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4 Domingo • 7 de fevereiro de 2010 • Ano I • Número 1 Destaques Editorial Ensino de Baixa Qualidade. Uma pedra no caminho do Brasil-potência EXPEDIENTE Suplemento Diário Popular O Vale Econômico é uma publicação de A Gazeta Me- tropolitana Editora e Gráfi- ca. Email: valeeconomico @ gmail.com Redator: Wilton Rodrigues Edição: Anna Sylvia Rodrigues Diretor: Fernando Benedito Pedimos licença a nossos even- tuais leitores para uma exposição pouquinho mais técnica nessa abertura do primeiro caderno de Vale Econômico. É que, ao longo de sua trajetória, esse suplemento (ainda, quinzenal) pretende não só informar mas também tentar explicar em linguagem acessível como funciona a dinâmica eco- nômica em escalas macro e micro. Sempre que possível, pretendemos trazer exemplos claros que ocor - rem perto de nós, em nosso dia a dia. Alguém já chegou a dizer, com muita propriedade, que quem en- tende de microeconomia são as donas-de-casa. Mas a Economia é uma ciência complicada. Seu domínio pertence aos gênios. Há passagens interes- santes com profes- sores, catedráticos no assunto. Às vezes assumem altos pos- tos no governo e fracassam. Quando são demitidos, res- pondem às pergun- tas dos repórteres: - Agora vou vol - tar a ensinar. Quer dizer, se não sabe fazer vai ensinar... Vamos falar hoje apenas de uma ver - tente de fácil assi - milação pra quem está metido em ne- gócios ou pretende fazê-los, enfim, para qualquer pessoa que esteja envol - vida em assuntos de economia e negócios: a OTIMIZAÇÃO DE VALORES envolvendo produção, custos e lucros, seja seu negócio in- dústria, comércio ou prestação de serviços. Quantos de nós vira-e-mexe es- tamos falando em otimização? Um dos verbos mais falados e escritos hoje é otimizar. Muitas pessoas até o empregam sem saber por quê. Um fazendeiro, por exemplo, quer saber quanto de água (x) terá de adicionar a seu leite para au- mentar seu lucro (π)... Brincadeira à parte, isso acon- tecia muito no Brasil antes de se organizarem as cooperativas pro- dutoras e distribuidoras de leite. É ou não é? Toda atividade econômica é uma função, logicamente. Quando se define um projeto, tem-se uma função-objetivo, isto é, um negó- cio em vista. A economia é, em grande parte, uma ciência de es- colha. Se decidimos, por exemplo, montar a padaria Pão Bão iremos procurar as melhores condições para fazê-lo. Capital barato, má- quinas e equipamentos eficientes, pessoal qualificado, matéria-prima de fácil acesso e... principalmente, mercado para consumir nossos produtos. No regime capitalista, o objeti - vo de qualquer negócio é o lucro. Admitindo-se que Q seja o nível de produção da Pão Bão, C, o custo total, o lu- cro é determinado pela diferença entre Q-C=π, represen- tado comumente pela letra grega. O lucro será tanto maior quan- to mais eficientes forem a tecnologia dos equipamen- tos, a qualificação da mão-de-obra e o constante incre- mento das vendas. Mas fique de olho. Se Q for menor que C você dança! Neste caso, (x) é o que se chama em geometria analítica de variável independente e (y), que mede o nível de cresci - mento da produção e, consequen- temente dos lucros, depende da eficiência de (x). Então, você já no- tou que o principal fator de produ- ção e de lucro é você mesmo, que se preparou bem para administrar, digamos essa função-objetivo. Ou em palavras mais simples, o seu negócio. Naturalmente, acadêmicos de economia, economistas e admi - nistradores de empresa traduzem tudo isso por uma simples equa- ção, o que não cabe reproduzir aqui. Economia Há passagens interessantes com professores catedráticos no assunto. Às vezes assumem altos postos do governo e fracassam. Quando indagados, dizem que vão voltar a ensinar. Não sabem fazerm vão ensinar... TRÂNSITO O Caos Anunciado Ipatinga já tem um veículo, de quatro rodas, para cada três habitantes. Juntando-se a essa frota mais ou menos uns trinta mil irresponsáveis que zigueza- gueiam a cidade, pedindo para morrer ou matar em cima de duas rodas, não é difícil imagi- nar o caos no trânsito daqui a uns três anos, quando termina o mandato do atual prefeito ou de outro, se houver elei- ções. Entupir uma cidade de veículos não é tão dramático quanto lutar contra a ignorân- cia da maioria de seus motoris- tas (fujam das caminhonetas, principalmente das de cabine dupla!). Em outra matéria, nesta mesma edição, há uma referência a uma cidade. Nela, gente rica e pouco educada, infla o ego, se vê mais potente ao volante e... sai de baixo! Não adiantam campanhas educativas, multas irrisórias. Ou se penalizam mais mo- toristas, metendo a mão no bolso deles, ou se redimen- sionam o sistema viário de Ipatinga,cujo planejamento vem de trinta anos. O prefeito que saiu não se preocupou com o problema. Limitou-se a fazer algumas “rodelas”, de gosto duvido- so, e batizou-as de rotatórias. O atual prefeito, sem estabi- lidade política no cargo, em virtude da ineficácia da Jus- tiça Eleitoral, parece não ver razões prático-eleitorais para se meter numa empreitada de longo prazo. O volume de carros e mo- tos que circulam na cidade cresce a olhos vistos. Com- prados, praticamente, sem en- trada e com prazo de sessenta meses para pagar, ter um carro ou uma moto está ao alcance de pelo menos um terço da população economicamen- te ativa do Vale do Aço.Em Ipatinga estão localizados as indústrias e os serviços mais procurados da região. Isso faz com que se juntem à sua frota pelo menos mais um quarto da atual diariamente. E se a Usiminas reformular seus planos e antecipar o iní- cio das obras de Santana do Paraíso? Como é que fica? 3 Charada ou Piquenique? (Para rir, refletir ou censurar) A caça aos CAÇAS. A “briga” para vender aviões de grande porte ao Brasil A Usiminas e o Mercado Interno de Aço. Os caminhos para fazer o País consumir mais A China e o trem-bala A China acaba de anunciar um audacio- so projeto da construção de 15 mil quilô- metros de linhas férreas para trem-bala. O custo final do megaempreendimento che- gará a 60 bilhões de dólares Fernando Haddad, ministro da Educação Projeto Olho Vivo, uma grande sacada 5 6 2

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mentar seu lucro ( π )... Ensino de Baixa Qualidade. Uma pedra no caminho do Brasil-potência Charada ou Piquenique? (Para rir, refletir ou censurar) Projeto Olho Vivo, uma grande sacada Domingo • 7 de fevereiro de 2010 • Ano I • Número 1 A China acaba de anunciar um audacio- so projeto da construção de 15 mil quilô- metros de linhas férreas para trem-bala. O custo final do megaempreendimento che- gará a 60 bilhões de dólares Fernando Haddad, ministro da Educação 5 6 2

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Domingo • 7 de fevereiro de 2010 • Ano I • Número 1

Destaques EditorialEnsino de Baixa Qualidade. Uma pedra no caminho do Brasil-potência

EXPEDIENTESuplemento

Diário PopularO Vale Econômico é uma publicação de A Gazeta Me-tropolitana Editora e Gráfi-ca.

