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QUANDO A F MOVEMOVE MONTANHAS ,

FRANCYS ALS E O ESPERANAR

MIRIAN CELESTE MARTINS

Estela Bonci. Espao, Movimentos, Traos: Ao,.2017. 56x70 cm. - Foto- ensaio composto por sobreposio de fotografias digitais da autora, realizadas durante as aulas da disciplina Contedos e Metodologia do Ensino de arte na graduao em pedagogia, Universidade Presbiteriana Mackenzie / So paulo / Brasil.

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Resumo

Ciente das mltiplas camadas potenciais para uma possvel anlise re-flexiva sobre se ensino da arte est em perigo, o texto aponta a impor-tncia do contexto atual e, sem que saia do horizonte, abre uma brecha a partir do princpio que guiou a proposio de Francis Als: Quando a f move montanhas realizada em 2002 no Peru: Mximo de esforo, mnimo resultado. Oportunidade, experincia, processos colaborati-vos e a estreita relao entre arte e vida costuram as reflexes que va-lorizam a vivncia potica, provocada pelo fazer ou pelo encontro com a arte, assim como a ao mediadora de artistas, curadores, gestores, pesquisadores e professores. Um enorme esforo com efeitos pouco vi-sveis, mas necessrios e vitais.

Palavras-chave: Arte; Mediao cultural; Ensino de Arte; Experincia esttica; Vivncia potica;

Abstract: Aware of the multiple potential layers for a possible reflec-tive analysis of whether teaching of art is a danger, the text points to the importance of the current context and, without departing from the horizon, opens a loophole from the principle that guided the proposi-tion of Francis Als: When faith moves mountains carried out in 2002 in Peru: Maximum effort, minimum result. Opportunity, experience, collaborative processes and the close relationship between art and life stitch together the reflections that value poetic experience, provoque by the act of to make and the encounter with art, as well as the mediating action of artists, curators, managers, researchers and teachers. A huge effort with effects that are barely visible, but necessary and vital.

Key-words: Art; Cultural mediation; Art Teaching; Aesthetic experien-ce; Poetic livingness.

Quando a f move montanhas, Francys Als e o esperanar

Quando Richard Long realizou suas caminhadas no deserto peruano estava propondo um conceito contemplativo, mas se distanciava do contexto so-cial. Quanto Robert Smithson construiu a Spiral Je-tty em Salt Lake, estava convertendo a engenharia civil em escultura e vice-versa. Aqui, estvamos tentando uma espcie de Land Art para os sem--terra e, com a ajuda de centenas de pessoas e ps, construmos uma alegoria social. Este relato no validado por um rastro fsico ou um agrega-do paisagem. quase um processo de alquimia que converte um roteiro em uma ao, uma ao em uma fbula e uma fbula em um rumor, graas multiplicao de seus narradores.Francis Als (2005 apud KONRATH, 2017, p. 177)

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Uma alegoria social. assim que Francis Als concebe a sua interveno pica: Quando a f move montanhas1 realizada no Peru em 2002, hoje pertencente ao acervo do MOMA Museu de Arte Moderna em Nova York. Uma enorme desproporo entre esforo e efeito, consi-derada por alguns como uma metfora da Amrica Latina.

Als visitou o Peru pela primeira vez em 2000, em meio a uma tenso social e emergente movimento de resistncia frente ao contexto poltico conturbado provocado pelo ditador Fujimori. Dois anos de-pois, Als reuniu 500 voluntrios que, com ps e coragem, moveram poucos centmetros de uma grande duna na periferia de Lima.

Mximo de esforo, mnimo resultado. Este foi o princpio que guiou sua proposio e me guia em minha tentativa de resposta ques-to chave deste livro: O ensino de arte est em perigo? por ele que sigo pensando e aqui compartilhando.

Camadas potenciais em contexto

O ensino de arte est em perigo? Responder a pergunta que nos foi colocada um enorme desafio, ainda mais num livro que tem o ttulo de Mediao: problemas e inovaes.

Por qual perspectiva responder j que so tantas as camadas po-tenciais para responder questo?

Poderamos traar uma linha histrica sobre o ensino de arte, fo-calizando a formao erudita desde os tempos medievais que se dividia no Trivium - disciplinas de Retrica, Gramtica, Lgica (dialtica) e no Quadrivium disciplinas de Aritmtica, Msica, Geometria e Astrono-mia. Tais disciplinas clssicas eram chamadas Artes Liberais, dentre as quais se destaca a Geometria (ligada ao sexto cu de Ptolomeu, esfera de Jpiter), da qual se originou a insero do Desenho no currculo laico, sendo este uma das tradicionais disciplinas das escolas moder-nas propagadas aps a Revoluo Industrial, segundo Paola Zordan (2000, s/n) .

Poderamos buscar resposta em Comenius (1592-1670) e sua Di-dtica Magna publicada em 1631 um mtodo universal de ensinar tudo a todos. L ele j avisava ao professor: [...] antes de se pr a instruir o aluno fora de regras, deve primeiro torna-lo vido de cultura, mais ainda, apto para a cultura e, consequentemente, pronto a entregar-se a ela com entusiasmo. (COMNIO, 1985, p. 173). O ensino de arte es-taria em perigo se nossos dirigentes e colegas professores tivessem se entregue cultura desde os seus tempos de escola?

