(Viena, 1881 Rio de Janeiro, 1942) - ?· reduzindo-se a competir com as atuais realidades”.4 Anos…

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  • STEFAN ZWEIG

    (Viena, 1881 Rio de Janeiro, 1942)

    Stefan Zweig

    Fotgrafo no identificado, s/d

    Arquivo Casa Stefan Zweig, RJ

  • A bela alma, carente-de-efetividade,

    vive na contradio entre seu puro Si

    e a necessidade que ele tem de extrusar-se

    para [tornar-se] ser e converter-se em efetividade,

    na imediatez dessa oposio consolidada;

    uma imediatez que s meio-termo

    e a reconciliao da oposio

    elevada sua abstrao pura,

    e que o puro ser ou o vazio nada.

    Essa bela alma portanto, como conscincia

    dessa contradio de sua imediatez no-reconciliada,

    transtornada at a loucura,

    e definha em tsica nostlgica.1

    Georg W.H. Hegel

    Phnomenologie des Geistes, 180

    1 HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do Esprito. Parte II. Petrpolis: Editora Vozes, 1999, 4 ed. Trad.

    Paulo Meneses, com a colaborao de Jos Nogueira Machado, p. 140.

  • 3

    O mundo impossvel de Stefan Zweig [Parte 1]

    Todos sabemos por experincia como a tendncia humana para a auto-iluso gosta de declarar perigos como nulos e vazios mesmo quando

    sentimos em nossos coraes que eles so reais.2

    Esta reflexo, extrada da introduo do livro de Stefan Zweig Beware of Pity

    [Cuidado com a Piedade] (1939) parece refletir a maneira como alguns analistas e

    pessoas que, prximas ou distantes ao crculo do autor vienense, optaram e optam por

    abordar sua trajetria. Para muitos, a auto iluso teria sido uma das caractersticas mais

    marcantes de algum que, segundo eles, mesmo beira da catstrofe, no teria

    entendido a histria de seu tempo.

    Aproximando-nos sua obra, porm, possvel afirmar que seu aparente

    distanciamento era somente isso: aparente. Suas produes, assim como sua

    autobiografia escrita em meio a um exlio que ele mesmo tornaria irreversvel, revelam

    sua total conscincia quanto realidade sua volta e quanto morte iminente no s de

    seu mundo de ontem como intitulou sua autobiografia mas tambm do mundo

    futuro no qual desejava viver. A realidade, tal como se apresentava, inviabilizou sua

    permanncia no que havia restado do mundo, em meio ao cenrio nu, cru e brutal

    daqueles primeiros anos da dcada de 1940, quando Zweig decidiu tirar a prpria vida a

    milhares de quilmetros de sua Viena natal, destroada pela materializao dos perigos

    nulos e vazios que avanavam pela a Europa.

    Ao mesmo tempo, tendo conseguido entender o que estava em jogo, e

    percebendo as novas regras para as quais a humanidade era arrastada, sentiu as

    limitaes de seu prprio agir e ser em seu prprio tempo. Aquele no era um mundo

    para um homem que se opunha com veemncia a todo tipo de violncia e que queria

    combater desmandos com ideias; armas com livros. O sonho de uma Europa unida

    havia se transformado no pesadelo de uma Europa sequestrada e aglutinada nos termos

    de uma ideologia genocida. Naquele mundo, no havia audincia ou plateia para Zweig.

    Era um mundo em que, mesmo homens de ideias, mesmo humanistas tal como ele, eram

    chamados para cumprir outro papel. O radicalismo ao qual havia que enfrentar-se era de

    outra espcie.

    Um contemporneo de Zweig, o autor britnico George Orwell (1903-1950),

    chegou a definir o pacifismo como sendo pr-fascista. Certamente, quando extrada do

    contexto em que foi formulada como se faz frequentemente esta afirmao parece

    desproporcional; no entanto, ao descontextualiz-la em relao restante do texto e ao

    momento em que Orwell a escreveu, deixamos de entender os termos do que foi

    proposto por seu autor que prossegue: Se voc prejudicar o esforo de guerra de um

    lado, automaticamente ajudar o outro. Tambm no h uma maneira real de

    permanecer fora de uma guerra como a atual.3 No h como afirmar o que Zweig

    pensava nos dias que antecederam seu suicdio, mas, caso tivesse visto alguma verdade

    nas palavras de Orwell reafirmaria a certeza de que o mundo no era mais para ele.