Email: valeeconomico @gmail.comRedator:Wilton RodriguesEdição:Anna Sylvia Rodrigues Diretor:Fernando Benedito

Pedimos licença a nossos even-tuais leitores para uma exposição pouquinho mais técnica nessa abertura do primeiro caderno de Vale Econômico. É que, ao longo de sua trajetória, esse suplemento (ainda, quinzenal) pretende não só informar mas também tentar explicar em linguagem acessível como funciona a dinâmica eco-nômica em escalas macro e micro. Sempre que possível, pretendemos trazer exemplos claros que ocor-rem perto de nós, em nosso dia a dia. Alguém já chegou a dizer, com muita propriedade, que quem en-tende de microeconomia são as donas-de-casa.

Mas a Economia é uma ciência complicada. Seu domínio pertence aos gênios. Há passagens interes-santes com profes-sores, catedráticos no assunto. Às vezes assumem altos pos-tos no governo e fracassam. Quando são demitidos, res-pondem às pergun-tas dos repórteres:

- Agora vou vol-tar a ensinar.

Quer dizer, se não sabe fazer vai ensinar...

Vamos falar hoje apenas de uma ver-tente de fácil assi-milação pra quem está metido em ne-gócios ou pretende fazê-los, enfim, para qualquer pessoa que esteja envol-vida em assuntos de economia e negócios: a OTIMIZAÇÃO DE VALORES envolvendo produção, custos e lucros, seja seu negócio in-dústria, comércio ou prestação de serviços.

Quantos de nós vira-e-mexe es-tamos falando em otimização? Um dos verbos mais falados e escritos hoje é otimizar. Muitas pessoas até o empregam sem saber por quê.

Um fazendeiro, por exemplo, quer saber quanto de água (x) terá de adicionar a seu leite para au-mentar seu lucro (π)...

Brincadeira à parte, isso acon-tecia muito no Brasil antes de se

organizarem as cooperativas pro-dutoras e distribuidoras de leite. É ou não é?

Toda atividade econômica é uma função, logicamente. Quando se define um projeto, tem-se uma função-objetivo, isto é, um negó-cio em vista. A economia é, em grande parte, uma ciência de es-colha. Se decidimos, por exemplo, montar a padaria Pão Bão iremos procurar as melhores condições para fazê-lo. Capital barato, má-quinas e equipamentos eficientes, pessoal qualificado, matéria-prima de fácil acesso e... principalmente, mercado para consumir nossos produtos.

No regime capitalista, o objeti-vo de qualquer negócio é o lucro.

Admitindo-se que Q seja o nível de produção da Pão Bão, C, o custo total, o lu-cro é determinado pela diferença entre Q-C=π, represen-tado comumente pela letra grega.

O lucro será tanto maior quan-to mais eficientes forem a tecnologia dos equipamen-tos, a qualificação da mão-de-obra e o constante incre-mento das vendas.Mas fique de olho. Se Q for menor que C você dança!

Neste caso, (x) é o que se chama em geometria analítica de variável independente e (y), que mede o nível de cresci-mento da produção e, consequen-temente dos lucros, depende da eficiência de (x). Então, você já no-tou que o principal fator de produ-ção e de lucro é você mesmo, que se preparou bem para administrar, digamos essa função-objetivo. Ou em palavras mais simples, o seu negócio.

Naturalmente, acadêmicos de economia, economistas e admi-nistradores de empresa traduzem tudo isso por uma simples equa-ção, o que não cabe reproduzir aqui.

Economia

Há passagens interessantes

com professores catedráticos

no assunto. Às vezes assumem

altos postos do governo e fracassam.

Quando indagados, dizem

que vão voltar a ensinar. Não sabem fazerm vão ensinar...

TRÂNSITO

O Caos AnunciadoIpatinga já tem um veículo,

de quatro rodas, para cada três habitantes.

Juntando-se a essa frota mais ou menos uns trinta mil irresponsáveis que zigueza-gueiam a cidade, pedindo para morrer ou matar em cima de duas rodas, não é difícil imagi-nar o caos no trânsito daqui a uns três anos, quando termina o mandato do atual prefeito ou de outro, se houver elei-ções.

Entupir uma cidade de veículos não é tão dramático quanto lutar contra a ignorân-cia da maioria de seus motoris-tas (fujam das caminhonetas, principalmente das de cabine dupla!). Em outra matéria, nesta mesma edição, há uma referência a uma cidade. Nela, gente rica e pouco educada, infla o ego, se vê mais potente ao volante e... sai de baixo!

Não adiantam campanhas educativas, multas irrisórias. Ou se penalizam mais mo-toristas, metendo a mão no bolso deles, ou se redimen-sionam o sistema viário de Ipatinga,cujo planejamento

vem de trinta anos. O prefeito que saiu não se

preocupou com o problema. Limitou-se a fazer algumas “rodelas”, de gosto duvido-so, e batizou-as de rotatórias. O atual prefeito, sem estabi-lidade política no cargo, em virtude da ineficácia da Jus-tiça Eleitoral, parece não ver razões prático-eleitorais para se meter numa empreitada de longo prazo.

O volume de carros e mo-tos que circulam na cidade cresce a olhos vistos. Com-prados, praticamente, sem en-trada e com prazo de sessenta meses para pagar, ter um carro ou uma moto está ao alcance de pelo menos um terço da população economicamen-te ativa do Vale do Aço.Em Ipatinga estão localizados as indústrias e os serviços mais procurados da região. Isso faz com que se juntem à sua frota pelo menos mais um quarto da atual diariamente.

E se a Usiminas reformular seus planos e antecipar o iní-cio das obras de Santana do Paraíso? Como é que fica?

3

Charada ou Piquenique?(Para rir, refletir ou censurar)

A caça aos CAÇAS. A “briga” para vender aviões de grande porte ao Brasil

A Usiminas e o Mercado Interno de Aço. Os caminhos para fazer o País consumir mais

A China e o trem-balaA China acaba de anunciar um audacio-

so projeto da construção de 15 mil quilô-metros de linhas férreas para trem-bala. O custo final do megaempreendimento che-gará a 60 bilhões de dólares

Fernando Haddad, ministro da Educação

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VALE ECONÔMICO • Página 2 • Domingo • 7 de fevereiro de 2010

Mosaico

Vida Útil

Heritage Patrimônio Patrimonio Manager Gerente GerenteMarket price Preço de mercado Precio de mercadoMarket share Fração de mercado Porción de mercadoNet Líquido NetoNon-voting share Ação sem direito a

votoAcción sin derecho a voto

Parent company Matriz MatrizProfit Lucro GananciaProfit sharing Participação nos

lucrosParticipación em las ganancias

Rate (exchange) Taxa (câmbio) Tasa (cambio)

INGLÊS PORTUGUÊS ESPANHOL INGLÊS PORTUGUÊS ESPANHOL

VOcAbULáRIO cOMERcIAL

Este espaço se destina a registrar passagens interessantes, desinteressantes; úteis, inúteis. Igualzinho ao que acontece com o homem neste mundo de Deus, ou das multinacionais.Prove que você não é inteligente.

