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AMOR DE OURO 50 anos de felicidade, luta e companheirismo Histórias de vida do casal Jane e Thomaz Belini Fernando Cesarotti 1ª edição Fevereiro de 2008

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AMOR DE

OURO

50 anos de felicidade, luta e companheirismo

Histórias de vida do casal Jane e Thomaz Belini

Fernando Cesarotti

1ª edição Fevereiro de 2008

Há 50 anos, plantamos uma semente. A árvore nasceu, cresceu, floriu e frutificou. Colhemos dela os mais belos frutos, que são nossos filhos, noras e netos, além de grandes amizades. “Por isso deixará o homem seu pai e a sua mãe, e se unirá a sua mulher. E assim já não serão dois, mas uma só carne.”

(Marcos 10, 7-8)

Agradecimentos

Primeiramente a Deus, que nos propiciou o dom da

vida e toda a nossa existência;

Aos nossos filhos, que não mediram esforços para que

comemorássemos esta data jubilosa de nossas Bodas de Ouro;

Ao nosso querido sobrinho e afilhado, o jornalista

Fernando Cesarotti, que com muita competência registrou

nossas vidas, de muita luta, perseverança e amor;

Aos parentes e amigos, para que este livro proporcione

a todos momentos de reflexão e mostre que a vida a dois é boa,

e que deve na realidade ser vivida a três: esposo e esposa e com

eles Jesus Cristo, sendo Ele a base de nossas realizações e de

nossa felicidade.

A todos, um fraternal abraço.

Jane e Belini

Agradecimentos do autor

A Camila, a mulher da minha vida, pela compreensão e

apoio em todos os momentos;

A meu pai, Sergio, por todo o auxílio, especialmente

nas transcrições das entrevistas;

A minha avó Amália e a meu irmão, Caco, também

personagens deste livro; e a meus tios, Ana Júlia e Luiz, por

terem me ajudado a chegar até aqui;

Aos entrevistados, meus avós do coração, que

encamparam a idéia do livro como verdadeiros editores, e pelo

exemplo de vida que dão com as histórias aqui contadas;

A meus queridos primos, Cristina, Paulo, Júlia e Neto,

que sempre me acolheram e mimaram como um sobrinho;

A meus professores no curso de Jornalismo Literário,

especialmente ao mestre Sergio Vilas Boas, por todas as dicas,

toques, conselhos e instruções;

E a Deus, por ter me dado discernimento e luz para

concluir esta obra.

Este livro é dedicado a Inês, minha mãe e meu exemplo

Apresentação

Não havia festa ou reunião familiar em que não viessem

à tona histórias dos tempos de Monte Castelo, ou das aventuras

que a família Belini enfrentou no começo da vida: viagens de

trem, passeios à praia com 10 pessoas num apartamento

pequeno onde mal cabiam 4, idas e vindas a Lopes de Oliveira,

as feijoadas na igreja. E, invariavelmente, tais histórias

terminavam com duas frases proferidas por Dona Jane. Uma

era: “Nós sofríamos, mas éramos muito felizes, e sabíamos

disso”. A outra: “Nossa vida daria um livro”.

Pois bem, aqui está o livro. A idéia é reunir algumas das

histórias vividas pelo casal Jane e Thomaz Belini nestes mais

de 50 anos de vida em comum. É claro que não está tudo aqui:

seria necessário desmatar uma floresta inteira para conter toda

a riqueza de uma vida tão extraordinária.

Melhor assim. Porque, para ouvir as histórias que não

estão no livro, seremos obrigados a mais algumas saborosas

conversas com eles –acompanhadas por um cafezinho passado

na hora e um bolo de fubá quentinho, isso se não formos

convidados para um delicioso almoço. Isto é só um aperitivo.

Sorocaba, fevereiro de 2008.

1

NASCE UM CASAL

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Caminhão? Prefiro a chuva.

Chovia a cântaros em Sorocaba naquela noite de 1953.

A jovem Jane, garota baixa e bonita, olhos escuros e grandes

como jabuticabas, cabelos pretos e levemente cacheados, não

muito compridos, caminha a passo apertado, protegida por sua

pequena sombrinha, no trajeto do Instituto Ciências e Letras,

situado no Largo de São Bento, no centro da cidade, até sua

casa, no bairro do Além-Ponte, resistindo às ofertas de carona

do pequeno caminhão Chevrolet que a segue por todo o

caminho, desde a rua São Bento, passando pela XV de

Novembro, cruzando a ponte sobre o rio Sorocaba e chegando

à Coronel Nogueira Padilha, e enfim à Coronel José Tavares,

três quilômetros de descidas e subidas com a luz forte do farol

às costas. Ao lado de Jane, cansada, a amiga Lourdes insiste:

— Vamos, Jane, pegar uma carona com o moço.

— Eu, não! Você quer ficar falada? Eu é que não vou

subir nesse caminhão e aparecer na rua de casa, imagine o que

vão dizer! Se você quer ficar falada, vai lá, sobe no caminhão.

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Depois de pouco mais de 40 minutos de caminhada,

Jane chega em casa ensopada. Ao volante do caminhão,

resignado, o jovem Thomaz, seu colega de escola, volta para

casa, em Votorantim. Ainda não foi desta vez, mas ele tentará

de novo. Até que conseguirá.

Cinqüenta e tantos anos, quatro filhos e sete netos

depois, o velho caminhão Chevrolet ainda é motivo de

saborosa discórdia.

— Mesmo depois de começar a namorar, eu nunca

andei naquele caminhão. Nunca! Imagina, eu era garota pura,

recatada, e o que a espanholada ia falar se me visse ali? — diz

Jane, direta.

— Subiu, sim, é claro que subiu. Depois de começar a

namorar, andou várias vezes comigo no caminhão — rebate o

marido.

— Eu não me lembro. Não me lembro. Acho que não.

Isso é amor

Jane Michelacci nasceu no dia 2 de maio de 1936,

“raspa de tacho” do italiano Adolpho e da portuguesa Julieta.

Eles já haviam tido cinco filhos e uma filha, Amália, nascida

em 1919 e até então a caçula. De todos os filhos, Jane foi a

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única a chamar sua mãe de “mãe”, já que os irmãos preferiam a

corruptela “Zúia”. Cresceu no Além-Ponte, bairro que era

reduto de imigrantes e levava esse nome por ficar do outro lado

da ponte sobre o Rio Sorocaba, marco da fundação da cidade

no século 17. Na adolescência, já órfã de pai, Jane e a mãe

viviam com Amália, que era casada com Máximo e tinha um

filho, Sergio. Como a irmã trabalhava em período integral

numa das fábricas da Companhia Nacional de Estamparia, Jane

ajudava a cuidar do menino.

A lida com o sobrinho a fez gostar da idéia de ser

professora, e assim que concluiu o ensino fundamental, quando

também já trabalhava na Estamparia (como a maioria das

mulheres sorocabanas na época), matriculou-se no curso

Normal, o antigo Magistério, no Instituto Ciências e Letras,

uma das mais tradicionais escolas da cidade, comandada a mão

de ferro pelo professor Luiz de Almeida Marins, o saudoso

“seu Luisito”.

Lá, Jane conheceu o jovem Thomaz Fernando Belini,

que morava de Votorantim e ganhou o apelido de “Chacrinha”

porque adorava uma bagunça – na sexta-feira, depois do

intervalo, enchia a carroceria do caminhão com os colegas da

escola e iam todos para a “Quitandinha”, apelido carinhoso

dado à zona de meretrício da cidade.

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Thomaz era bem mais independente que seus colegas.

Mais jovem que Jane, o oitavo dos dez filhos do casal José

Belini e Maria nasceu no dia 30 de julho de 1937, em Domélia,

distrito de Agudos, cidade próxima a Bauru. Aos 10 anos, a

família instalou-se em Votorantim, ainda um distrito de

Sorocaba, cuja economia girava em torno das fábricas de

cimento, papel e tecidos da família Ermírio de Moraes. José

Belini montou um armazém e uma pequena olaria, e logo

colocou a família para ajudar – dos 10, eram apenas dois

homens: Antonio, o mais velho, e o “Thomazinho”, como as

irmãs o chamavam.

O mimo, no entanto, não lhe tirou a gana e o ímpeto

para trabalhar. Aos 14 anos, longe da idade para ter habilitação,

ele já era o responsável pelas entregas a bordo do caminhão da

família. Não só por gosto, mas por necessidade.

— Naquela época, quando ia começar a construção de

Brasília, houve uma paralisação na construção civil, uma

recessão econômica enorme. A produção do meu pai foi

acumulando na olaria, a ponto de a gente manter no depósito

500 milheiros de tijolos, um pátio enorme abarrotado, cheio de

tijolos por todo lado. Foi uma época muito difícil, e eu dirigia o

caminhão, embora sem carta, porque a gente não tinha

condições de pagar um motorista.

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Olhos claros, cabelos lisos e sempre bem penteados, de

altura mediana e magro, mãos grossas de trabalhador, Thomaz

chamava a atenção das garotas no Ciências – menos de Jane,

que demorou a dar bola.

— Eu gostava de outro, um rapaz que era excelente

dançarino e dava show no Sorocaba Clube (à época, o mais

chique da cidade), mas ele era muito solicitado e não dava bola

para mim. Naquela época, a gente fazia o “footing” ali na praça

Coronel Fernando Prestes, com as moças dando voltas para um

lado e os rapazes para o outro, até que você encontrava quem

queria e parava para conversar. Aí às vezes vinha o Belini e

chegava na minha frente, mas eu não dava muito papo para ele,

não. Eu já pensava: “Olha quem eu fui encontrar...”

Aos poucos, porém, o sentimento começou a mudar.

Com tanta atenção, Jane começou a se interessar pelo moço de

Votorantim. E percebeu isso no dia em que chegou à escola e

deu de cara com Thomaz conversando com uma garota.

— Eu fiquei com um ciúme danado e comecei a

perceber que estava gostando dele. E onde já se viu, ele vindo

atrás de mim, oferecendo carona, e de repente ficava ali nos

papos com outra? Fiquei louca da vida.

Mal sabia Jane que a “outra” era Heide, uma das oito

irmãs de Belini.

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— A Heide tinha ido comigo à cidade para resolver

umas coisas e eu pedi a ela que esperasse ali na escola para ver

a Jane. Eu já tinha falado nela, estava mesmo interessado, e

quis mostrá-la para minha irmã. Deu certo.

Casamento a jato

Em março de 1954 começou o namoro, conduzido pelos

rígidos padrões morais da época.

— Lembro que a gente estava começando a namorar e

ficávamos na frente da minha casa, só conversando. E uma

vizinha apareceu na janela e começou a falar: “Que absurdo,

essa namoradeira no meio da rua”. Não era fácil namorar

naquele tempo, não — recorda Jane.