    2 ZWEIG, Stefan. Beware of Pity. London: Pushkin Press, 2011, 1 ed., 1939. Edio eletrnica para

    Kindle. Introduo. (traduo nossa) 3 ORWELL, George. Pacifism and the War. Publicado pela primeira vez na edio de agosto-setembro

    de 1942 do peridico Partisan Review. In, The Collected Essays, Journalism and Letters of George

    Orwell, 1940-1943. New York: Harcourt, Brace & World, 1968, p. 153-155 (traduo nossa)

  • 4

    No era s a guerra que rugia naquela Europa-refm. A chegada ao poder do

    nazismo implicava talvez seu mais srdido aspecto: a viso de um mundo sem judeus. A

    violncia retrica e propagandstica somada s aes concretas do nazismo mostravam

    que a misso humana espiritual, cosmopolita, supranacional, unificadora que Zweig

    acreditava ser o destino reservado dispora judaica, havia atingido seu ponto

    culminante, ponto este que at o final da guerra, para 6 milhes de judeus, resultaria

    fatal.

    Dcadas antes, em 1917, quando suas ideias comeavam a evoluir na direo de

    um pacifismo radical, Zweig explicava em uma carta ao filsofo judeu-vienense Martin

    Buber (1878-1965), que se sentia separado em relao s ideias de seu interlocutor (...)

    pelo fato de que eu nunca desejei que o judasmo voltasse a ser uma nao novamente,

    reduzindo-se a competir com as atuais realidades.4 Anos mais tarde, em outra carta,

    esta endereada ao poeta austraco Mark Scherlag (1872-1962) um apaixonado

    sionista em 22 de julho de 19205, reiterou seu ponto de vista.

    Em 1933, no entanto, as atuais realidades que Zweig mencionava na carta a

    Buber, iriam comear a revelar seu lado mais sombrio, momento este em que a unio

    em esprito desejada por Zweig foi convertida pelos idelogos nazistas em raa e, no

    dizer de Hannah Arendt, materializada na primeira nao europeia qual Hitler

    declarou guerra6.

    Ao deparar-nos com estas declaraes, e, como veremos adiante, com a prpria

    trajetria biogrfica de Zweig, possvel perceber que no foi por acaso que Arendt o

    escolheu como modelo e alvo de ferozes crticas, assim como contraponto ao seu

    conceito de judeu como pria, ou seja, aquele que percebe que somente pode viver

    como homem dentro do marco de um povo, em solidariedade com seu prprio povo

    para assim contribuir ao estabelecimento na terra de uma humanidade condicionada de

    maneira comum e controlada de maneira comum. 7

    Para Arendt, Zweig havia sido a quintessncia do que denominou parvenus, ou

    seja, judeus assimilados que, segundo ela, idealizaram a cultura europeia do final do

    sculo e que, atravs de fortuna e fama, e ignorando a poltica isolaram-se de seu

    4 Em relao a meus sentimentos como judeu, nunca me senti to livre quanto agora, em dias de delrio

    nacionalista. Estou separado de voc e de seus apoiadores pelo fato de que eu nunca desejei que o

    judasmo se tornasse uma nao novamente, assim reduzindo-o a si mesmo a competir com as presentes

    realidades. Amo a Dispora e a apoio por causa de seu idealismo, assim como de seu chamado humano e

    universal. / No desejo nenhuma outra unio que no seja em esprito, o nico fator real que temos em

    comum, nunca em uma lngua, em nao, em costumes e hbitos snteses belas mas perigosas./ Vejo a

    presente situao como a melhor para o ser humano: a de ser uma entidade sem lngua, sem laos, sem

    ptria unida somente pela aura da entidade. Qualquer unificao mais prxima e tangvel me parece

    uma diminuio desta situao sem paralelo. A nica qualidade que devemos reforar no ver esta

    situao como humilhao, mas aceit-la com amor e com plena conscincia, como eu fao. (...). Carta

    de Stefan Zweig a Martin Buber, 24 de janeiro de 1917. O fragmento em questo encontra-se na pgina 3

    da referida carta. Fonte: Arquivo da National Library of Israel. Disponvel em: www.gizra.github.io/CDL/