Leia-o por favor, tenha piedade.

O esoterismo dalinguagem jurídica

Quando um doutor escreve Fummus Boni Iu-ris quer dizer:

- Fumo de rolo para fazer cigarro de palha;- “Verbo” usado por caipira paulista para se re-

ferir à ida a algum lugar. Ex: “Nós fumus a Bau-rur, dispois a Botucatur...”

- Mais ou menos isso: “fumaça do bom direi-to”;

- Se a resposta correta for a terceira opção, pra que o latinorum medieval, morto e sepultado até mesmo pela igreja católica?

Dormitar é:- Dormir- Vomitar- Dormir vomitando ou- Vomitar dormindo?

Joeirado é:- Peneirar o joio- Forma arcaica da palavra joelho- Neologismo jurídico- Elegância vernacular- Babaquice, data vênia, de alguma excelência

no topo da sabença jurídicaPerfunctório é:- Furúnculo - Pareba- Pereba- Caçar petróleo no pré-sal

Percusciente é:- Instrumento de percussão- Menor distância entre dois pontos- Tratamento cerimonioso que se dá a minis-

tros e desembargadores

“...o trabalhador terá direito a salário mínimo fi-xado em lei (atualmente R$510,00) capaz de aten-der a suas necessidades vitais básicas e às de sua fa-mília como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, transporte, previdência social.”

O dispositivo constitucional não detalha o custo mínimo de cada item, nem quantifica os membros da família.

Vamos fazer, por hipóteses, algumas contas ima-ginando uma “família” de 4 membros. José Maria (o chefe), Maria José (a patroa), Fizico e Fizica (os filhos).

1 – Moradia: um barracão coberto de telha de amian-to, três cômodos, 40 graus de calor -------R$150,00

2 – Alimentação: a “família” fez as contas e chegou à conclusão de que se encontrasse um restaurante com “PF” a R$2,00 cada, gastaria somente R$240,00 por mês, isto é, 4 x 30 x R$2,00 ----------------- R$240,00

3 – Educação: pobre não precisa de educação. Basta saber assinar o nome no dia das eleições. Mas os doutores autoridades da Justiça agora

mandam prender quem não “vai na escola”. Se os filhos forem menores, o pai é quem vai pro xi-lindró. Aí, o Zé vai para a cadeia, e os R$510,00 diminuem. Então a “família” reuniu-se na sala de visitas, mandou abrir umas loiras bem geladas e decidiu:

“É, Nega, os moleques têm de ir”.Custos mais ou menos com mochilas, merendas,

passagem de ônibus, cadernos, etc: R$4,00 por dia (25 x 4,00) ------------------------------------------- R$100,00

Total ---------------------------------------- R$490,00Pronto! Acabou o dinheiro. Porque, se Zé Maria

tem carteira assinada, a sobra de R$20,00 fica no caixa do INSS.

Observações:Faltou dinheiro pra saúde, lazer, vestuário, trans-

porte, etc. Zé Maria, Maria José, Fizico e Fizica es-tão peladinhos da silva..

E o doutor Ulisses Guimarães apelidou o livri-nho de 1988 de Constituição-Cidadã!

Constituição Federal Dos Direitos Sociais Artigo 7

IV – Salário Mínimo

“Baú de Ossos”O médico Pedro Nava, mineiro de Juiz de

Fora, era um tipo controverso. Reclamava do barulho da cidade do Rio de Janeiro, dos assal-tos, e até (principalmente) da chuva. Nava tem uma obra famosa chamada “Baú de Ossos”. Este título induz as pessoas a crerem no enterro de tudo que ele considerava descartável. Cansado do barulho e possivelmente da idade – 81 anos – decidiu suicidar-se. Deu um tiro no ouvido e explicou suas razões: “ Pelo menos, o último ba-rulho não vou ouvir...”

CHARADA OU PIQUENIQUE?(para rir, refletir ou censurar)

Public corporation Sociedade de capital aberto

Sociedad de capital abierto

Raw materials Matérias-primas Matérias primas Research Pesquisa InvestigaciónSaving Poupança AhorroStag Especulador de curto

prazoEspeculador de corto plazo

Stock exchange bolsa de valores bolsa de valoresStockholder Acionista AccionistaTax Imposto ImpuestoTurnover Receita bruta Ingreso brutoWorking capital capital de giro capital circulante

Às vezes, a gente passa a vida inteira imaginando como seria a beleza dos Jardins Suspensos da Babi-lônia, uma das Sete Mara-vilhas do Mundo Antigo; ou do Colosso de Rhodes, também inscrito no livro das Belezas. Um dia, você tira 140 milhões na mega-sena e vai lá.

- Mas é isso, pô?!É claro que nem todo

mundo com um prêmio desses tem sensibilidade bastante para distinguir a força bruta de um touro da

beleza que emana de uma obra de arte. Qualquer que seja ela. A captação do Belo, depende da imagem que os olhos buscam e le-vam à área apropriada do cérebro.

A comparação é meio tosca, vesga, mas dá um parâmetro. Desde que mu-dei da roça para as cidades, comecei a ouvir falar em McDonald’s. Depois vi sua maciça publicidade na televisão.

- Ai, que gostosura! Aqueles nacos de batata

frita pulando na fritadeira; alface e tomate verde e ver-melho, cores que aguçam o paladar. A cobertura de pão crocante que enche a boca d’água, pelo menos no caprichado anúncio da tv. E no meio desse néctar dos deuses, nacos de car-ne.

De tentação em ten-tação acabei indo lá. No Shopping do Vale. Pedi um. Paguei quinze reais.

A batata era fina, qua-se preta e cheia de sal. Mal acondicionada, a maionese

esparramou-se, melecando minha mão. Dentro do pão (que pão é aquele?) um pedaço de bacon e ou-tro de peito de frango mais duro que bolso de traba-lhador no fim do mês.

Interessante é que só no Brasil a McDonald’s dá lucro. No resto do mundo trabalha no vermelho. Mas a situação vai piorar. Dois grandes do ramo de fast-food vão entrar no Brasil. Um americano e um me-xicano, concorrentes for-tes. Ainda bem.

O EFEITO DA PROPAGANDA(mesmo enganosa)

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Economia Pequenas empresasOs pequenos empreendimentos foram os responsáveis pela maioria dos empregos gerados

nos últimos dez anos, segundo pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgada esta semana (4). De acordo com o estudo, entre 1998 e 2008, a cada três empregos criados na iniciativa privada não agrícola dois eram em empresas com até dez trabalhadores.

