se para o futuro.

    A investigao narrativa na educao: enfatizando o quotidiano escolar

    A anlise narrativa insere-se nos campos de investigao educacional com grande fora, por possibilitar a compreenso das prticas, motivaes e escolhas que so amplamente calcadas na experincia humana. A escola, como instituio, est cheia de complexidade, tendo sua base construda no seio das instituies sociais, mas sendo composta por indivduos que contribuem para a continuidade da mes-ma. preciso entender as escolhas pessoais para poder compreender mais acerca da escola e da atividade educacional.

    As narrativas apresentam-se como possibilitadoras de um conhecimento mais amplo do professorado e da escola. At porque, como lembram Bolvar, Domingo e Fernndez (2001), o relato constitui a matria mesmo do ensino, dentro do qual o trabalho dos mestres adquire sentido, o conhecimento do professor se apresenta organizado narrativamente. Eles so contadores de histrias e o territrio do co-nhecimento profi ssional est construdo narrativamente. Assim, nos aproximamos do seu quotidiano ao empregar este artifcio to comum sua experincia diria, que libera o conhecimento dos seus aspectos emotivos, que so inseparveis da sua forma de trabalho.

    Bolvar, Domingo e Fernndez (op. cit.) expem que a investigao narrativa permite entender como os docentes do sentido ao seu trabalho e como atuam em seus contextos profi ssionais, como o professorado constri seu saber profi ssional e como a refl exo que colocada pela narrativa pode ser (ela mesma) formativa. A nar-rao da experincia o modo como o docente integra sua teoria e prtica de ensino. Portanto, contar e recontar a sua experincia so uma boa estratgia para refl etir sobre sua prpria identidade e para desidentifi car-se de prticas j realizadas ou antecipar o que se deseja fazer/ser.

    Resgatar a dimenso pessoal do ofcio de ensinar um modo de opor-se ao professorado annimo, sem nome e impessoal. A investigao narrativa uma for-ma de dar voz aos professores sobre suas preocupaes e suas vidas, supe uma

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    fi ssura nos modos habituais de compreender e investigar, pois qualquer generaliza-o acerca do ensino signifi caria uma distoro das histrias reais dos professores, j que os relatos destes no so vdeos que refl etem a realidade, so construes (Bolvar, Domingo & Fernndez, 2001).

    Bolvar (2002) indica que os relatos docentes so construes sociais que ofe-recem determinados signifi cados s aes e, dessa maneira, devem ser analisados nas investigaes tanto de forma paradigmtica, quanto de forma narrativa. As bio-grafi as dos professores podem oferecer possveis explicaes do porqu de dizerem o que dizem.

    Clandinin e Connelly (1991) percebem que estoriar e reestoriar uma vida um mtodo fundamental de crescimento pessoal, sendo uma qualidade funda-mental da educao. Portanto, uma investigao narrativa deve construir-se nesse processo de desenvolvimento, descrevendo e reestoriando a estrutura narrativa da experincia educacional. O relato do investigador deve prender-se neste reestoriar dos eventos, que tm uma dimenso contnua com os processos refl exivos que acon-tecem em cada uma de nossas vidas escolares.

    Os estudos de vida e as narrativas dos professores possibilitam aceder a uma informao de primeira ordem para conhecer de modo mais profundo o processo educativo, um meio para que os professores refl itam sobre sua vida profi ssional e compreendam, em seus prprios termos ou vozes, como eles mesmos vivem seu tra-balho e tomam esta compreenso para mudar o que no gostam no seu trabalho e na sua atuao profi ssional (idem, ibid.).

    No entanto, no podemos esquecer de que precisamos relacionar as narrativas individuais dos professores com um contexto histrico mais amplo, pois cada pro-fessor nico e s se pode compreend-lo desde sua prpria trajetria biogrfi ca in-dividual; ao mesmo tempo, cada professor apresenta aspectos comuns dentro de um grupo particular de professores com quem compartilha uma mesma historia; igual-mente, cada professor apresenta aspectos gerais compartilhados com os companhei-ros (de sua gerao, do mesmo ciclo de vida etc.). Assim, no basta limitarmo-nos a recolher o que dizem os docentes, pois o narrado est determinado por uma poltica educativa e curricular, que forma parte de um contexto social mais amplo. Silenciar estes determinantes pode, implicitamente, exercer uma funo conservadora, pois santifi car a narrativa dos professores pode querer substituir um paradigma domi-nante por outro, sem alterar a dominao (Bolvar, Domingo & Fernndez, 2001).