“Zúia” morreu em 1955, de câncer, não sem antes dar a

aprovação ao futuro genro. No fim do mesmo ano, os dois

namorados se formaram professores, e começou a difícil luta

por um lugar ao sol. Naquela época, o magistério era uma

carreira que pagava bem e dava status. O problema é que não

havia concurso público, e os recém-formados, para serem

admitidos no Estado, precisavam ganhar pontos e experiência

como substitutos.

— A gente ia pegando aula onde aparecia. O Belini era

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mais conversador, ficava amigo de todo mundo e conseguia

mais aulas, eu também pegava algumas, mas era pouca coisa

para conseguir ter pontos o suficiente e poder escolher uma

turma — conta Jane.

— Meu pai sempre me dizia: “Forma primeiro,

continua trabalhando aqui. No dia em que você se formar, sua

namorada também é professora, aí vocês se casam e vão

trabalhar onde tiver vaga”. Ele sempre achou o magistério uma

boa opção, eu tinha duas irmãs que já eram professoras. E o

salário na época era compensador: o professor efetivo ganhava

cinco salários mínimos. Então, numa casa com dois

professores, seriam dez salários mínimos. Era um grande

orçamento para a época.

A idéia do casamento, opção natural para o namoro,

ganhou força quando os dois jovens perceberam que, em

Sorocaba, seria difícil acumular pontos para escolher uma

escola, visto que a cidade oferecia poucas opções. E amigos

deram ao casal a sugestão de ir procurar aulas na região da Alta

Paulista, no oeste do Estado, que ainda estava sendo

desbravada e tinha muitas opções para os jovens professores. É

Belini quem conta:

— Em janeiro de 1958, nós fomos para Tupi Paulista,

por indicação de um outro casal de Sorocaba que estava por lá,

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e vimos que havia muitas oportunidades na região. Voltamos e

decidimos nos casar, em coisa de oito, dez dias. Foi rápido,

bem rápido.

E Jane completa:

— Foi tão rápido que teve gente que pensou que eu

estava grávida, que achou estranho. Se for pensar, era mesmo

estranho, a gente não tinha muita cabeça. Hoje em dia as

pessoas planejam tanto o casamento, e a gente fez tudo assim,

vapt vupt. Eu sofri muito de deixar a minha família, a Amália

já tinha mais uma filha, a Ana Júlia, que eu tinha ajudado a

cuidar, e sempre fui muito ligada a eles, mas não tinha jeito,

era a hora de tocar a vida.

Como Jane já era órfã de pai e mãe, o jovem Thomaz,

20 anos recém completados, foi pedir a mão dela ao cunhado, o

chefe da família. Funcionário da Estrada de Ferro Sorocabana,

como grande parte dos homens de Sorocaba na época, Máximo

Cesarotti era um homem durão, que furava as bolas de futebol

e os pneus da bicicleta do filho para evitar que o garoto se

machucasse, e ganhou o apelido de “Bolore” por ser muito

teimoso – alcunha que sobrevive até hoje na família. Jane não

esquece o dia do pedido de casamento.

— O Máximo gostava sempre de jantar e, depois, ler o

jornal. O Belini então começou a falar com ele, que a gente já

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estava namorando havia bastante tempo, pensando em casar e

todo aquele papo. Falou e falou. O Máximo nem prestou

atenção, porque estava lendo o jornal, e de repente virou e

disse: “O que você estava falando mesmo, rapaz?” Não deu a

menor bola. Mas ele gostava do Belini, eles se davam bem.

E assim, no dia 16 de fevereiro de 1958, com as

bênçãos das duas famílias, Jane e Thomaz se casaram. Os dois

de branco, belíssimos, nem tiveram muito tempo para

comemorar e descansar: no mesmo dia, pegaram o trem rumo

ao Oeste Paulista. Havia uma vida inteira por começar.

2

DE CASA EM CASA

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Amor e uma casinha de madeira

A primeira parada do jovem casal foi em Tupi Paulista,

a cerca de 600 quilômetros de Sorocaba, mas não deu certo: as

vagas para professores haviam sido preenchidas no intervalo de

15 dias entre a primeira viagem e o casamento.

— Foi pura falta de orientação — explica Belini. —

Nós devíamos ter feito uma inscrição, mas não fizemos,

resolvemos aparecer direto e demos com os burros n’água.

O casal recebeu então outra dica: uma cidadezinha

chamada Monte Castelo, a 15 quilômetros de Tupi.

— Disseram para a gente que lá devia ter vaga porque

ninguém queria aquelas escolas, o prefeito tinha fama de não

pagar direito — conta Jane. — Nós, em vez de presente de

casamento, ganhamos dinheiro, toda a família deu dinheiro

para que a gente pudesse viajar e sobreviver enquanto não

arrumasse aula. Então, quando chegamos a Monte Castelo,

passaram a informação de uma escola, que estava fechada fazia

muito tempo, num sítio. Como era uma escola em que dava

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para contar pontos para o Estado, resolvemos aceitar.

A escola ficava num bairro chamado Bolognin, a 12

quilômetros do centro da cidade. Como seria difícil ir até lá

todos os dias, os dois acabaram se instalando num “puxadinho”

nos fundos da única sala de aula.

— A casa só tinha um cômodo, mais um banheiro

separado, com uma fossa negra. Chão de terra batida. Quando

chegamos, a casa e a escola estavam abandonadas, com mato

até no teto — relata Jane. — Daí o Belini pegou uma turma lá

para dar uma ajeitada. Fizemos uma limpeza e deixamos o

mais arrumado possível para a gente morar.

Era um tempo duro: a mobília do casal se resumia, no

começo, a uma espiriteira para aquecer água, um penico e uma

cama patente, última moda na época, com guarda de madeira

desenhada e um estrado, teoricamente, reforçado. O colchão

era forrado de capim. E, no primeiro dia de “uso” da cama, o

susto: o estrado quebrou.

— Nós escoramos ela com um tijolo, e durante o tempo

todo que moramos no sítio a cama ficou assim, apoiada no

tijolo — recorda Jane, que demorou a se habituar à vida

“rural”. — Eu morria de medo dos bichos. O Belini tinha

crescido num sítio, mas eu era da cidade, não estava

acostumada com aquilo.

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Logo os dois fizeram amizade com um casal que vivia

no sítio vizinho, Zeca e Palmira. Batizaram uma de suas filhas

e se tornaram compadres. Cozinheira de mão cheia, ela

fornecia a comida para Belini e Jane, que só tinham tempo para

as aulas, enquanto Zeca ajudava o professor a melhorar sua

casinha nas – poucas – horas vagas.

— No começo, eu trabalhava em três períodos. Comprei

um cavalo e, de manhã, cavalgava até outra escola, a 8

quilômetros de distância. Depois eu voltava, dava aula à tarde e

depois à noite, junto com a Jane, na mesma sala. A escola era

grande, de madeira, e nós dividimos em duas carreiras de

bancos: eu dava aula para os mais adiantados e ela cuidava da

alfabetização. Cheguei a dar aulas para mais de 50 ao mesmo

tempo, era um verdadeiro batalhão — recorda Belini. — No

segundo semestre, eu perdi as aulas da manhã, e junto com o

compadre Zeca fiz uma cozinha para a casa. Com um fogão a

lenha, de barro, e depois vieram primeiros “móveis”. Como o

chão era de terra, fiz um buraco, pus lá duas estacas de

madeira, peguei uma janela velha que estava encostada,

coloquei em cima da madeira e estava feita a mesa. Com mais

dois pedaços de tábua, fiz um banco, tudo fixado no chão.

— Era só um banco, um comia sentado e o outro ficava

em pé — completa Jane.

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— E não foi só isso. Eu fui ao armazém mais próximo,

chamava-se Casa São João. O dono me arrumou um caixote de

madeira que vinha Matte Leão. Era bonito, resistente, então

serrei no meio, pus uma dobradiça de couro e preguei na

parede, em cima de um pedaço de pau, ficou sendo nosso

armário, nossa cristaleira. Depois eu fiz ainda outro cômodo de

madeira na casinha.

Foi nessa região, cheia de imigrantes italianos e

nordestinos, que apareceu a primeira filha do casal. A gravidez

apareceu poucos meses depois do casamento.

— Ela soube que estava grávida andando a cavalo.

Subiu no cavalo e falou: “Ai, acho que estou com enjôo”. Na

hora o compadre Zeca virou e disse: “Ih, tá vindo um aí” —

diverte-se Belini. — Lembro como se fosse hoje.

— Não usava preservativo, não tinha pílula... Era um

atrás do outro — emenda Jane, que, em 23 de março de 1959,

em Sorocaba, deu à luz Maria Cristina, a primeira filha do

casal. — Na época não tinha ultra-som, a gente não sabia se ia

ser menino ou menina. Mas eu era muito devota de Nossa

Senhora, e tinha certeza que, se fosse menina, ia chamar Maria.

E Cristina era um nome que eu gostava, se fosse menina seria

Maria Cristina. E foi.

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As viagens

O nascimento do primeiro filho estava previsto para o

fim de fevereiro. Jane e Belini resolveram passar as férias de

fim de ano em Sorocaba, ter o bebê e só depois retornar para

Monte Castelo. Mas o parto atrasou mais de 20 dias, e o pai

teve de voltar às pressas, para não correr o risco de perder as

aulas do semestre e ficar sem trabalho. Jane acabou ficando

com a família até julho, quando Cristina já tinha de três para

quatro meses.

Monte Castelo, cidade com cerca de 4 mil habitantes

pelo Censo de 2000 do IBGE, fica a 622 quilômetros de

Sorocaba. Hoje, com estradas duplicadas e carros potentes, é

uma viagem que não se faz em menos de sete horas. Naquele

tempo, porém, o meio de transporte mais viável era o trem. E

cada viagem, coisa para um dia inteiro.

— A gente pegava o trem de Sorocaba até Santo

Anastácio. Saía daqui às nove da noite, levava mais ou menos

12 horas — conta Belini. — Lá, a gente fez amizade com o

dono de uma pensãozinha que ficava perto da estação, então

aproveitava a parada para tomar banho, almoçar, dar uma

descansada, e ao meio-dia nós pegávamos na rodoviária um

ônibus até Dracena. Estrada de terra, um barulhão, poeirada,

chegávamos perto das quatro das tarde, na hora certa de pegar

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outro ônibus, bem precário, que ia até Andradina, passando por

Tupi Paulista e Monte Castelo. Era o tempo justo de saltar de

um ônibus, colocar as malas no outro e seguir viagem. Em

Monte Castelo, o ônibus passava a uns 4 quilômetros do nosso

rancho, mas não tinha como descer com as malas e andar todo

esse pedaço, então a gente parava no centro da vila e pegava

uma charrete. De lá até em casa eram 12 quilômetros, mais

uma hora e pouco. Chegávamos em casa perto das 8 horas da

noite de outro dia. Quase o tempo de ir até o Japão, imagine, 23

horas de viagem. Veja bem a dificuldade que era.