Domingo • 7 de fevereiro de 2010 •VALE ECONÔMICO • Página 3

A Usiminas e o mercado interno de açoSe os países emergentes continuarem “emergindo”, haverá um momento em que elesconcentrarão 50% da riqueza mundial; mas esses bens terão que servir a seus próprios países

É ridículo o consumo de aço no Brasil. Cerca de 22 milhões de tone-ladas por ano. Como a produção atual gira em torno de 42 milhões de toneladas, sobram 20 milhões, números arre-dondados.

Quando as atuais plantas siderúrgicas em construção entrarem em funcionamento (se entrarem), a produção bruta se aproximará das 70 milhões. O dobro da capacidade prevista pelos militares para 1985. São decorridos 25 anos. O Brasil parou nesse perí-odo?

Como é quase certo que a produção da Ásia e da União Européia, mesmo com a crise, che-gará a 800 milhões, fica quase impossível sobrar um pedaço de mercado além-mar para o aço bra-sileiro, pelo menos neste início de década. Aliás, o próprio Castelo Branco informou, preocupado: “mandei um de meus di-retores à Coréia do Sul vender aço. Ninguém quis, a preço nenhum”.

Aperto faz sapo pular: antes da “globalização”, Estados Unidos e prin-cipalmente Europa, não queriam ouvir falar em

beneficiar matéria-prima em seus terreiros. Sabiam que era bastante mandar um chip pra cá e receber em troca dez caminhões de soja beneficiada.

Conclui-se, portan-to, que o presidente da Usiminas, submetido às pressões do mercado in-ternacional com gigantes produzindo aço a preço de banana, raciocina na direção certa, ao priori-zar o mercado interno. Mas para isso tem de percorrer um longo, tor-tuoso e incerto caminho. Começando por agregar substanciais valores de mercado a seus produtos. Não se trata de vender apenas chapas e bobinas de aço. Lições de marke-ting ensinam que nin-guém compra uma gela-deira ou um aparelho de tv para ornamentar a sala e a cozinha de sua casa. Assim, ao tentar ganhar mercado interno para fu-gir à brutal concorrência chinesa, por exemplo, a Usiminas terá de vender SOLUÇÕES, melhor, se em kits completos.

A não ser para consu-midores específicos como a indústria automobilís-tica e os fabricantes da chamada linha branca, uma chapa de aço tem

valor algum en-quanto apenas um objeto quadra-do ou retangular. Submetida a no-vas tecnologias de tratamento, engenho e arte, aumenta seu valor de venda, atrai no-vos consumidores, produz lucros e ajuda na mudan-ça da mentalidade brasileira, há 510 anos desmatando o país.

O que a indús-

tria brasileira precisa é de criar mecanismos para aumentar a produtivida-de. O lucro marginal é o que torna os bancos bra-sileiros os mais rentáveis do mundo. Eles montam uma estrutura enxuta para emprestar dinheiro garantindo-se só com o spread. A enxurrada de dinheiro que entra em seus caixas, oriunda de serviços prestados prati-camente sem custo, é que constitui o resultado alta-mente positivo no fim de cada exercício fiscal. Po-der-se-ia dizer que a pro-dutividade nesse caso são as “cestas de produtos” empurradas goela abai-xo do pobre tomador de empréstimo.

É bom que se ressal-ve: “marginais” são os lucros, não os banquei-ros. Ou não?

A nova meta da Usi-minas poderá torná-la in-dependente do acirrado mercado externo, onde China e Índia, com um terço da população do mundo, vai ter que ex-portar até barata enlata-

da para sobreviver. Mas a empresa sabe que terá de agredir o mercado em todas as direções pos-síveis. Investir em pro-gramas de comunicação gerais e pontuais, cujos conteúdos teriam uma linguagem quase didáti-ca – ensinar mesmo qual é o valor, as vantagens e o emprego do aço, mais barato que madeira ex-traída e transportada da Amazônia.

A Usiminas já estaria fazendo isso.

Há um capítulo à par-te, que não se encaixa numa perspectiva muito de perto. Num exercício de imaginação com vistas ao futuro, cabe ponderar: se os países emergentes incluindo todos aqueles em escala pouco abaixo dos do Bric continuarem realmente emergindo, haverá um momento em que eles – mais de vin-te – concentrarão 50% da riqueza mundial. Isto em termos de produção industrial, agronegó-cio, energia e tecnologia avançada. Mas esses bens

terão que servir a seus próprios pa-íses, forçando o crescimento dos mercados inter-nos. Para vender para um de seus “irmãos”, o pre-tendente terá que chegar à exaustão da mão-de-obra barata, expandir suas fronteiras do conhecimento tec-nológico. Mas isso pode-rá ocorrer com todos ou com a maioria. Assim - paradoxalmente – todos ficarão muito ricos ou, pelas novas medidas de riqueza e consumo, todos se igualarão. Aí, todos voltarão a ficar pobres... se considerarmos que ri-queza e pobreza são con-ceitos relativos. A riqueza tem como parâmetro a pobreza e vice-versa.

Parece que o caminho do Brasil é mesmo o do mercado interno. Há demanda reprimida. Há nichos inexplorados. Há, principalmente, baixo ín-dice de desenvolvimento tecnológico porque mes-

Poder-se-ia dizer que a produtividade nesse caso são as “cestas de produtos” empurradas goela abaixo do pobre tomador de empréstimo. É bom que se ressalve: “marginais” são os lucros, não os banqueiros. Ou não?

A nova meta da Usiminas

poderá torná-la independente do

acirrado mercado externo, onde China

e Índia, com um terço da população

do mundo, vai ter que exportar até

barata enlatada para sobreviver.

Trabalhador em indústria chinesa de aço: vender aço hoje não é fácil

mo as principais univer-sidades do país, em geral, limitam-se a retransmitir conhecimentos, vindos de fora.

As grandes empresas, elas próprias, precisam criar suas alternativas, investindo em pesquisas junto às boas universi-dades. Dois fatores de produção e desenvolvi-mento que não escapam à acuidade dos america-nos: doação de polpudos recursos às universidades e investimento maciço em propaganda.

O aço no Brasil conti-nua sendo o mesmo aço desde os primórdios da China lendária.

China Daily

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EducaçãoVALE ECONÔMICO • Página 4 • Domingo • 7 de fevereiro de 2010

Ensino de baixa qualidade pode limitar crescimento

Ah! tem também os

pós-graduação. A duração

desses “cursos” varia de vinte

e quatro a trezentas e

sessenta horas. Tudo depende de como anda

o caixa da escola. São

os lato sensu, caça-níqueis.