Poderamos dar um pulo na histria e refletir sobre as polticas e as discusses da Base Nacional Comum Curricular recentemente edi-tadas no Brasil? Ou nos debruarmos sobre quais seriam os conceitos de ensino de arte que correm perigo. Aquele autoritrio que impe cpias; aquele que prope trabalhos livres e que abandonam os alu-nos a permanecer no que j sabem; aquele que valoriza o estudante e

1 Veja imagens da obra disponvel em: . Acesso em 20 maio 2018.

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que acredita na potncia de cada um que vive conosco um processo de aprendizagem?

Poderamos nos voltar reflexo sobre de que arte e de que cultura est em perigo... Ou um desvio para refletir propostas conec-tadas potncia do que tem sido denominado de giro educacional2, um movimento que nasce de artistas e curadores?

Enfim, o desafio nos leva a pensar sobre muitas camadas poten-ciais para uma possvel anlise reflexiva. Entretanto, com a compreen-so da importncia de todos esses aspectos, os abandono sem que saiam do horizonte. Algumas palavras-valise piscam para mim ao pensar em possveis respostas a to encalacrada questo: oportunidade, experin-cia, processos colaborativos e a estreita relao entre arte e vida.

Olho para estas palavras pensando na sala de aula no curso de Pedagogia, nas aulas no Curso da ps-Graduao em Educao, Arte e Histria da Cultura, nas bancas, nos congressos, nas reflexes junto aos grupos de pesquisa que lidero3, e tambm do que percebo nas institui-es culturais, nas oportunidades de viagens e na interao com meus netos.

Que me perdoem os pessimistas, mas Paulo Freire (1967, p. 53) me coloca a caminhar:

Realmente no h por que se desesperar se se tem a conscincia exata, crtica, dos proble-mas, das dificuldades e at dos perigos que se tem frente. A que a posio anterior de autodesvalia, de inferioridade, caracterstica da alienao, que amortece o nimo criador dessas sociedades e as impulsiona sempre s imitaes, comea a ser substituda por uma outra, de autoconfiana. E os esquemas e as receitas antes simplesmente importados, passam a ser substitudos por projetos, pla-nos, resultantes de estudos srios e profun-dos da realidade. E a sociedade passa assim, aos poucos, a se conhecer a si mesma. Renun-cia velha postura de objeto e vai assumindo a de sujeito. Por isso, a desesperana e o pes-simismo anteriores, em torno de seu presente e de seu futuro, como tambm aquele otimis-mo ingnuo, se substituem por otimismo cr-tico. Por esperana, repita-se.

Abandono um otimismo ingnuo e o recomponho como um oti-

2 Preferimos traduzir Educational Turn por Giro educacional como fa-zem os espanhis por considerar o termo giro mais dinmico do que uma vira-da, assim como um pio. 3 Grupos de Pesquisa: GPAP/arte na Pedagogia e GPeMC: Mediao Cultural: provocaes e contaminaes estticas do Programa de Ps-Gradua-o em Educao, Arte e Histria da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Para conhecer mais, convido para entrar no site: www.arte-peda-gogia-mediacao.com.br

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mismo crtico, embora reconhea os tempos difceis que atravessamos. Assumir-se como sujeito, gerar projetos e agir. Tentar pequena mudan-as em micropolticas comeando pelo que est ao nosso alcance. Uno--me Francis Als e penso na desproporo entre o mximo de esforo e o mnimo de resultado. E volto pergunta com Freire e Als...

A medida do encantamento

Em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as culturas, a arte est presente. Desde pequeno, o ser humano brincando explora o mundo sua volta amalgamando o cientista e o artista presente em seu modo de estar no mundo. Basta olhar as crianas brincando em um tan-que de areia ou beira do mar para isto se confirmar. A materialidade se oferece gentilmente a todo o tipo de forma, seja com baldes ou com a gua, com gravetos e ps. Criam bolos ou castelos, canais e estradas, em geografias e ou arquiteturas inventadas. Mil histrias so ali vividas, em exploraes solitrias ou coletivas

Esta fora inventiva e criadora vai encontrando incentivos na vida cultural e escolar ou pode ficar amortecida. No momento que es-crevo este artigo, est sendo veiculado um pequeno vdeo na Tv4 com uma campanha do Banco do Brasil na valorizao dos seus Centros Culturais (CCBB) nas cidades do Rio de Janeiro, So Paulo, Braslia e Belo Horizonte. A histria real. O menino de rua entra no CCBB no centro do Rio de Janeiro para matar sua sede. Foi recebido pelos fun-cionrios, entre eles, a Dona Tnia que tambm lhe dava convites para assistir espetculos. O menino foi descobrindo algo que j trazia em si mesmo. Hoje diretor de teatro, artista plstico, professor.

O filme emociona porque traz uma bela histria