Isso quando o Rio do Peixe, entre Dracena e Andradina,

não enchia demais nos períodos de chuva. Certa vez, a ponte

caiu e os ônibus não conseguiam passar – e tome baldeação de

bote sobre o rio, para encontrar outro ônibus esperando do lado

de lá, o que aumentava ainda mais o tempo da jornada.

Depois de um tempo, apesar das ampliações no cômodo

atrás da escola, morar no puxadinho ficou inviável. O teto não

resistia às chuvas, e uma goteira caía exatamente sobre a cama,

fazendo com que os pais tivessem de se revezar com um

guarda-chuva para evitar que Cristina se molhasse. E ainda

teve, certa noite, uma “correição” de formigas.

— Você sabe, as formigas andam em fila, vai uma na

frente e as outras seguindo. Então, para ir de um lado da casa

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até a cozinha, as formigas passaram por cima da cama,

enquanto a gente estava dormindo. Nós assustamos e

acordamos, mas quando você se mexe acaba com a fila. Aí

virou um alvoroço só — rememora Belini.

— E a gente não tinha nenhum inseticida em casa —

emenda Jane. — O Belini lembrou que podia queimar uns

trapos, para o fogo espantar as formigas, mas não tinha nenhum

trapo em casa, só roupa. E a gente acabou botando fogo nas

roupas mesmo, para se livrar das formigas. Cada idéia!

Então uma nova amiga, Dona Aquilina, ofereceu outra

casinha para Jane e Belini morarem. Também de madeira e

com chão de terra batida, só que mais confortável, até com

direito a um chuveiro, do tipo “Tiradentes”.

— Você pegava a água no poço, esquentava na chaleira,

daí amarrava uma cordinha e puxava uma argola com um

prego, abria e fechava como se fosse um chuveiro. Por causa

da cordinha que se chamava “Tiradentes”. Era um banho

gostoso, muito melhor que banho de bacia — descreve Belini.

Foi nessa segunda casinha, também na zona rural de

Monte Castelo, que eles moravam quando Jane engravidou do

segundo filho – e mais uma vez o parto foi longe de casa, agora

num hospital em Votorantim, no dia 10 de abril de 1961. Os

avós paternos acompanharam de perto e batizaram o menino.

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— Eu sempre gostei do nome Paulo. Meu pai tinha um

tio que chamava Paulo, muito valente, era um daqueles

italianos terríveis que, antes de ir a uma festa, tomava umas a

mais e entrava com cavalo e tudo e acabava com o baile. Meu

pai foi praticamente criado por ele, e sempre falava, em tom de

brincadeira: “Se tiver um filho, não coloque Paulo”. Mas eu

gostava muito de Paulo, e também de Maurício, então fiquei na

cabeça que, se fosse homem, seria Paulo Maurício.

— Ele também não estava aqui quando o Paulo nasceu.

O parto foi com parteira, e depois veio me visitar o dr. Aldemar

de Castro, que era o médico de toda a família, e perguntou se já

tinha nascido o José Belini Neto. Eu fiquei sem saber o que

fazer, porque meu sogro e minha sogra estavam comigo no

hospital e levaram o nenê até a capela para batizar. E meu

sogro sempre nos ajudou muito, mas eu falei que o Belini

queria muito Paulo Maurício, e assim ficou.

A perda do santo

Certo dia, Jane estava amamentando o pequeno Paulo

quando foi pega no flagra pela filha mais velha.

— Quando amamentava o Paulo, eu escondia da

Cristina, porque tinha medo de que ela ficasse lombrigada, esse

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era o costume da época. Mas eu me distraí e ela viu. Ficou

observando, com aquele olhinho assustado, o cabelinho loiro,

quase branco, e eu expliquei: “A mamãe está dando leite pro

Paulo, pro seu irmãozinho”. Passou, mas no mesmo dia, à

noite, ela começou a ter convulsões, febre. Será que foi por

causa da lombriga?

No desespero, eles deixaram Paulo com Dona Aquilina,

que emprestou sua carroça, puxada por um burro chamado

Relógio, para levar a menina no único médico da cidade, dr.

Adelino Camacho. Acostumado a andar de cavalo pela região,

Belini acabou se perdendo no comando do Relógio, porque era

noite escura, sem lua.

— Eu tenho astigmatismo, dificuldade de enxergar no

escuro, e me perdi. Acabei num outro rancho, num lugar que eu

conhecia mais ou menos, e um moço falou: “Olha, professor, tá

vendo aquele ponto luminoso ali? É o Redentor”. O Redentor

era uma escola que ficava na Reta, a estrada que levava até a

cidade, mais ou menos no meio do caminho. E perto tinha um

boteco, de um italiano que tinha uma filha muito bonita,

chamada Polônia. Os animais que passavam por ali estavam

acostumados a parar. E não teve jeito: chegando no bar, o

Relógio parou. A Cristina daquele jeito, mas tivemos que

descer pelo menos um pouco, senão o burro não seguia viagem.

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— Quando chegamos ao médico, era aniversário da

filha dele, uma menina chamada Rosângela, da idade da

Cristina. Mas o médico queria muito bem à gente, então parou

a festa, atendeu a Cristina, mandou aplicar um remédio e pediu

uma lavagem. Nós fomos passar a noite no hotel da Dona

Imaculada, o mesmo em que tínhamos ficado quando

chegamos à cidade, logo depois do casamento — relata Jane.

Só depois de se acalmar é que a mãe se deu conta de

que estava faltando alguma coisa.

— Eu tenho um Santo Antônio pequeno, ganhei de uma

freira quando eu era jovem, com 15, 16 anos, ali na Igreja Bom

Jesus, perto da minha casa, e sempre carreguei comigo. Então,

na hora em que saímos de casa, eu passei a mão no Santo

Antonio para ir rezando no caminho. Mas a gente se perdeu,

depois parou no bar, aquela correria, e eu perdi o santinho.

Era uma imagem branca, de madeira, bem pequeno –

não mais de 15 centímetros de altura.

— No outro dia eu fui trabalhar a cavalo, como sempre,

e no caminho da escola parei ali no boteco do Redentor. Então

a Polônia perguntou da Cristina, se estava tudo bem com a

menina, e depois mostrou para mim o santinho: “Olha,

professor, o que a criançada achou ontem”. Era o Santo

Antônio. A criançada que andava a pé tinha encontrado, no

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meio do areião, aquele santinho. Foi um milagre, mesmo —

recorda Belini, com o pequeno Santo Antônio nas mãos.

A lavoura e a geladeira

Lá pelos idos de 1960, Belini resolveu se aventurar

como agricultor. Incentivado pelo compadre Zeca, que teve a

mesma idéia, o professor resolveu arrendar um lote de 15

alqueires, ou 360 mil metros quadrados, numa das grandes

fazendas da região, para tentar aumentar a renda da família.

Tempos de pouca preocupação ecológica.

— É muita terra, mata virgem, então a gente tacava

fogo no mato, limpava e plantava. No primeiro ano, plantei

mamona e chamei um cara para cuidar, tomar conta. Mas teve

uma seca danada e a produção foi pequena. Depois eu plantei

um pouco de milho, junto com a mamona, mais abóbora, e

consegui pelo menos empatar o investimento, deu para pagar o

ano de trabalho do rapaz que cuidava. Depois plantei algodão,

nunca vi uma lavoura tão linda. E era algo que dava bastante

dinheiro. Mas, uma tarde, caiu uma chuva forte, com granizo.

— Quando a pessoa está com sorte, não dizem que

“está chovendo na horta”? Pois então, choveu na horta dele...

— brinca Jane.

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— É, mas choveu de um jeito que acabou pegando na

horta inteira e acabei perdendo quase toda a safra,

principalmente a primeira, que era a melhor. Ficamos sem

nada, tive de vender quase tudo o que eu tinha, meu cavalo e

até as galinhas, e mesmo assim não consegui pagar tudo o que

fiquei devendo. Tive de voltar a trabalhar em três períodos,

levou uns sete meses para conseguir quitar a dívida.

Foi nesse tempo, também, que eles se mudaram para o

centro de Monte Castelo. Os dois professores conseguiram

enfim escolher classes na escola que ficava na vila e

compraram a primeira casa própria. Ali nasceu a terceira filha,

Júlia Maria, em 11 de novembro de 1962. Nome em dupla

homenagem, à avó materna e à santa favorita de Jane, ela foi a

única dos filhos a chegar ao mundo em Monte Castelo.

E foi também nessa casa que Belini ganhou seu melhor

presente: uma geladeira, que na época ainda era coisa para

poucos, mas fazia uma falta danada no calor do Oeste Paulista.

— Era uma Frigidaire, importada. Foi a minha maior

alegria, a coisa que mais me emocionou. Nessa época estava

sendo instalada a rede de energia elétrica na cidade, antes era

com gerador e era aquela coisa, chegava às dez da noite

desligava e ficava todo mundo no escuro. Um amigo meu, o

Zelão, tinha um caminhão e disse que ia até Andradina

37

comprar geladeiras para o pessoal da cidade, e perguntou se eu

queria. Eu não tinha o dinheiro para comprar à vista, então

cheguei para outro amigo, o Nelson Malvezzi, que tinha um

casal de filhos estudando comigo, e pedi para ele trocar um

cheque para mim, até o dia do pagamento. E ele disse: “Deixa

que eu pago o Zelão e você acerta comigo depois, professor.”

Quando chegou a geladeira em casa, eu enfiava a cabeça

dentro, de tanta alegria. Eu nem acreditava. Eu sempre gostei

de coisa gelada, e meu pai tinha armazém, balcão frigorífico, e

a geladeira era algo que desde a mudança para Monte Castelo

sempre me fez muita falta.

— Antes, quando a gente precisava de gelo, mandava as

crianças pedirem no vizinho, um japonês que era dono de um

bar. Ele reclamava, fazia cara feia, mas sempre dava. —

emenda Jane. — No dia em que chegou a geladeira, não tinha

nada para colocar dentro! Aí eu comprei beterraba, que era

baratinho, e fiz manjar. As crianças não viam a hora que

gelasse para comer!

Enfim, em casa

A vida tinha melhorado, mas a distância de Monte

Castelo para Sorocaba fazia com que os cinco Belini vissem a

38

família apenas uma ou duas vezes por ano – Amália e Máximo

fizeram algumas visitas com os filhos, e quando Júlia nasceu

chegaram carregados, com um baú cheio de enxoval, para

passar o fim de ano. Mas a saudade apertou e eles resolveram

se mudar.