Fornecem certificados que

prestam para coisa alguma

Com os conhecimentos adquiridos na Graduação, o profissional já se torna apto a elaborar projetos, isto é, indicar como se fazem as coisas. Um mestrado bem feito e dependendo da escola e do estudante, pode equivaler a um doutorado razoável. Na prática, isso acontece muito

O Brasil já tem 50 mil doutores. E outros 25 mil estão em gestação, informa o ministro Haddad. Mas o problema é outro

O ministro da Educa-ção deu, recentemente, longa entrevista a Marí-lia Gabriela, jornalista, atriz de cinema e mais conhecida por sua ido-latria a garotões sarados. O ministro Haddad, por quem as mulheres cos-tumam suspirar, é um ótimo articulador de pa-lavras e idéias. Esbanjou domínio dos assuntos de sua Pasta. A entre-vistadora, ex-mulher do galã folhetinesco Rey-naldo Gianechini, pare-cia estar focada mais na cara infantil do ministro que propriamente no conteúdo das respostas. Praticamente, só houve uma pergunta, e o tem-po todo ficou livre para Haddad dissertar sobre sua vida acadêmica, pro-fissional, seu currículo e suas realizações no Mi-nistério da Educação. Gabi só ouvia e admira-va a lábia e o charme de Fernando Haddad.

- Já temos cinquenta mil doutores, e outros vinte e cinco mil estarão saindo do forno dentro de dois a quatro anos – enfatizou.

É realmente uma boa notícia para um país que mandava seus maurici-nhos e patricinhas para se doutorarem na ve-tusta Universidade de Coimbra, em Portugal.

Mas, doutores, o que são doutores?

Os técnicos do Mi-nistério da Educação costumam dividir es-quematicamente o En-sino Superior em três etapas. A primeira é a da graduação. Fase em que os estudantes to-mam conhecimento do quê e do quantum. Se são egressos de bons co-légios, onde o programa

desenvolvimento deveu-se à maciça aplicação de recursos públicos na educação pré-universi-tária. Principalmente na correspondente ao nos-so primeiro grau.

Não existe potência industrial sem ensino bá-sico de primeira qualida-de. No Brasil, o nível do ensino tem melhorado, mas ainda está longe de constituir-se na premissa básica de seu desenvolvi-mento.

E há uma realidade preocupante: vão para a pré-escola as crian-ças que não necessitam dela. Aquelas que já têm condições de se sociabi-lizarem no ambiente fa-miliar. Os “catarrentos” do alto do morro estão longe de frequentar um dos dois ambientes.

Outro pesadelo, este de natureza político-partidária. Constroem-se prédios escolares com bom equipamento didá-tico, orientadores disso, técnicos daquilo, mas o salário dos professores, Ó! é desse tamaninho, como diz Chico Any-sio, na pele do professor Raimundo Nonato.

(*) Mais recentemente, publicação especializada da

USP informou que o Brasil teria ultrapassado a Rússia em número de publicações

de artigos científicos no mundo.

de ensino é cumprido à risca, aumentam as pos-sibilidades de se forma-rem bons profissionais, às vezes já disputados pelo mercado mesmo antes de concluírem o curso que estão fazen-do. É importante que aprendam a formular conceitos para facilitar planejamento de vida e destinação profissional.

Nas Ciências Sociais, paradoxalmente, as di-ficuldades aumentam, porque há pouca tatibi-lidade nessas disciplinas e distância considerável

entre o ler e o apreender. É mais fácil ser um bom engenheiro que um bom psicólogo.

Já nas chamadas Ci-ências Exatas, compre-endendo Física, Química e Matemática (EXATA, na verdade, seria só a Matemática, uma ciên-cia quase visceral, quase tátil, imutável) há mais facilidade de o gradu-ando profissionalizar-se porque adquire conhe-cimentos teóricos e prá-ticos – experimentação – de mecânica, elétrica, engenharia, informática,

etc, ciências de melhor conceituação e de fácil medida.

A segunda etapa diz-se que é a do Mestrado. Seria a fase do diagnósti-co. Com os conhecimen-tos adquiridos na Gra-duação, o profissional já se torna apto a elaborar projetos, isto é, indicar como se fazem as coisas. Um mestrado bem feito e dependendo da esco-la e do estudante, pode equivaler a um doutora-do razoável. Na prática, isso acontece muito.

O doutorado seria em tese a última fase dos estudos acadêmicos. O “doutor” estaria pronto para interpretar o diag-nóstico e transformá-lo em projeto acabado. Isto é, transformar ciências em tecnologia.

Ainda tem os pós-doutorado. Na prática é uma atualização do dou-torado. Ah! tem tam-bém os pós-graduação. A duração desses “cur-sos” varia de vinte e qua-tro a trezentas e sessenta horas. Tudo depende de como anda o caixa da es-cola. São os lato sensu, caça-níqueis. Fornecem certificados que prestam para coisa alguma.

Certa vez, uma pro-fessora de primeiro grau, de rede municipal de en-sino, me disse que gos-taria de escrever “no seu jornal” e se apresentou: “fiz pós-graduação e es-tou na bica de receber “aviso breve”. O prefeito não gosta de mim”.

Certamente, seus possíveis leitores tam-bém não iriam gostar...

Tudo bem, tudo cer-to. Mas, via de regra, doutor não gosta muito de trabalhar. Prova-o o fato de o Brasil contri-

buir com pouco mais de um por cento de toda a produção científica mundial publicada nas revistas de ciências reno-madas (*). A propósito, observe esse chute na canela: já temos cursos de doutorado por cor-respondência!

EDUCAÇÃODE BASE

É oportuno prosse-guir nessa matéria com um conselho prático do professor James Hack-man da Universidade de Chicago, ganhador do Prêmio Nobel de Econo-mia em 2000. Hackman esteve no Brasil recen-temente para participar do encontro promovido pela Fundação Getúlio Vargas que discute a edu-cação de primeira infân-cia, tema de estudos de Hackman. Ele defende maiores investimentos na educação das crianças nos primeiros anos de vida. Na visão do econo-mista, a falta de mão-de-obra capacitada será um gargalo no caminho do desenvolvimento brasi-leiro no futuro. A China já está passando por esse problema, e como tem que produzir muito, em breve terá que importar mão-de-obra. Só não se sabe de onde...

A verdadeira força do trabalho está na capaci-tação técnica interme-diária. Um engenheiro químico, por exemplo, é suficiente para gerir uma indústria de médio porte porque a tarefa de executar os projetos que ele elabora cabe a técni-cos de nível médio – e poucos!

É evidente o exemplo da Coreia do Sul. Nós sabemos que seu rápido

O ministro da Educação, Fernando Haddad

Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

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Domingo • 7 de fevereiro de 2010 •VALE ECONÔMICO • Página 5

Política A caderneta de poupança registrou em janeiro captação líquida de R$ 2,619 bilhões. O resultado é o melhor desde janeiro de 1997, quando houve captação de R$ 3,512 bi-lhões segundo dados da série histórica do Banco Central. Em janeiro de 2010, os depó-sitos em cadernetas de poupança totalizaram R$ 87,825 bilhões e os saques, R$ 85,205 bilhões. Foram creditados R$ 1,508 bilhão em rendimentos. O saldo total em caderneta passou de R$ 319 bilhões para R$ 323 bilhões de dezembro para janeiro.