    (traduo nossa) 5 Eu vejo a misso dos judeus na esfera poltica a de desenraizar o nacionalismo em todos os pases, para

    assim provocar uma conexo que seja puramente espiritual e intelectual. por isso que eu rejeito o

    nacionalismo judaico, porque arrogncia e desejo de estar separado so parte do pacote: tendo semeado

    nosso sangue e nossas ideias por 2000 anos, no podemos voltar a ser uma pequena nao em um canto

    da regio rabe. Nosso esprito cosmopolita como os tornamos o que somos, e se temos que sofrer

    por isso, ento que seja; nosso destino. Citado em MATUSCHEK, Oliver. Three Lives. A Biography of

    Stefan Zweig. London: Pushkin Press, 2011, edio eletrnica para Kindle; Parte II The House on the

    Hill (traduo nossa). 6 ARENDT, Hannah. The Jewish Writings. New York: Schocken Books, 2007, p. 136 (traduo nossa). 7 Ibidem, p. 297, (traduo nossa).

    http://www.gizra.github.io/CDL/

  • 5

    prprio povo.8 Mas segundo ela, a poltica e fundamentalmente a poltica do

    antissemitismo, iriam no final encarregar-se de levar a todos, assimilados e no-

    assimilados, parias e parvenus, para o mesmo lugar9. Nos anos 1920 e 1930, o campo

    socialista tambm no poupara crticas a Zweig por suas posies apolticas face ao

    crescimento do fascismo e do nazismo.

    Por outro lado, a escolha de Zweig como alvo, tanto por Arendt do campo do

    sionismo, quanto dos socialistas e antifascistas, era tambm derivada da prpria estatura

    de Zweig como um dos autores mais lidos na Europa, um intelectual pblico, mas que

    insistentemente se recusava a atender ao chamado para o engajamento em um contexto

    de intensa crise poltica.

    Mas essa havia sido a escolha de Zweig, a de ser uma bela alma, que no

    conceito hegeliano, posteriormente, consciente da contradio de sua imediatez no-

    reconciliada, transtornada at a loucura. Suas obras sem dvida revelam a forma

    como essa alma via o mundo transformando-se ao seu redor, seu mundo de ontem que

    se autodestrua a passos largos. Mas, qual era o mundo de Stefan Zweig?

    As famlias Zweig e Brettauer: o caminho para a emancipao

    Stefan Zweig nasceu em 28 de novembro de 1881; o lugar: a Viena da

    monarquia dos Habsburgos, que, tal como relata em suas memrias, que escreveu em

    seus ltimos anos de vida, era um grande e poderoso imprio 10. Mas, tambm alerta:

    No o procurem no mapa; foi extinto, sem deixar vestgio.11

    Filho de Moriz Zweig e de Ida Brettauer, Stefan e seu irmo Alfred - dois anos

    mais velho - eram descendentes de duas abastadas famlias judaicas vienenses que por

    sculos, desbravaram o estreito caminho deixado aos judeus na Europa, superando

    obstculos e tirando o melhor proveito das raras aberturas que iam surgindo. Suas

    respectivas histrias traduzem o processo de emancipao dos judeus no continente e de

    sua integrao sociedade moderna at a chegada do nazismo.

    8 A crtica de Arendt a Zweig pode ser lida na longa resenha que fez em 1943 sobre autobiografia do

    autor vienense, intitulada O Mundo de Ontem. Esse texto, Stefan Zweig: Jews in the World of

    Yesterday faz parte do volume The Jewish Writings, anteriormente citado, p. 317 328. 9 O judeu paria e o judeu parvenu esto no mesmo barco, remando desesperadamente no mesmo mar

    furioso. Ambos so rotulados com a mesma marca: ambos so do mesmo modo fora-da-lei. Hoje a

    verdade voltou para casa. ARENDT, H., Ibidem, p. 296 (traduo nossa) 10 ZWEIG, Stefan. Autobiografia: O Mundo de Ontem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2014. Edio

    eletrnica para Kindle. Prlogo. 11 Ibidem.