No fim de 1964, já efetivos na rede estadual, eles se

instalaram em Canguera, um distrito de São Roque conhecido

pela produção em massa de vinhos, a cerca de 50 quilômetros

de Sorocaba – muito mais fácil para rever os familiares.

— Naquele tempo não se planejava muito. Se pintava a

oportunidade, a gente fazia as malas e ia embora, puxava o

carro — explica Jane.

A mudança foi num caminhão, emprestado pelo irmão

de Belini, Toninho. Quando chegaram à sede do Grupo

Escolar, a surpresa: não havia onde descarregar a mudança. A

casa que Belini havia reservado para alugar estava ocupada.

— Fui até a escola, conversei com o diretor e ele falou:

“Olha, tem o porão da escola, se vocês quiserem ficar.” E nós

ficamos ali, não era bem um porão, era mais um puxadinho.

Moramos lá uns seis ou sete meses, até arrumar uma casa. Ah

sim, levei a geladeira, é claro — informa Belini.

Foram cerca de dois anos em Canguera. Em dezembro

de 1966, quando Jane já estava grávida pela quarta vez, o

39

cunhado Máximo morreu, vítima de câncer de pulmão. Depois

de conseguirem novas transferências – Belini para Pilar do Sul,

Jane para Piedade –, a família foi morar em Sorocaba pela

primeira vez, após quase nove anos de casamento.

— Com a morte do Máximo, a Amália se mudou para a

rua Manoel Lopes, e nós mudamos para a casa dela, na rua

Coronel José Tavares, que era pertinho. Nós ficávamos fora o

dia inteiro, a Amália ficava com as crianças e a Cristina

ajudava a cuidar dos irmãos menores. A gente se mudou

sabendo que não ia ter vaga nas escolas da cidade, mas era

melhor morar aqui, perto da família, e também seria mais fácil

ir de Sorocaba para as outras cidades da região.

A rotina de viagens de férias foi então substituída pelas

epopéias diárias para o trabalho, de ônibus. Ou de carona, que

eram mais baratas, mais rápidas e, tantos anos depois, ainda

rendem boas risadas de Jane ao lembrar.

— Para chegar mais depressa em Sorocaba, a gente

estendia a mão e ia com o primeiro que parasse. Eu viajava

com uma amiga, a Inês, que hoje mora em Votorantim. Um dia

parou uma Kombi, era de uma funerária. Viemos as duas

sentadas atrás, segurando no cano do caixão, e o motorista

dirigindo como um louco, parecia que queria arrumar mais

clientes para a empresa dele. Uma vez viemos em cima de um

40

caminhão de toras. E outra, num caminhão pequeno, entramos

as duas na cabine e ficamos apertadas com o motorista. Eu

empurrava a Inês para perto dele, porque ela era solteira. No

meio da viagem, ele pediu para ela, todo envergonhado: “Dona,

dá para a senhora abrir um pouquinho as pernas, que eu não tô

conseguindo cambiar?” Mas eram outros tempos, a gente

viajava com o pessoal da cidade, os sitiantes, hoje é muito mais

perigoso. Não recomendo para ninguém fazer o que eu fiz.

A pressa se explicava: havia mais um filho para criar.

Em 1º de julho de 1967 nasceu o caçula, José Belini Neto,

homenagem póstuma ao avô, que morrera cinco anos antes, em

junho de 1962.

— Quando ele nasceu, o Belini falou para mim: “É um

menino, Jane”. E eu respondi na hora: “Que bom, chegou o

José Belini Neto”. Tínhamos uma certa dívida com meu sogro,

porque ele sempre foi maravilhoso para nós, e ficamos com

aquela coisa no coração, de que a gente devia um José Belini

Neto, porque ele era um homem orgulhoso do nome dele.

Em 1969, depois de construir e não conseguir pagar

uma casa no Além-Ponte, já que a inflação e a correção

monetária tornaram inviável o financiamento junto à Caixa

Econômica Federal, Belini comprou uma casa na rua

Gonçalves Magalhães, no Trujillo, então um bairro novo e

41

pouco habitado, que ficava no chamado Além-Linha – do outro

lado dos trilhos, em relação ao centro da cidade.

No ano seguinte, ele conseguiu uma transferência para

Piedade e os dois começaram a viajar juntos, ainda de ônibus.

Em 1972, Belini finalmente arrumou um cargo numa escola de

Sorocaba, no bairro Lopes de Oliveira, na periferia da cidade.

No ano seguinte, foi a vez de Jane se estabelecer, na Escola

Estadual Prof. Joaquim Izidoro Marins, na Vila Angélica,

bairro no meio do caminho entre o Trujillo e Lopes de Oliveira.

Compraram seu primeiro carro, um Fusca ano 1965. A vida

começava a abrir um sorriso para a família Belini.

3

A GENTE NÃO QUER

SÓ COMIDA

45

Terra de migrantes

Sorocaba nasceu no século 17 como ponto de passagem

para os bandeirantes. Depois, virou escala para os tropeiros,

com a famosa Feira de Muares, que reunia negociantes de todo

o país, comercializando principalmente animais, carne seca e

objetos de couro. Na virada do século 19 para o 20, com a

criação da Estrada de Ferro Sorocabana, a cidade virou um

pólo industrial forte, referência nacional no setor têxtil, a ponto

de ganhar o apelido de “Manchester Paulista”, e começou a

atrair imigrantes europeus que vinham para o Brasil, fugindo

principalmente da fome na Itália e da perseguição política na

Espanha. A partir da década de 1950, com a industrialização do

País e a proximidade de São Paulo, Sorocaba tornou-se um dos

destinos preferidos dos migrantes que deixavam o Nordeste e o

Paraná e se instalavam nas periferias dos grandes centros.

E eram basicamente os filhos desses nordestinos e

paranaenses que Belini encontrou ao assumir seu posto na

Escola Estadual Profª Maria Cândida de Araújo, no bairro de

46

Lopes de Oliveira, local carente, com ruas de terra e sem

benfeitorias na Zona Norte de Sorocaba. Sempre ativo nas

comunidades em que viveu, ele se esforçava para melhorar um

pouco a realidade daquela gente humilde e trabalhadora.

— Eram muitos loteamentos, e o povo chegava de

bando. O número de alunos dobrava a cada ano, praticamente,

e a gente atendia a toda a região. Fiz muitas amizades por lá. O

compadre João chegou com dez filhos, nos batizamos uma

delas, a Joelma. Só a moça mais velha não precisou da escola,

todos os outros passaram por mim — conta Belini. — Era um

cara muito bom, religioso, ajudava em tudo. O primeiro tijolo

da Igreja São João Batista, lá no bairro, fomos eu, ele e o Padre

Raimundo que pusemos. Começamos a fazer a igreja em frente

à escola. O Padre Raimundo era outra pessoa muito boa, um

verdadeiro vocacionado.

Belini sabia que não bastava ensinar, era preciso

também alimentar os alunos, que muitas vezes faziam na escola

sua única refeição do dia – e às vezes até traziam a família para

dividir a comida. Num tempo em que a merenda era distribuída

ao Deus-dará pelo governo do Estado, o professor se mexia.

— A merenda era proporcional ao número de alunos,

mas os meus comiam por cinco! Então eu saía com meu carro,

fazia feirão com saco nas costas, no Mercado Municipal e no

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Ceagesp, e também pegava a merenda que sobrava de outras

escolas, em regiões de maior poder aquisitivo. Os diretores

ligavam para mim e eu ia buscar o material que sobrava, botava

tudo no meu carro e levava para a escola.

Nessa “caça à merenda”, Belini aprendeu a arte de

cozinhar para um grande número de pessoas, algo que ainda

lhe seria bastante útil. Mas a comida não era a única

necessidade dos alunos daquela região. Jane lembra dos

passeios do marido com a criançada pelo centro de Sorocaba.

— Ele enchia o Fusca e levava todo mundo para o

centro, para ir buscar os óculos doados por um japonês, o

Alfredo Meiken, dono da ótica Oculândia.

— Quem não cabia no carro, a gente dava dinheiro para

vir de ônibus. Todo mundo descia ali no Mercado Municipal e

ia em fila até a Rua da Penha. Um médico muito bom, o dr.

Carlos Alberto Lazar, ia até as escolas e levava os remédios, as

receitas eram fornecidas pelo Palácio da Saúde. E para comprar

os óculos o povo não tinha dinheiro, então contávamos com a

ajuda dos clubes de serviço, o Lions e o Rotary.

Na busca de melhorias para a escola, Belini conseguiu

mobilizar a APM, Associação de Pais e Mestres. Organizavam

de tudo: Bazar da Pechincha, quermesses, festas disso e

daquilo.

48

— Para fazer a limpeza, tinha que usar o dinheiro da

APM e pagar alguém, que trabalhava ou bem de noite, ou logo

de manhã. Depois da Maria Cândida eu passei para outra

escola, a Francisco Camargo César, na Vila Helena, mas o

trabalho continuou o mesmo.

Descanso zero

Os filhos foram crescendo, e a necessidade de dinheiro,

aumentando. Cursinho e faculdade eram despesas pesadas

demais para um casal de professores da rede estadual que via o

salário se arrochar um pouco mais a cada ano.

— Acho que nunca cheguei a receber aqueles cinco

salários mínimos que eu esperava no começo do casamento.

Quando entramos, o substituto ganhava menos; quando fomos

efetivados, o salário caiu — reclama Belini, que ainda tinha

tempo para cursar a faculdade de Pedagogia, na atual

Universidade de Sorocaba, com o objetivo de se tornar diretor.

A solução para incrementar a renda foi arrumar um

trabalho extra: a partir de 1974, Jane e Belini começaram a

tocar, nos fins de semana, o restaurante da sede campestre do

CPP, o Centro do Professorado Paulista, entidade que congrega

os professores da rede estadual de ensino.

49

Não foi um presente caído dos céus: os dois eram sócios

da entidade “desde sempre”, pois a associação era praticamente

automática quando o professor era efetivado. E Belini havia

feito parte da diretoria que conseguiu viabilizar o clube de

campo, até então um elefante branco praticamente abandonado

nos arredores de Sorocaba.

— O diretor do CPP aqui em Sorocaba era o Pedro

Castilho, um diretor de escola muito amigo da gente. E eles

tinham uma sede campestre boa, ali perto da Raposo Tavares.

Então o Pedro Castilho juntou uma equipe para começar a

trabalhar pelo clube, que quase ninguém freqüentava. A

primeira tarefa foi botar a piscina para funcionar.

Na época, a região onde fica a sede campestre era

pouco habitada, sem abastecimento de água e energia elétrica.