Planejamento bem feito e rigor na sua execução geram economia de mais de 4 milhões de reais

Câmara de Ipatinga de olho vivo nas despesas

A Câmara Municipal de Ipatinga teve muito o que comemorar neste fim de 2009. Trabalhan-do em harmonia com o Poder Executivo, como estabelece o dispositivo constitucional – e melhor ainda – com um corpo administrativo eficiente, a Câmara teve uma atu-ação exemplar. Devolveu R$ 4.100.000,00 aos co-fres municipais em duas parcelas. A primeira em setembro, no valor de R$ 1.300.000,00, já aplica-dos no projeto OLHO VIVO. E a segunda, no fim de dezembro, de R$ 2.800.000,00.

Desde que assumiu a cadeira de presidente do Legislativo, Nilton Manoel (PMDB) não mediu esforços para im-plantar uma política de economia na Câmara. A intenção do parlamentar seria sempre devolver aos cofres do municí-pio verba da instituição para ser reinvestida no projeto OLHO VIVO, instalação de câmeras de segurança no Centro

de Ipatinga, o que já foi feito. O foco agora é es-tender essa tecnologia de segurança a outros bair-ros da cidade.

O objetivo do projeto é a instalação e operacio-nalização de 42 câmeras de segurança móveis, do tipo speed dome, selecionadas a partir de discussão colegiada en-tre a Polícia Militar e a Prefeitura Municipal. Seriam localizadas em doze bairros escolhidos estrategicamente, além de um moderno sistema de transmissão de ima-gens, voz e dados numa rede sem fio de alta per-formance.

O acordo firmado pre-vê um investimento final de R$ 10.588.000,00 num espaço de quatro anos. O presidente Nil-ton Manoel prevê econo-mia de R$ 4.000.000,00 de reais em 2010, valor que faria parte do pacote anunciado acima.

O propósito é que o OLHO VIVO atinja todas as escolas públi-cas, unidades de saúde

e prédios públicos. “O projeto permite que se viabilize o acesso a in-ternet a todos os pontos de controle, bem como instalação de centrais de alarmes, sistema de mo-nitoramento e gravação local de imagens com disponibilidade do acer-vo via web” – explicou o coronel Ricardo Gon-tijo, especializado no as-sunto.

COMPROMISSOSegundo o prefeito

interino Robson Gomes, a prefeitura assumiu o compromisso de seguir as indicações dos vere-adores na aplicação dos recursos para implanta-ção do sistema. O presi-dente da Câmara Nilton Manoel afirmou que a economia realizada não prejudicou os investi-mentos feitos no próprio Legislativo: compra de dois veículos, 25 com-putadores e equipamen-to mobiliário. Para 2010 o orçamento da Câmara está previsto em 21 mi-lhões de reais.

Conversei alguns mi-nutos com Liliane Zebral, dona de uma franquia, Li-vraria Leitura no Shopping do Vale. Vale Econômico quis saber o que a região anda lendo e se houve in-cremento no nível de ven-das nos últimos cinco anos, período específico. A esco-lha não é aleatória. Vincula-se a levantamento feito em 2005. Até aquela época, vá-rias tentativas de se sobrevi-ver vendendo livros fracas-saram, e muitos pioneiros fecharam as portas. Para ser mais explícito, além de livros didáticos, obviamen-te de uso obrigatório, pou-ca coisa se acrescentava a esse segmento. Best-sellers como Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado e Pequeno Príncipe – o livro de cabeceira das misses - e os de autoajuda, de culiná-ria tinham alguma saída.

Hoje, não é muito di-ferente. Mas segundo Li-

liane, os editores atinaram com a necessidade de mo-dernizar o visual de seus lançamentos, tornando-os mais atrativos aos olhos do comprador compulsivo. Isto é, investir na forma é melhor que no conteúdo, pelo menos mercadologi-camente.

O que melhorou, se-gundo a jovem livreira, foi o incentivo que os colégios e faculdades estão passan-do a seus estudantes. Mas, os clássicos “ensebam”. Ninguém quer saber de clássicos.

Liliane disse que foi grande a procura de livros para presente no fim do ano. Mas não revelou o perfil das obras mais pro-curadas.

De qualquer maneira, o Vale do Aço ainda é uma espécie de Uberlândia em termos de cultura geral, a não ser aquela “adquirida” nas colunas sociais. Faz vir

à lembrança a pitoresca “briga” entre duas grandes cidades do Triângulo Mi-neiro: Uberaba e Uberlân-dia. A primeira delas, mais antiga e culturalmente mais avançada, para diminuir a distância que a separa em termos econômicos, é uma espécie de mini-Buenos Ai-res em promoção de even-tos engalanados de fraques e salamaleques em salões cheirando a belle époque.

Os uberlandenses, em caminhonetas cabine dupla e chapéus de aba larga, res-pondem, cheios de si e de ignorância: “Nóis é anarfa-beto, mas nóis é podre de rico!”

Aqui no Vale do Aço substitui-se a leitura pelo churrasco, mais consumido que no sul do país, o que é ótimo para desenvolver câncer de estômago. Prin-cipalmente, os vendidos à beira das avenidas e assados com fumaça de querosene.

O prefeito Robson Gomes exibe o cheque simbólico repassado pelo presidente da câmara Nilton Manoel: dinheiro revertido para a cidade

Ipatinga está lendo mais

Parte do dinheiro devolvido pela câmara foi aplicado na instalação de câmeras de segurança

ACS/CMI

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InternacionalVALE ECONÔMICO • Página 6 • Domingo • 7 de fevereiro de 2010

A caça aos CaçasTodos querem vender armas poderosas ao Brasil.O problema é a transferência da tecnologia É que no pacote de 36 caças e

quatro submarinos convencionais, está incluído um “casco nuclear”, que vai permitir a ação conjunta dos dois “países amigos” desenvolver tecnologia nuclear.Está aí a razão do choro do gringo em sua pungente exposição

O jornal norte-ame-ricano US Today pu-blicou página inteiro sobre o Brasil em sua edição de quinta-feira última – como aliás é a moda agora. De re-pente, descobriram que além de Pelé, Car-naval, praias e favelas, o Brasil é um grande exportador de matéria-prima. É o país que está aparecendo bem na fita graças a suas poderosas commodities, outro nome em moda, que encaixa bem em nossa pauta de negócios com glamour. Minério de ferro, ferro-gusa, soja, etanol, sucos e até mu-lata assanhada em New Jersey. Tudo gera divi-sas.

Chato é que para importar um único chip precisamos dar em troca dez caminhões de soja! Quem falou isso na televisão foi um professor de economia na USP, Roberto Ma-cedo, mineiro de For-miga, cidade perto de Furnas, onde também nasceu o padre Fábio de Melo, astro da Igre-ja Católica e da música popular.

Desta vez porém o articulista não exage-rou nos adjetivos. Ao contrário, fugiu à linha puxa-saquismo na im-prensa lá de fora e deu uma puada em nos-sa pátria amada, mãe gentil. Aoron Dixon, o escriba, foi cáustico e focou sua crítica nas negociações franco-brasileiras para aquisi-ção de caças e subma-rinos de que realmente precisam a Marinha e a Aeronáutica brasi-leiras. Não é pirraça de generais (sabia que

ainda existe no Exérci-to fuzil brasileiro mo-delo 1908?).