    A educao no uma verdade objetiva (em forma de leis empricas que mos-trariam a conexo entre conduta do professor e resultados de aprendizagem dos alunos). Dessa forma, os investigadores da educao no se dirigem a estabelecer o carter objetivamente verdadeiro dos acontecimentos, buscando verifi car o que diz

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    o relato, mas a refl etir como tem sido vivido subjetivamente pelo sujeito. A tarefa ajudar os professores a melhorar o que fazem, no prescrever o que tm que fazer (idem, ibid.). Portanto, a investigao narrativa caracteriza-se tanto pela ateno cui-dadosa autoridade interpretativa do investigador, quanto pela relevncia da voz do informante. Realizar este tipo de investigao na educao signifi ca um impacto na prtica educativa, envolvendo os professores como scios da pesquisa.

    As pessoas que investigam a educao esto abandonando gradualmente a bus-ca da grande verdade, estando cada vez mais satisfeitos com a descrio de processos locais, teorizando acerca de problemas especfi cos. Propomos que a tarefa da narrativa seja esclarecer os dilemas da prtica, que geram os pensamentos. Por conseguinte, no h melhor campo para ela se alastrar do que na educao. Pois, ao efetuar um olhar mais detido sobre o seu passado, o professor tem a oportunidade de refazer o seu per-curso,14 os desdobramentos desta anlise revelam-se fecundos para estampar novos signifi cados s experincias passadas e reformular as prticas futuras.

    As narrativas escolares apresentam o contexto escolar e podem tentar libertar a pesquisa da coero narrativa, que marca um s discurso explicador legitimado como correto, deixando de ouvir os outros discursos. Existem muitos desafi os da investigao narrativa sobre a escola. Um deles a necessidade de alargar as unida-des de anlise para que possamos nos manter prximos da experincia, de quem a vivencia, da lngua prtica e das vidas dos professores.

    Notas

    1. Ao contrrio, o indivduo nasce confuso e se integra no esquadrinhamento disciplinar, emergindo-se como alvo do poder. Assim ele no esmagado pelo poder, mas produzido por este.

    2. Os autores descrevem a socializao primria como a primeira socializao ocorrida na infncia que introduz o individuo no s na sociedade, mas tambm em determinada localizao na sua estrutura social, com escolhas inerentes s suas idiossincrasias individuais. O primeiro mundo do indivduo construdo neste perodo de socializao.

    3. Nossa competncia de alterar o presente, voltando ao passado, ou alterar o passado luz do presente.

    4. Um simples evento pode mudar a maneira com que a pessoa descreve sua narrativa.

    5. O coletivo vai alm do somatrio das aes individuais, e as singularidades tambm so mais do que uma parte da coletividade.

    6. Como a entrevista biogrfi ca.

    7. Toda investigao qualitativa tambm narrativa, de forma ampla, pois seus informes esto cheios de narrativas (Bolvar, Domingo & Fernndez, 2001).

    8. Como notas de campo, jornais, cartas, dirios, planos de aulas, entrevistas transcritas...

    9. At porque a quantidade de dados gravados/transcritos com que um investigador pode trabalhar limitada. Assim, o apoio de outras tcnicas pode ser importante para melhor compreender um problema.

    10. Com um roteiro com perguntas temticas que estimulam o entrevistado a recontar sua vida.

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    11. Como narrativa histrica, estudo de caso, histria de vida, episdio narrado da vida de algum...

    12. Ou utopia biogrfi ca, que faz uma mera descrio e renncia da explicao terica.

    13. A aplicao da palavra estria, ao invs de histria, no efetuada pelo autor por esta carregar uma conotao de falsidade, mas para mostrar que a narrativa evidencia uma viso do mundo cul-tural/ideolgica, compreende a complexidade da ao humana, mas tambm legitima e relativiza valores/objetivos que combinam uma sucesso de incidentes em um episdio unifi cado (Polkin-ghorne, 1995, p. 7).

    14. Bolvar, Domingo e Fernndez (2001) descrevem que a maioria dos relatos constitui-se em torno de sucessos (valorados positiva ou negativamente), as narrativas de professores so cheias de elementos autoavaliativos, adotando uma escala valorativa. A comparao de cada histria bio-grfi ca de vida possibilita ver padres concorrentes, temas comuns e divergncias nas trajetrias do professorado.

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    Recebido em dezembro de 2008.

    Aprovado em setembro de 2009.