A diretoria central do CPP prometeu ceder o maquinário para a

piscina, e lá se foram os dirigentes sorocabanos negociar a

água diretamente com o então prefeito, Armando Pannunzio.

Um dos grandes políticos da história de Sorocaba, hoje

nome de avenida, Pannunzio já conhecia Belini de trabalhos

sociais e prometeu colaborar. Ficou combinado que o Saae

(Serviço Autônomo de Água e Esgoto) furaria um poço

artesiano e não cobraria pelo trabalho, desde que houvesse

água suficiente para abastecer os moradores da região.

50

— A água do poço era excelente, mas a vazão não era

suficiente, então nós negociamos e pagamos ao Saae pela

perfuração — explica Belini. — Também conseguimos um

acordo para que a prefeitura aplainasse o terreno do clube e, em

troca, ficasse com a terra, que era um saibro muito bom para

colocar nas estradas vicinais. E conseguimos levar a energia.

Era o fim da linha e sempre dava problema, só podia ligar a

bomba da piscina de madrugada, porque senão caía toda a

força. Mas aos poucos nós fomos nos ajeitando.

Com a piscina aberta, o clube finalmente passou a

funcionar para valer, recebendo a cada fim de semana mais e

mais professores e suas famílias – que precisavam se alimentar.

E Belini, já acostumado a lidar com comida nas escolas, se

apresentou para a tarefa.

— Nós montamos uma pequena lanchonete, bem

precária. Eu gostava de cozinhar, então me pediram que

montasse algo para atender o povo aos sábados, domingos e

feriados. Depois a direção do CPP fez um salão, um pequeno

restaurante, uma cozinha adequada, e nós pudemos trabalhar

em melhores condições.

Entre 1974 e 1979, os Belini tinham programa definido

no fim de semana: trabalhar no restaurante do CPP. De simples

lanchonete, com misto quente e salgadinhos, virou coisa de

51

Primeiro Mundo, com almoços de lamber os beiços: feijoada,

frango, lagarto, puchero, lombo recheado... Jane lembra,

porém, que nem sempre o lucro era garantido.

— Às vezes estava um sol lindo, mas bastava a primeira

nuvenzinha aparecer para o pessoal não aparecer. E a gente não

pensava: se não vendia, em vez de congelar, saía distribuindo a

comida entre os parentes. Uma vez, fizemos um lagarto

recheado, com calabresa, uma delícia. Mas choveu e não

vendeu nada. Que fracasso...

Toda a família entrava na roda: Cristina, a mais velha,

entrou nessa época na faculdade de Farmácia, na Unesp de

Araraquara, mas, se vinha passar o fim de semana em

Sorocaba, tinha de estar no CPP, assim como Paulo, que

começou a estudar Direito, e Júlia, que sonhava em ser médica

e ajudava na cozinha. O caçula Neto era o responsável pela

coleta das garrafas vazias pelo salão. Sergio, o sobrinho que

Jane ajudou a criar antes do casamento, e que ganhava a vida

como engenheiro e professor, havia acabado de se casar com a

também professora Inês, e era outro a entrar na roda, até

mesmo depois que seu primeiro filho nasceu.

— Foi um período que nos valeu muito, embora nós nos

matássemos. De segunda a sexta no trabalho, e nos fins de

semana e feriados nós ficávamos todos lá. Até no inverno,

52

mesmo sem a piscina o pessoal foi se acostumando a ir lá para

almoçar. Nós só paramos em 1979 porque não estávamos mais

agüentando, mas foi um trabalho de muita garra.

Feijoada no alicerce

Sem o restaurante, Belini passou a colocar seus dotes

culinários a serviço de entidades beneficentes. Quem mais se

aproveitou desse talento foi a Paróquia de São Paulo Apóstolo,

criada no fim da década de 70 no Trujillo. Ficaram famosos os

bingos realizados para angariar fundos e completar o prédio da

igreja, isso sem falar nos almoços e jantares beneficentes. O

termo “Feijoada do Belini” virou grife, a ponto de ser impresso

no convite para atrair o público.

— Começamos a fazer parte da comunidade quando

fomos convidados por um casal de amigos, seu Atílio Sbrana e

a Odete. E a igreja foi praticamente erguida à base de feijoada e

de outras coisas que a gente fez. Almoço espanhol, almoço

francês, noite italiana... — recorda Jane.

— No começo, as missas eram realizadas num salão no

Hospital Santa Edwiges, atual Hospital Modelo. Depois foi

feito o salão, e em seguida construíram a igreja em cima, um

belo prédio de esquina. A equipe era muito boa — diz Belini,

53

que se lembra das noites em claro assando carnes numa padaria

próxima à igreja, antes de o salão contar com uma cozinha

adequada para tais banquetes. — O dono era uma pessoa muito

boa e cedia o forno durante a madrugada, quando ele não

estava usando. E lá íamos nós, eu e o Odécio, meu fiel

escudeiro, varar a noite atrás das carnes.

Aos poucos, o professor de ensino fundamental foi

virando mestre também na cozinha. Sem medo de “perder a

moral”, Belini não se furta de ensinar o know-how aos

interessados – afinal, hoje em dia a saúde já não lhe permite

tanto esforço, embora não o impeça de continuar em ação.

— Toda a atividade tem o chamado “pulo do gato”. No

caso da comida, é preciso achar o ponto certo de cada coisa e

conhecer os porquês: por que o fogo deve ficar baixo, por que

precisa mexer a panela de um jeito assim e não assado. A

feijoada, por exemplo, não pode mexer de qualquer jeito. Tem

que ser de baixo para cima, para não queimar o feijão e não

desmontar as carnes, que vão ficando moles depois de muito

tempo no fogo — explica, com riqueza de detalhes. — Aprendi

tudo isso na base do ensaio e erro. Faltava merendeira, eu ia lá

ajudar. Hoje, graças a Deus, tenho esse conhecimento e gosto

de ensinar. Para quem pergunta e quer mesmo aprender, eu

ensino tudo. E, enquanto puder, vou continuar ajudando.

4

VOTE BELINI

57

A entrada na Arena

As atividades comunitárias tornaram Belini e Jane

conhecidos em toda Sorocaba, que já era uma cidade de grande

porte. E o nome do professor passou a ser cogitado para a

política. Cogitado, não: Belini foi praticamente empurrado para

dentro da política. A convite do prefeito Armando Pannunzio,

já um velho conhecido, ele assinou à filiação à Arena, o partido

que dava sustentação ao regime militar, e saiu candidato a

vereador nas eleições de 1976.

— A política regional era diferente da política nacional,

aqui a gente não tinha envolvimento com ditadura, essas

coisas. Em Sorocaba, depois do golpe, com o bipartidarismo, o

pessoal mais antigo foi para a Arena, como o Armando

Pannunzio e o José Crespo Gonzalez, outro excelente prefeito,

enquanto o pessoal mais jovem se filiou ao MDB. Um dia o dr.

Pannunzio foi à minha escola falar de alguns benefícios que a

prefeitura tinha feito para a região. O secretário municipal da

Arena foi junto, com uma ficha de filiação. E eu me filiei.

58

As eleições de 1976, no entanto, foram marcadas em

todo o Brasil pela vitória avassaladora do MDB, partido que

reunia a oposição aos militares. Em Sorocaba não foi diferente,

e o jovem advogado José Theodoro Mendes atropelou o

candidato da Arena, Laelso Rodrigues. O MDB fez 15 dos 21

vereadores, e Belini acabou não se elegendo – ficou como

suplente, sendo o sétimo mais votado pela Arena.

— Eu tive 1.072 votos, o que foi proporcionalmente

uma votação muito boa para uma cidade que tinha, na época,

60 mil eleitores. Principalmente porque eu era forte numa

região mais carente, onde as pessoas não costumavam votar na

Arena. Mas o MDB teve uma vitória esmagadora na cidade.

— Na primeira vez que ele saiu para vereador eu não

me incomodei, porque eu não sabia que seria tão complicado,

eu nunca fui uma pessoa politizada. Depois, eu não gostei, mas

não adiantou nada. Ele tinha sangue de político, até hoje tem

— conforma-se Jane.

A ressaca pela derrota eleitoral não durou muito: os

vereadores do MDB logo se interessaram pelo professor que ia

atrás de merenda nas escolas mais ricas da cidade e fazia

almoços no CPP e nas igrejas. Belini mudou de partido, e nas

eleições de 1982, saiu candidato pelo PMDB, como o partido

passou a se chamar na volta ao pluripartidarismo. Já como

59

diretor da Escola Estadual Marina Grohmann, no Trujillo,

Belini usou a educação e a merenda como motes de campanha.

— Sorocaba tinha um problema sério: a prefeitura era

do PMDB, mas o governo do Estado era da Arena, depois PDS,

indicado pelos militares. Por ser da oposição, a cidade era

castigada, deixada em último plano. No governo que começou

com o Paulo Maluf (1979-1981) e depois do José Maria Marin

(1982), foram feitas pouquíssimas escolas, e a cidade ficou

com um déficit de umas 200 salas de aula. Tinha escola com

aula em cinco períodos, tamanha era a falta de espaço.

Em 1982, os brasileiros escolheram os governadores de

Estado pela primeira vez em quase 20 anos. E mais uma vez

mostraram seu descontentamento com o pessoal dos quartéis: a

oposição fez a maioria dos governadores, incluindo os

principais Estados. São Paulo passou a ser comandando por

André Franco Montoro, do PMDB – que também ganhou as

eleições municipais de Sorocaba, com Flávio Chaves. Estava

desenhado o cenário ideal para reestruturar o ensino na cidade.

Belini e os famosos

Com quase 30 anos de magistério, e um dos vereadores

mais votados da cidade, o professor Belini acabou virando um

60

dos braços direitos de Flávio Chaves nos assuntos ligados à

educação. Ganhou moral e se sentou à mesa com políticos que

até hoje estão nas manchetes.

— Tive 1.664 votos, ou seja, aumentei quase 50% em

relação à eleição anterior, tudo à custa de muito trabalho. Aí, o

Flávio Chaves me chamou para participar de uma reunião com

o novo diretor regional de ensino, e eu recebi carta branca para

conversar com todos os diretores das escolas e transmitir os

problemas para o governo do Estado. Fui a São Paulo, o

prefeito me levou para conhecer o governador Montoro, o vice,

que era o Orestes Quércia, o José Serra, que era o secretário de

Planejamento e mandava no dinheiro do Estado, e o secretário

de Educação, Paulo Renato Souza, que depois foi ministro. Era

um pessoal de primeira linha.