  • 6

    Moses Zweig (1750-1840)

    Assinatura do autor ilegvel, Retrato de 1832

    Leo Baeck Institute, New York12

    O sobrenome Zweig, na linhagem do escritor, comeou oficialmente na

    Morvia, em 1787, quando seu antepassado, Moses Josef Petrowitz, foi obrigado a

    atender um decreto imperial que ordenava que os judeus adotassem sobrenomes

    alemes.13 Moses Zweig conseguiu estabelecer-se como mascate e, embora no tivesse

    feito fortuna, conseguiu prover uma vida adequada para a esposa e seus doze filhos.

    J os Brettauer no lado materno da famlia de Stefan Zweig - habitavam a

    regio de Voralsberg, localizada - de acordo com os limites geogrficos atuais a Oeste

    da ustria, prxima fronteira entre a Alemanha, Liechtenstein e a Sua. Tambm

    dedicados ao comrcio - embora no fossem mascates - os Brettauer eram, no entanto,

    mais prsperos que os Zweig.

    O processo de integrao dos judeus, contudo, dependia constantemente da boa

    vontade dos governantes de planto cuja disposio para emitir cartas de proteo ou

    decretos permitindo o desenvolvimento de atividades comerciais e outras disposies

    era oscilante, fator ao qual, assim como tantas outras famlias, tanto os Zweig quanto os

    Brettauer souberam adaptar-se.

    Nas duas ltimas dcadas do sculo XVIII, a promulgao do dito de

    Tolerncia pelo Imperador Joseph II, contribuiu para a expanso das atividades

    econmicas e comerciais em geral, nas quais muitas famlias judaicas como os Zweig e

    os Brettauer atuavam.14 Com a nova situao, ambas famlias puderam expandir seus

    12 Imagem reproduzida a partir do livro Leo Spizter, ibidem, pp. 78 13 As informaes sobre as origens da trajetria das famlias Zweig e Brettauer foram extradas do

    trabalho de Leo Spitzer, Lives in Between. Assimilation and Marginality in Austria, Brazil, West Africa

    1780-1945. Cambridge: Cambridge University Press, 1989. 14 Entre as disposies em relao aos judeus, o dito determinava que as escolas crists aceitassem o

    ingresso de estudantes judeus, tanto as destinadas ao ensino primrio quanto ao secundrio. Alm disso,

    os cdigos de vestimenta aos quais os judeus eram submetidos foram abolidos e os judeus puderam a

    partir de ento engajar-se no aprendizado de ofcios e na abertura de fbricas. In, KATZ, Jacob. Out of the

    Ghetto. The Social Background of Jewish Emancipation, 1770-1870. Cambridge: Harvard University

    Press, 1973. Embora, como afirma Katz, o dito tenha contribudo melhoria da condio dos judeus,

    permanece a questo sobre se o mesmo alterou seu status legal: A redao do dito evasiva, mesmo

    contraditria neste ponto. O pargrafo de abertura fala do desejo do imperador de ver todos os sditos

    sem distino de nao e religio, assim que forem aceitos ou tolerados em nossos estados, a tomar parte

    na prosperidade comum... a desfrutar uma liberdade jurdica. (...) Mas em muitos aspectos a posio dos

    judeus permaneceu inalterada. p. 163 (traduo nossa).

  • 7

    ramos, inclusive para outras regies geogrficas.15 Alm das atividades comercial e

    manufatureira, as novas geraes dos Zweig e dos Brettauer engajaram-se plenamente

    na indstria, nas profisses liberais e nas atividades financeira e bancria, ampliando os

    respectivos patrimnios herdados.16

    Mas a emancipao completa dos judeus do Imprio Austro-Hngaro somente se

    daria com a promulgao, em 21 de dezembro de 1867, de uma nova lei cujo artigo 14

    garantia, entre outras disposies, liberdade de religio e conscincia para todos e

    tambm que os benefcios derivados dos direitos civis e polticos no dependiam de f

    e religio.17

    Como consequncia, a liberdade de ocupao e a possibilidade de instalar-se

    livremente em qualquer cidade do imprio, atraram um grande influxo de...