Sargentões perfila-dos e com voz impá-vida, gritam na ordem unida:

- Recruta, que arma você tem nas mãos?

- Fuzil modelo bra-sileiro 1908, sargento, responde o idiota com muito orgulho.

O jornal lamentou a inclinação de Lula pelo armamento francês, “embora nosso presi-dente Obama o tenha chamado de ‘este é o cara’. O jornalista não se informou bem. A preferência de Lula pe-los caças e submarinos franceses não é dele, Lula. É dos almirantes, generais e brigadeiros.

É que no pacote de 36 caças e quatro sub-marinos convencio-nais, está incluído um “casco nuclear”, que vai permitir a ação con-junta dos dois “países amigos” desenvolver tecnologia nuclear.

Está aí a razão do choro do gringo em sua pungente exposi-ção. Ele alerta para o ‘perigo’ de um desvio de intenções de rota, e surgirem uma ou mais bombas ‘A’ no lugar de submarino à propulsão nuclear, ou os dois ca-sos simultaneamente.

Também, a visita do presidente da autorida-de palestina e do con-trovertido chefe dos iranianos Mahmoud Ahmadinejad forneceu lenha para incendiar o imaginário do jornal ianque. Curiosamente, não fez referência ao governante de Israel. Os três, de ‘cores’ dife-rentes, e naturalmente

com objetivos também diferentes, visitaram o Brasil praticamente na mesma quinzena, o que mostra que Lula realmente está com tudo - e está prosa.

Bobagem. O Brasil pode por si só cons-truir a bomba atômica no momento em que bem entender, pois dispõe de combustível e de tecnologia para tanto. A Marinha já en-riquece urânio no per-centual desejado desde o tempo dos militares no poder. Zé Sarney, que sucedeu ao último da série nefasta, apro-veitou os 15 minutos de fama do Plano Cru-zado para anunciar em rede de rádio e televi-são que “o Brasil já do-mina o ciclo completo de enriquecimento de urânio”. O processo de construir uma bom-ba atômica para quem tem o urânio enrique-cido é pouquinho só mais complicado que fabricar rojões em San-to Antônio do Monte (MG).

Certamente, por muitas razões, não é o momento de se pensar nisso. Já temos proble-mas demais. Pensar nas Olimpíadas e realizá-las já é tarefa para ma-mute.

Pelo menos enquan-to a Argentina estiver mergulhada na merda econômica, sob uma democracia mambem-be de pai para filho – ou melhor, de marido para mulher. Hugo Chávez, apesar de suas ambições bélicas, deve ficar só nisso na próxi-ma década. Não conta com o ‘nada obsta’ de Lula.

Mas, num futuro não muito longe, não há como o Brasil abrir mão de empaiolar pelo menos alguns mega-tons explosivos fissio-nais. Como potência regional e a caminho de freqüentar a região dos cinco grandes, o País precisa de uma boa moeda de troca. Não para usar, é claro. Quem quer que acenda o pavio de um artefa-to nuclear estará cer-tamente mijando para cima. É só para impor respeito, dizem os es-trategistas.

Estados Unidos, China, França, Ingla-terra, Índia, Israel, Paquistão, Coréia do Norte, Ucrânia, Geór-gia, etc, têm bombas e mísseis para destruir a Terra umas 50 vezes.

Essas bombas, tanto a ‘A’ como a ‘H’, jamais serão detonadas sobre alvo humano. Eu mu-daria seu nome para bombas da paz!

Cabe agora pergun-tar ao US Today:

- Por que os Estados Unidos e Rússia, jun-tos, possuem mais de 3 mil dessas engenhocas?

- Por que a China já “implodiu” uma bom-ba ‘H’- fusão nuclear - cuja espoleta é uma bomba A de potên-cia igual à que torrou Hiroshima? Alguém a teria proibido de fazer isso?

- Por que Israel, um deserto pouco maior que o estado de Ser-gipe, armazena cerca de 200 unidades desse terror? Te dou um doce par você adivinhar de

onde sai o dinheiro que financia esse arse-nal bélico dos judeus.

Então, por que o Irã não pode enriquecer urânio?

O Brasil assinou o tratado de não-prolife-ração de armas nucle-ares, mas se os pré-sal contiverem reservas de petróleo muito acima da anunciada – e já há indícios de que isso existe – vizinhos en-ciumados vão encher o saco.

Os argentinos, por exemplo, não suportam perder pra gente nem na bola. Já imaginaram ver o jornal El Clarín estampar: “Brasil tem petróleo para dar e vender”?

Manda bala, Lula, ou quem entrar no seu lugar.

Lula cumprimenta Mahmoud Ahmadinejad em recente visita ao brasil: chefeiraniano está no centro de controvérsias internacionais

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LiteratoliceDomingo • 7 de fevereiro de 2010 •VALE ECONÔMICO • Página 7

Capítulo I

Dona Ione, miudinha, acima dos setenta anos. As pernas já não lhe queriam obedecer a vontade. Des-locava-se a passos curtos. Seu rosto de santa mascarava a aparência do cansaço. Cansaço da vida, cansaço da repetição. Arrastava os chinelos-de-liga xadrezados de branco, vermelho e azul. Lembravam-me a bandeira nacional da França. No todo, Dona Ione parecia aceitar a vida como ela é. Tudo era o que tinha de ser, pré-determinado. A filharada ao pé de si bastava-lhe. Tapava o buraco existen-cial, ou quase isso.

Eu morava em sua pensão, esqui-na da avenida Desembargador Tei-xeira de Freitas com a Minas Gerais. Bancários, funcionários públicos e comerciários eram seus hóspedes ou, como ela mesma dizia: meus filhos. De fato, a pensão era nossa casa. Eu, ora sim ora não, costumava me sentir do lado de fora desse mundo. Sentia uma dor meio sufocante, indefini-da, quando o sino da igreja próxima tocava as seis horas da Ave-Maria de Gounod. Mas as coisas voltavam sempre a seu lugar. A pensão era meu céu.

O estafeta Onofre recusou uma promoção para “Belzonte” porque, órfão de pai e mãe muito cedo, acha-va que em lugar algum do mundo iria encontrar outra pensão assim, povo-ada de alegria e de piadas pelos filhos de Dona Ione e Seu Leonan.