Depois de muitos entraves burocráticos, a cidade

começou a recuperar o tempo perdido e recebeu 33 novas

escolas do Estado entre 1986 e 1992, além de obras de

ampliação em outras 15 unidades. Belini, que a essa altura já

estava aposentado como professor e podia dedicar 100% de seu

tempo à cidade, sugeriu a criação de zeladorias nas escolas:

casas para funcionários dentro do perímetro escolar, para

reduzir a criminalidade. Nada de novo para quem havia morado

anos dentro da escola, em Monte Castelo e em Canguera.

61

— Claro, muito melhor do que as casinhas em que nós

vivemos. Levei a sugestão para o Paulo Renato, houve alguma

resistência por causa de possíveis problemas trabalhistas, mas

aos poucos eles perceberam que valia a pena, e até hoje as

escolas são construídas com uma zeladoria. Antes era terrível,

na sexta-feira à noite você tinha de tirar tudo, até as lâmpadas

do galpão, dispensar os alunos mais cedo. E na segunda-feira

chegar uma hora mais cedo, para colocar tudo de novo.

A merenda também não saiu do foco. O professor que

outrora rodava a cidade com o próprio carro, atrás de comida

para os alunos da periferia, passou a fazer campanha pela

chamada Merenda Única: que a mesma alimentação fosse

distribuída tanto nas escolas do Estado como nas municipais.

— A merenda sempre foi assim: o Estado mandava e a

prefeitura distribuía pelas escolas. Aos poucos o Estado mudou

e começou a mandar verba, e minha briga passou a ser para que

tivesse a merenda única, porque às vezes havia escolas

vizinhas, separadas só por um alambrado, e a comida da escola

municipal era muito melhor do que a da estadual. Isso acabou.

O trabalho foi recompensado: em 1988, Belini ganhou

seu segundo mandato na Câmara Municipal, com 1.825 votos.

Pôde dar prosseguimento ao trabalho até 1992, quando tentou

nova reeleição, mas acabou derrotado – por causa de 22 votos,

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perdeu a última vaga do PMDB e acabou como suplente.

Aceitou o convite do prefeito eleito, Paulo Mendes, do mesmo

partido, para trabalhar como assessor na Secretaria da

Educação, em contato direto com as merendeiras.

Saindo de cena

Em 1996, depois de quatro anos de trabalho na

prefeitura, Belini não quis se candidatar, atendendo ao pedido

de Jane. Mas em 2000 não resistiu: entusiasmado com o novo

PHS, partido que em Sorocaba era comandado por líderes

comunitários da Igreja Católica, saiu novamente candidato,

mas não se elegeu. Teve 821 votos, a terceira maior votação do

pequeno partido, que não elegeu ninguém.

Em 2004, de volta ao PMDB, a convite de Flávio

Chaves, Belini se candidatou mais uma vez, mas tampouco

teve sucesso: foram 735 votos, o sexto mais votado do partido,

que só fez um vereador. Da política, ficaram o apelido “Edil”,

dado pelos filhos e amigos nos tempos de vereador, e a certeza

de que, apesar das derrotas, valeu a pena manter seu jeito de ser

e receber um tipo especial de reconhecimento.

— Um dia passei por um caminhão do Saae e um rapaz

desceu para me cumprimentar: “Seu Belini, estou no Saae

63

desde aquele tempo que o senhor me colocou lá”. Isso me

acontece sempre, e se hoje eu tenho essas demonstrações de

afeto, em todo lugar, é porque eu sempre tratei bem as pessoas,

com respeito, eu gostava do que fazia.

E por que isso não resultou em seguidos mandatos na

Câmara Municipal?

— O problema é que o povo tem memória curta,

principalmente as pessoas mais simples. Se você não cobrar,

elas se esquecem rápido das boas coisas na hora de votar. E eu

nunca marquei nada para cobrar um voto de alguém. Alguns

amigos me falam: “Na hora da eleição eu cobro mesmo, porque

na época em que a pessoa precisou de mim eu trabalhei para

ela. Pelo que você ajudou as pessoas, seu gabinete era cheio de

gente, era para nunca ter saído”. Eu tive mais de 30 anos como

professor, 10 na Câmara, mais quatro anos na prefeitura, e

sempre fui o mesmo, nunca cargo nenhum me subiu à cabeça.

Se, quando eu morrer, São Pedro me disser lá em cima: “Você

abusou do pobre, você usou o pobre para se beneficiar”, a

gente vai sair no tapa, porque isso eu nunca fiz.

5

TRABALHO PARA DEUS

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Professora do Senhor

Enquanto Belini se dedicava à política, Jane, que nunca

deixou de dar aulas para o ciclo básico, de alfabetização,

continuou a lecionar mesmo depois da aposentadoria, em 1984.

Nas aulas, em vez das primeiras letras e números, ensinava a

palavra de Deus a crianças que se preparavam para a Primeira

Comunhão.

— Eu tinha 47 anos quando me aposentei, e minhas

amigas perguntaram o que eu ia fazer, se voltaria a dar aulas,

porque a maioria volta a trabalhar, o salário é pouco. Mas eu

dizia: “Não, a partir de agora eu vou trabalhar para Deus”.

Os Michelacci eram espíritas – Orlando e Waldemar,

dois dos irmãos de Jane, chegaram a comandar um centro no

Além-Ponte –, mas ela nunca se deu bem com a crença. Aos 19

anos, resolveu se converter de vez ao catolicismo e pediu o

Batismo a um padre da Igreja Bom Jesus, perto de sua casa.

— O padre perguntou por que eu queria ser batizada, e

eu disse: “Não fui feliz até hoje, sem ser batizada”. Aí eu me

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confessei, ele perguntou quem seriam os meus padrinhos.

“Santo Antonio e Nossa Senhora”. O padre rebateu: “É, você

está muito bem assessorada”.

Jane recebeu o Batismo e a Primeira Comunhão. Casou-

se na Igreja e sempre freqüentou com Belini, filho de família

fervorosamente católica, as missas e os terços – em Monte

Castelo as famílias da zona rural se reuniam regularmente para

a oração consagrada a Nossa Senhora. Mas ficou faltando um

sacramento, o Crisma, que ela só foi receber aos 49 anos, com

a sogra, Dona Maria, como madrinha.

— Eu já era catequista, e falei para o Belini que isso

me fazia falta. Achava que não poderia ser uma catequista por

inteiro. Então fiz um cursinho para adultos na Paróquia do

Divino Espírito Santo, no Jardim São Paulo, e fui crismada. Foi

muito emocionante.

Mulher no volante...

É dos tempos de catequista que Jane guarda talvez sua

maior frustração: não aprender a dirigir. Tirou a carta, mas não

conseguiu domar a Brasília que adquiriu em 1988.

— Meu sonho era dirigir, para ser um pouco mais

independente do Belini, porque ele trabalhava muito, era

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vereador, ficava o dia inteiro fora de casa. Então falei para o

Paulo que tinha um dinheiro guardado e ia comprar um

carrinho para mim, e ele falou que me ajudaria se fosse preciso.

E eu comprei uma Brasília branca, ano 1980.

Jane usava o carro basicamente para fazer compras e ir

até a Igreja, que ficava a pouco mais de um quilômetro de sua

casa. Pouco para aprender a dirigir de fato – e em meio às

recordações sobra até uma bronca para o maridão.

— Eu fiz 28 aulas e passei no primeiro exame, mas a

gente sai da auto-escola sem prática, é como o curso de

Magistério, você pensa que aprende tudo e, na primeira vez que

entra na classe para dar uma aula, vê que a maioria das coisas é

diferente. E o Belini precisava ter me ajudado, mas não tinha

paciência nenhuma de me ensinar. Quando saía comigo na

Brasília, só me xingava: “Você vai matar um, você vai

atropelar um, você não nasceu para dirigir”. E nisso eu não

consegui dominar o carro, ele é que me dominava.

Na época, eles haviam comprado outro terreno no

Trujillo, na rua Pombal Ruggeri, e precisavam de dinheiro para

seguir com a construção. E, depois de bater no portão de casa,

de amassar uma poltrona de vime em plena garagem, de sofrer

com medo de assaltos em rápidas idas ao supermercado ou à

Igreja, e de ser ofendida à toa, Jane decidiu vender a Brasília.

70

— Eu estava voltando da catequese e fiz outro trajeto,

diferente do que eu estava acostumada. Passou um caminhão e

o motorista me xingou: “Sua maluca, vai lavar roupa, vai

arrumar a cozinha”. Cheguei em casa e pensei: “Meu Deus,

acho que não dou para isso mesmo”. Daí, como nós

precisávamos continuar a construção da casa, vendemos a

Brasília. Eu tenho a carta na minha bolsa, como uma relíquia,

sempre falo para o Belini que pode escrever na minha lápide:

“Esta aqui é frustrada, morreu com vontade de dirigir bem e

não conseguiu”. Se eu fosse espírita eu iria querer voltar na

próxima encarnação como motorista ou piloto de corrida.

Prontos a ajudar

A aventura no volante é apenas um episódio pitoresco

numa carreira que Jane deseja retomar. Ela deixou a catequese

em 1997, depois de 14 anos de serviços prestados, porque

precisava dedicar mais tempo aos netos. Hoje, que eles já estão

mais crescidos, a eterna professora diz que sente muita falta do

contato com as crianças.

— Eu amo a catequese como amava o magistério.

Sempre gostei de ensinar, se nascesse de novo ia querer ser

professora, tudo de novo. Quando dava aula, às vezes deixava

71

os quatro filhos doentes em casa, mas entrava na classe e me

esquecia de tudo, e com a catequese era a mesma coisa. Talvez

eu volte, já fui convidada algumas vezes. O Belini acha que eu

não devo, já tenho serviço demais e a gente não tem empregada

todos os dias. Mas é só uma hora por semana, mais uma hora

para preparar a aula, que eu gosto de deixar bem certinha, bem

ajeitadinha. Acho que dá.

Serviço comunitário, de fato, não falta para o casal, que

colabora regularmente com a Toca de Assis, grupo ligado aos

franciscanos que atende a moradores de rua de Sorocaba,

oferecendo refeições e um espaço para descanso e banho. Além

disso, reúnem-se todas as segundas-feiras com um grupo de

amigos e parentes para a oração do terço, e às quintas-feiras, é

a vez da reunião dos vicentinos.

O chamado a participar da Sociedade de São Vicente de

Paulo, grupo que existe no mundo inteiro e atende a mais de

400 famílias só em Sorocaba, veio várias vezes pelos sobrinhos

Sergio e Inês, que eram membros da Conferência Santa

Filomena. Mas, com os outros compromissos, a decisão foi

ficando sempre para depois. A hora chegou em 1994, com a

morte repentina de Inês, vítima de uma crise de diabetes.