Numa noite de domingo, des-sas com cara de festa e roupa nova, topei Dona Ione indo em direção à sala principal, frente para a Avenida Minas Gerais e visão descortina-

da da Praça João Pessoa. Centro de convergência noturna dos que busca-vam não-sei-o quê. Pus-lhe o braço sobre os ombros, encurtei os passos para tornar o trajeto mais demorado possível. Queria sorver o calor irrom-pendo daquele corpinho cheio de histórias para contar. À época, viver setenta anos era uma façanha digna de condecoração. Sete filhos. Todos solteiros, todos em casa. O que fazia da pensão um circo cheio de aventu-ras e de piadas limpas e espirituosas. A família e os hóspedes se fundiam em um só abraço, cercando o mun-do feliz. Era o céu para quem havia deixado a casa paterna pouco afeita a celebrar a vida com fogos de arti-fício e banda de música. Seu Leonan se especializara em contar a mesma piada três a quatro vezes no mês. E a cada vez que a piada era repetida ela se tornava mais receptiva para a pla-téia. Seu Leonan se empaturrava de felicidade e caprichava nos detalhes na terceira ou quarta vez. Os anti-gos, como se diz hoje, se lembram de como era gostoso ouvir piadas ino-centes, assistir a espetáculos circenses de má qualidade, e escutar bandas de música tocar dobradões nos velhos coretos durante os dias do mês de maio.

Dona Ione e eu apoiamos os co-tovelos na soleira da janela e por um bom pedaço de tempo ficamos cala-dos ouvindo e vendo pessoas passa-rem, simplesmente passando. Pra lá e pra cá.Pra cá e pra lá. Passando por passar. Naquele momento, nasciam milhares de pessoas no mundo que um dia também iriam passar – filoso-fou Dona Ione. Eu também peguei a imaginar. Por que será que hoje nin-

guém mais passa? Só fica; fica na fila do INSS, fica na fila do banco, fica na fila do emprego, fica com a filha, fica com a mãe da filha! “Não esquece a camisinha, hein! tá com dinheiro pro motel?

Ah, que belos e glamurosos , so-bretudo excitantes aqueles dias do misterioso fascínio de desnudar uma mulher, tirando-lhe, com respiração curta, duas, três, quatro peças de roupas!Enfim, a terra prometida da adolescência, a canção suspirada es-tava ali, entregando-se com voluptu-osidade...

Roupas, mulheres usam-nas hoje. Umas, com quem a natureza co-laborou pouco mais na anatomia, mostram com orgulho ou falta de imaginação o que se habituou cha-mar “cofrinho”, região fronteiriça às zonas litigiosas... Outras, mais aza-radas, sacolejando enorme barriga e arrobas de bunda, põem à mostra seu banco central...

A praça João Pessoa ficava assim de gente circulando a seu redor. Ho-mens e mulheres em sentidos opos-tos. Esse arranjo geométrico facili-tava a troca de olhares, quase cara a cara. Muitos casamentos começaram aí, em praças e avenidas bem ilumi-nadas.

Dona Ione resolveu puxar prosa: Carol saiu com o noivo. Delano, tam-bém. Devem estar na praça. Maria fi-cou por aqui. E continuava falando: não sei, parece que Maria anda meio encabulada. Diria mesmo até triste.

Dona Ione puxou essa conversa meio enigmática, de onde se podia extrair alguma insinuação. Para evitar qualquer expectativa me apressei em discordar dela.

Não é bem assim, Dona Ione. Maria é uma professora competente e muito querida em sua turma. Aqui na pensão nem se fala. O Braguinha me parece que anda arrastando asas pra ela. Deixou escapar alguns arrou-bos de galanteio ontem no almoço.

Falei tudo isso pra despistar, dei-xando a entender que eu estava em outra, sem falar isso diretamente.

Maria, a mais velha da casa, com vinte e sete anos, já era considerada velha para os padrões da época. Tam-bém não era lá essas coisas. Um den-tão desalinhado na parte de cima de sua boca produzia estragos visíveis em sua concepção arquitetônica. E por azar, já direcionava minhas len-tes para outro foco, bem perto dali e com dez anos a menos de idade.

- E Maria Rita,aonde anda a esta hora? perguntei, fingindo distância e desinteresse.Eu sabia que meninas-moças de dezessete anos eram tesouro que os pais guardavam a sete chaves, intocáveis. Literalmente intocáveis.

- Está trancafiada no quarto, es-tudando. Ela tem dificuldades com Língua Portuguesa.

Resposta de Dona Ione foi meio protocolar, era visível. A mãe de Ma-ria Rita se referia à filha como valo-roso cristal pronto a despedaçar-se à vista de qualquer aproximação apa-rentemente indesejável. Era o que se podia traduzir de suas explicações protocolares.

Um silêncio pesado foi o ato se-guinte, até que as cortinas caíssem.

- Boa noite, Dona Ione. Também vou até a praça. E aproveito para di-zer que vou fazer trabalho para meu banco em outro estado e só volto da-qui a quinze dias.

VIDAS MAL TRAÇADAS

Mudando de pau pra cavacoO título da matéria

ao lado – VIDAS MAL TRAÇADAS – preten-siosamente aspirando a ser um romance fatia-do em capítulos, parece nome de novela mexica-na, cujas atrizes têm cara de lombriga atropelada.

Essa “novela” tem seu primeiro capítulo publi-cado hoje. É um misto de ficção e realidade,com apenas duas personagens de carne e osso. Na épo-ca que o autor escolheu

para situá-la, as pessoas - e, por conseqüência, o mundo - eram diferen-tes, muito diferentes.

Poder-se-ia dizer (olha aí, o poder-se-ia di-zer fora de moda, como gruem em onomatopeia os broders) poder-se-ia dizer (repito) uma época extremamente romântica (às vezes também hipó-crita). As mulheres ainda eram donas-de-casa, do lar, prendadas. A pílu-la, o divórcio e o motel

não existiam. As moçoi-las juravam ter se casado virgens. Pelo menos as mães acreditavam.

Tenho um amigo, brilhante advogado, cul-to, baita Don Juan em outros tempos. Mas não se cansa de lamentar o mau gosto das gerações atuais, porcas, tão por-cas e naturalistas quanto as Genis do Chico, sem choro e pedidos para salvar a cidade, do Zepe-lim...

“Naquele tempo” – fala com saudade – “um flerte, dependendo de sua intensidade, malícia e grau de dificuldade de conquista, às vezes era melhor que um orgas-mo”, afirmou meu ami-go, grande conhecedor do assunto.

Falando matematica-mente: o primeiro seria uma função contínua. O prazer tende a aumen-tar por via de tempo e da crescente expectativa

de chegar ao céu. O se-gundo, uma função dis-creta, pacote com tempo marcado para terminar. Acabou, acabou. Vai ser bom, não foi?

A linguagem quase angelical deste e de ou-tros capítulos pode pro-vocar espanto: “que isso, véio, tá com nada!”

Tem importância não. Se VIDAS MAL TRA-ÇADAS alcançar um lei-tor, já seremos dois. Três, com o revisor.

O que parece não en-caixar bem no contexto de VALE ECONÔMI-CO é um “romance”. Sua linguagem solta, coloquial, às vezes de duplo sentido e difícil decodificação contrasta com números e comen-tários racionais da men-sagem direta do texto sobre economia.

Tomei o cuidado de ocupar a penúltima pági-na. Até chegar lá o leitor já jogou o jornal fora...

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