— Nós ficamos preocupados com o Sergio, porque ele

ia ficar sem companhia para ir às reuniões, a conferência era

72

toda de casais. E a Inês convidava muito, mas a gente sempre

dava uma desculpa — conta Jane. — Então, quando o Sergio

ficou viúvo, logo em seguida nós começamos a participar da

conferência. O Sergio nos levou e falou: “Vocês vão e

participam de uma reunião. Se gostarem e acharem que é bom,

vocês ficam.” E nós ficamos todos esses anos.

— Nós sempre fizemos um trabalho filantrópico muito

grande, nas escolas, nas igrejas, mas não éramos vicentinos. A

Inês convidava, mas a gente sempre protela, né? “Depois eu

entro.” Com a morte dela, nós fomos convidados para entrar na

Conferência Santa Filomena e começamos enfim a fazer esse

trabalho — completa Belini.

Para conseguir dinheiro, a conferência participava todos

os anos da Festa Junina Beneficente de Sorocaba, vendendo

pastéis, lanches e churrasquinhos numa das barracas. E Belini

passou a contar com um novo escudeiro.

— Desde que entrei na Santa Filomena tive a ajuda do

José Maria Padre, o Zague, que sempre me ajudou nas mais

diversas tarefas. Na época da festa junina, era ele que espetava

a carne, e olhe que a gente chegava a vender mais de 1.500

espetinhos num fim de semana! Ele é um grande colaborador e

amigo, a ponto de dizer hoje, com orgulho, que seu nome é

“José Maria Padre Belini”.

73

Sempre com espírito de liderança, Belini assumiu a

presidência da conferência, e depois, quando o grupo cresceu

demais, eles se juntaram ao sobrinho Sergio e a outros

participantes para reativar outra unidade, a Conferência Nossa

Senhora de Fátima, da qual Belini é o atual presidente, com

Jane sempre a seu lado nas visitas semanais às famílias

atendidas. Ele também participa da diretoria do Lar São

Vicente de Paulo, que assiste a mais de 100 idosos carentes – já

foi vice-presidente e hoje atua como Diretor de Patrimônio.

Ficar parado não é mesmo com esses dois.

6

A FAMÍLIA AUMENTA

77

Casa nova

No Natal de 1991, ao lado de toda a família, como era o

costume, Jane e Belini inauguraram sua nova casa, na rua

Pombal Ruggeri, também Trujillo, a cerca de 600 metros da

antiga. Alguns anos antes, Belini aproveitara uma pechincha

para comprar o terreno. Depois, para levantar a casa, usou o

salário de vereador e viveu com o de professor aposentado.

— O dono do terreno era meu conhecido e precisava do

dinheiro para a filha fazer uma cirurgia, então aceitou vender

pela metade do preço que valia. E eu raspei a minha conta,

emprestei um pouco que faltava, vendi dois consórcios e

comecei a construir.

Neto, o filho caçula e único ainda solteiro, comprou a

casa em que viviam na época, e o dinheiro ajudou a dar uma

“arrancada” na obra. Depois, um providencial reajuste

concedido pelo governador Luiz Antonio Fleury Filho, no

segundo semestre de 1991, ajudou a concluir a casa, com tudo

a que eles tinham direito: é uma casa com três andares, três

78

quartos grandes, uma suíte, uma sala de visitas que toda

semana hospeda a reza do terço, uma piscina pequena, um

salão de festas que dificilmente passa mais de um mês sem

receber algum encontro e uma cozinha com geladeira, freezer e

fogão industrial, onde Belini continua exercitando o hábito de

preparar suas guloseimas.

— O terreno tinha um formato muito irregular, então

precisou fazer vários recortes, e a casa acabou ficando grande,

com três pisos — justifica Belini. — Mas é verdade que não

deixa de ser um luxo para quem chegou a morar numa

cabaninha atrás da escola...

Caça aos netos

A conclusão da casa veio na medida para os netos, que

enfim começaram a chegar, depois de anos de ansiosa espera

dos avós. Dos filhos, Paulo foi o primeiro a se casar, com a

também advogada Cida, em janeiro de 1984. Cristina,

farmacêutica, casou-se com o engenheiro Roberto em 1987, e

um ano depois foi a vez de Júlia, formada médica pela Unesp

de Botucatu, unir-se a Beto, médico graduado na mesma

faculdade. Os dois decidiram morar em Bauru, cidade natal

dele, a 250 quilômetros de Sorocaba.

79

— Eu tinha medo de morrer sem ser avó — admite

Jane. — Eu sempre disse a Deus que queria ter um neto antes

de partir deste mundo.

Até então, o mais próximo de neto que eles tinham

eram os sobrinhos-netos Luís Fernando e João Marcos, o Caco,

filhos de Sergio e Inês, que foram os primeiros usuários

regulares da piscina da casa nova. Em setembro de 1992,

nasceu Maria Angélica, filha dos sobrinhos Ana Júlia e Luiz,

ela dentista e ele médico. Faltavam apenas os netos de fato. E

foi Júlia, justamente a filha que morava mais longe, que

providenciou Laís, a primeira netinha para Belini e Jane.

— Nós temos umas amigas que são assistentes sociais e

trabalham com adoção. E uma delas, chamada Geni, foi até a

farmácia conversar com a Cristina e contou que havia uma

criança que ia nascer, a mãe não tinha condições de cuidar e ia

entregar para a adoção — conta Jane.

Cristina repassou a informação à irmã, que aceitou

adotar a criança, sem saber se seria menino ou menina ou ter

maiores informações do que a cidade natal, Riversul, no sul de

São Paulo, divisa com o Paraná. Jane e Belini foram até Bauru,

e a ansiosa avó fez questão de acompanhar os pais até Riversul.

— Foi uma odisséia, a gente demorou muito para

conseguir achar o bendito juiz que ia autorizar a adoção.

80

Quando chegamos no hospital, a Laís estava embrulhadinha

num cobertor, sozinha no quarto. Sujinha, mas linda, uma

boneca. Entramos no quarto, um de cada vez, e todo mundo

que entrou saiu chorando. A gente tinha levado algumas

roupas, pegamos a bacia, demos um banho, uma mamadeira, e

a menina saiu uma verdadeira Cinderela do hospital — recorda

a orgulhosa avó, até hoje muito ligada à primeira neta apesar da

distância, já que Júlia, mesmo depois de se separar do marido,

continuou vivendo em Bauru.

Cristina e Roberto foram padrinhos de Laís, e no ano

seguinte foi a vez de a filha mais velha engravidar, com o

auxilio de um tratamento. Em agosto de 1995, nasceu Vítor. O

parto foi realizado no Hospital Modelo, a dois quarteirões da

casa dos avós, mas Belini não estava em Sorocaba para

acompanhar seu primeiro neto homem – estava junto com

outros homens, inclusive o filho Paulo, numa pescaria no Mato

Grosso, hábito que preserva até hoje, na medida do

financeiramente possível.

Paulo foi pai no ano seguinte, pelos mesmos meios da

irmã Júlia. Cida tinha dificuldades para engravidar e mais uma

vez a assistente social Geni colaborou para ampliar o clã.

— A Geni foi até a farmácia e disse: “Cristina, tem uma

criança que vai nascer, a mãe é muito pobre, tem apenas 14

81

anos e mora com a avó. E essa criança é pro seu irmão, pro

Paulo.” O Paulo convenceu a Cida e a Maria Paula chegou aqui

em casa — conta Jane, que havia saído horas antes com a mãe

de primeira viagem para providenciar o enxoval da menina,

que também é um grude com a avó. — Outro dia ela me disse

que queria que eu vivesse 140 anos! Às vezes a gente sai, de

braço dado, e se eu quero comprar alguma coisa ela diz que não

precisa, que eu já gastei demais com ela.

Milagre em forma de criança

Em 1997 apareceu o quarto neto, Felipe. Cristina

engravidou novamente, mas dessa vez teve uma gestação

turbulenta, com vários problemas. E descobriu, semanas antes

do parto, que o bebê era portador da Síndrome de Down e, em

conseqüência disso, tinha um grave problema cardíaco –

faltava-lhe uma válvula, vital ao funcionamento do coração.

— Quando ela soube, morreu de medo de perder o

filho. E eles foram direto para São Paulo, o Fê nasceu na

Beneficência Portuguesa — diz Jane.

Desesperados, os avós recorreram aos céus. Era a época

da beatificação de Antonio Frederico Ozanam, o escritor e

jurista francês que havia fundado a Sociedade de São Vicente

82

de Paulo em 1833. O casal de vicentinos não hesitou para

entregar a saúde do neto recém-nascido ao candidato a santo,

que não decepcionou seus devotos.

— O problema maior não é o Down, mas o coração. E o

Fê foi operado com cinco meses para a colocação de uma

válvula artificial. Imagina, um bebê de cinco meses, passou por

UTI, sofreu duas cirurgias em dois dias seguidos, teve o

coração praticamente reconstruído. Só pode ser um milagre —

atesta Belini.

A previsão dos médicos era de que Felipe precisasse

voltar à mesa de cirurgia aos 5 anos, para colocação de uma

nova válvula, pois o aumento do coração acompanha o

crescimento da criança. No fechamento deste livro, Felipe

estava com 10 para 11 anos, e até então não houve necessidade

de outra operação.

— Estamos pensando em juntar toda a documentação

do caso e entregar para os dirigentes vicentinos, porque é um

caso que pode ser analisado para a canonização de Ozanam —

explica o avô. — A Cristina continua acompanhado, é claro,

tem que ir sempre ao médico, analisar, ver se não precisa

mesmo trocar a válvula.

— Para nós, pelo menos, é um milagre, e Ozanam já é

santo em nossos corações — completa a agradecida avó.

83

No ano seguinte, a família aumentou novamente: Beto e

Júlia adotaram mais uma menina, Flávia. Dessa vez, porém,

nada de epopéia, como lembra Jane.

— Um dia o Beto ligou para mim e disse “Dona Jane,

ontem quase a senhora foi avó de um menino aqui em Bauru”.

Homem sempre quer ter um menino, né? E apareceu um para

adoção no hospital em que ele atendia, mas não deu certo.

Depois de um tempo, quando a Laís já tinha cinco anos, o Beto

foi à maternidade para uma visita a um paciente, e a

enfermeira-chefe disse para ele: “Doutor, tem uma menina que

nasceu aí, a mãe mora no sítio e disse que não pode criar, não

tem condições, e vai deixar aí para ser adotada”.

Sem conversar com a mulher, Beto pediu que a

enfermeira esperasse um pouco antes de entrar em contato com

o Juizado de Menores e foi dar uma olhada no inocente bebê.

— Ele se apaixonou pela menina, e foi falar com o juiz

para conseguir a autorização, mas tudo isso sem falar com a

Júlia. Contou para o juiz que eles eram médicos, disse que eles

já haviam adotado a Laís e tinham condição para criar mais

uma filha, e o juiz deu a guarda provisória da Flavinha. Daí que

ele contou para a Júlia, que levou um susto — relata a avó.

Belini e Jane viajaram para Bauru o mais rápido

possível, e logo também se encantaram com a nova netinha.

84

Ainda em 1998, em outubro, nasceu mais uma sobrinha-neta,

Maria Silvia, adotada por Ana Júlia e Luiz. Depois, demorou

bastante tempo até que a família aumentasse novamente. Só no

começo de 2004 é que o caçula Neto, economista e gerente de

banco, desde 1995 casado com a também bancária Renata,

providenciou José Guilherme. À época, eles viviam em Mogi

das Cruzes, e lá se foram os orgulhosos avós para acompanhar

de perto as primeiras respirações do mais novo neto.

— Ele assustou a gente um pouco no começo, porque

tinha icterícia, era amarelinho, e precisava ficar na estufa

tomando banho de luz — recorda Belini.

— E hoje está aí, enorme, inteligentíssimo, um meninão

lindo — interrompe Jane. — O único que me chama de “nona”.

Porque o Belini sempre pediu que as crianças o chamassem de

“nono”, ele gosta dessa tradição, das raízes italianas. Mas eu

sempre preferi “vovó”, ainda que as crianças só digam “vó”.

Da primeira vez que ele falou “nona” eu me assustei, mas hoje

estou acostumada, quem estranha são os outros netos.

Jane e Belini foram pegos de surpresa quando a família

aumentou de novo. Paulo e sua segunda esposa, a também

advogada Érika, tiveram Fernanda em maio de 2007.

— Essa também é uma esperteza — diz o “nono”. —

Agora está ficando em pé, gosta de folhear os livros, mas

85

também é uma santinha, tranqüila, quietinha. A Érika trazia a

menina na novena de Natal e a gente nem percebia, porque ela

não chorava, não atrapalhava em nada.

— A gente já não esperava, mas quantos mais netos

vierem, melhor — reconhece Jane. — A maior bênção de Deus

para um casal são os netos. Porque o amor que você tem pelos

filhos é muito grande, é como o amor de Nossa Senhora, você

sofre e vibra com os filhos, e com os netos é a mesma coisa,

são duas vezes filhos. Você não consegue desligar da tomada o

amor pelos filhos, apesar de todas as tempestades que a gente

acha que só acontecem com o vizinho.

Entre as “tempestades” citadas por Jane incluem-se as

separações de três dos quatro filhos num intervalo de

praticamente um ano, entre 2001 e 2002. Mais uma vez, restou

à fiel mãe apelar para os céus.

— A gente sofre junto com eles, mas não pode fazer

nada, só rezar e pedir para Deus e para Nossa Senhora que

ajudem e façam o melhor possível. Tem um ditado assim:

“Quando os filhos são pequenos, você fala de Deus para eles.

Quando eles crescem, você fala dos filhos para Deus”. E é isso

mesmo, sem dúvida.

7

VIDA QUE SEGUE

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Amando

Como já não trabalham, os avós colaboram o quanto

podem com a criação dos netos. Belini lembra que em 2007

seguiu uma rotina pré-estabelecida com compromissos quase

todos os dias.

— Na segunda-feira eu pegava o Felipe pela manhã,

levava na Fonoaudióloga, uma hora depois voltava e o deixava

em casa. Na segunda à tarde nós geralmente fazemos a visita a

um dos assistidos da conferência. Na terça-feira era a vez do

Vitor, que depois da escola tinha catequese e inglês. Então,

depois das 4 da tarde, eu ficava à disposição dele. E na quarta-

feira era o dia da Maria Paula, eu pegava na casa, trazia para

minha casa, nós almoçávamos, eu levava no dentista quando

ela precisava, depois ficava quase a tarde toda ao dispor.

Belini criou até dois apelidos bem-humorados para

ilustrar a “profissão” de avô-motorista: “Jaque” e “Amando”.

— “Jaque tá aí aposentado, faça isso para mim”, ou “Tô

‘amando’. A mando de fulano, vou fazer isso e isso” — brinca.

90

— É um trabalho que a gente tem de atenção aos netos,

para ajudar nossos filhos, que eu brinco, mas faço com o maior

prazer. Eles trabalham, têm os compromissos deles, e gente faz

o que pode para colaborar, já estivemos nessa situação — diz o

ex-professor, recordando os tempos de aulas, viagens e dias

inteiros fora de casa.

A atividade com os netos faz bem ao casal, que, na casa

dos 70 anos, vira e mexe sofre com algum problema de saúde.

Belini já passou por cirurgias no ombro e na coluna cervical,

teve uma flebite numa das pernas que o deixou de molho no

meio de uma das campanhas eleitorais e, no começo de 2008,

sofreu duas cirurgias, uma na bexiga e outra na próstata, para

retirar alguns cálculos.

— Alguns grandes, do tamanho de um grão-de-bico.

Dava até para fazer um puchero — mostrava, ainda no hospital.

Jane, por sua vez, teve uma grave meningite, logo

depois de completar 40 anos, que a deixou um bom tempo

hospitalizada. Também operou os joelhos, para a extração dos

meniscos, e de uns dez anos para cá, sofre com um barulho

crônico no ouvido direito.

— Eu comecei a perceber que esse ouvido estava com

dificuldades de audição, e depois apareceu um barulho. Era um

ruído pequeno, que no começo dava para suportar, mas depois

91

acabou aumentando e virando um tipo de zumbido, bem

estridente, que às vezes é insuportável.

Jane foi a vários médicos, muitos deles especialistas de

renome, para tentar descobrir a razão do problema, mas não

obteve nenhuma resposta satisfatória, além de saber que tinha

um pequeno tumor e que ele poderia ser a causa do ruído. Por

recomendação de um dos otorrinolaringologistas que visitou,

dr. Ricardo Ferreira, no Hospital das Clínicas, em São Paulo,

decidiu fazer uma cirurgia para extração do canal auditivo.

— Ele deu um relatório grande dos riscos que eu estava

correndo. Disse que eu podia ficar para o resto da vida com

paralisia facial, sem abrir ou fechar os olhos, e que eu até corria

risco de vida, além de ficar surda desse ouvido. E ainda disse

que, mesmo assim, não sabia se o barulho ia cessar, porque

meu cérebro poderia ter “gravado” o ruído na memória.

Consciente dos riscos, Jane topou “entrar na faca”,

depois de saber que o médico não cobraria nada pela operação,

por se tratar da mãe de uma médica. Com a fé de costume, ela

foi para o centro cirúrgico com um terço na mão.

— Fiquei 8 horas na mesa de cirurgia, o terço sumiu,

não me entregaram de volta. Quando acordei, não tinha

nenhuma seqüela, tudo normal, saí do jeito que entrei. Mas o

barulho continuou.

92

Ela já testou outras alternativas, como uma bolinha de

silicone para tapar o ouvido, um aparelho auditivo que emite

sons para mascarar o incomodo ruído, tratamentos de hipnose e

regressão. Tudo isso, com pouco ou nenhum sucesso. Em

fevereiro de 2008, pensava em procurar um dentista, depois de

descobrir que a causa do irritante zumbido pode ser um

bruxismo, que por muito tempo a fez ranger os dentes.

Enquanto isso, aprendeu a conviver com o barulho e adquiriu

uma nova devoção, em busca de mais uma graça divina.

— Foi minha sogra que me ensinou a rezar para Nossa

Senhora da Cabeça. Ela me disse: “Tenho uma oração que eu

rezei a vida inteira para nunca esclerosar, vou dar para você

rezar e tirar o barulho da sua cabeça”, e ela morreu lúcida, aos

97 anos, se despedindo de todos os filhos. Eu rezo todos os

dias. Comprei a imagem quando fomos a Aparecida, rezo

muito para ela. Tenho esperança. Quando não sei, mas sei que

vou ser curada. Acredito e confio nisso.

Feitos um para o outro

Num dia comum, Jane e Belini discutem pelo menos

uma dúzia de vezes, mas fazem as pazes em menos de 30

segundos. E, a cada minuto de conversa, torna-se mais e mais

93

nítido o amor que sentem um pelo outro. Amor que o sempre

durão Belini confessa ao admitir que, sem a esposa a seu lado,

jamais conseguiria ter dado conta de tanta coisa durante a vida.

— Eu só pude fazer tudo isso graças ao apoio que eu

tinha em casa da Jane. Se não fosse por ela, nada teria sido

possível — diz, sobre o incansável trabalho de busca por

merenda que teve em Lopes de Oliveira.

— E a Jane sempre dava todo o respaldo — reitera, dias

depois, quando recorda que praticamente só dormia em casa

nos 10 anos em que atuou como vereador.

— A Jane sempre estava junto comigo — confirma, ao

contar que, na equipe que o ajudava na preparação dos

deliciosos almoços na São Paulo Apóstolo, ali do lado, a alguns

metros, estava sua mulher, cortando legumes para a salada e

preparando o tempero do arroz.

Ela, por sua vez, se derrete ao ouvir o marido contar

sobre seu trabalho dos tempos de Câmara dos Vereadores.

— Ele tem uma história muito bonita, olhe quanta coisa

ele construiu, quanta gente ele ajudou — diz, interrompendo o

marido enquanto ele fala de sua luta pela Merenda Única.

No começo de 2008, por causa das cirurgias na bexiga e

na próstata, Belini teve de passar cerca de dez dias no Hospital

Unimed de Sorocaba – um sufoco para um homem agitado, que

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não consegue se ver preso, e que para completar tinha de passar

o dia todo segurando seu “cachorrinho”, apelido que deu à

bolsa para coletar a urina extraída por uma sonda.

Durante praticamente todo esse tempo, Jane esteve a

seu lado no amplo quarto do hospital. Dormindo no sofá,

conversando, agüentando os seguidos programas esportivos na

TV e as queixas dele sobre o mau desempenho do Palmeiras,

até mesmo comendo da mesma comida – ainda que o “doente”

tenha sido proibido de experimentar um saboroso bolinho de

espinafre a que ela, como acompanhante, teve direito.

E, ao confessar que não sentia a menor vontade de

voltar para casa, Jane deixou claro o laço que une esses dois

eternos apaixonados, após 50 anos de vida a dois:

— Ele fala que eu não preciso ficar o tempo todo, mas

de que adianta ir para casa se a minha cabeça está aqui? Eu até

vou para lá às vezes, para dar uma arrumada, ver como as

coisas estão, mas fico um pouco e já quero voltar. Meu lugar é

aqui, ao lado dele. Sempre foi assim, e sempre vai ser.

Para entrar em contato com o autor: Telefone: (15) 8124-7265

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